• melody erlea

a derrota da gravata de trump


no dia 31 de março de 1814, a batalha de paris, consequencia da invasão da rússia alguns anos antes pelo imperador napoleão bonaparte, teve fim, deixando a frança derrotada e forçando napoleão a abdicar de seu trono e se exilar por alguns meses. antes mesmo desse clímax sangrento, napoleão já pressentia que o fim de seu reinado se aproximava, e foi nesse limbo dos dias pré-abdicação que o artista paul delaroche pintou seu retrato.

pega os signos que representam a derrota de bonaparte - a parte, é claro, de sua postura física e feição que indicam clara frustração: ele está com as botas e o casaco desarrumados e sujos, muito provavelmente de lama. parece que ele acabou de desmontar de seu cavalo e não teve forças pra sequer tirar as roupas sujas. seu chapéu, jogado no chão, demonstra o descaso de um homem que não precisa mais dos símbolos sartoriais de seu poder - um homem que já não tem mais poder pra ostentar, nem precisa das roupas que representam sua posição.


a sorte de napoleão é ter vivido em eras passadas e poder ter tido esse momento de realização de sua derrota em privado, dentro de seu quarto, com a companhia apenas do pintor. também foi sorte dele que um retrato demora muito mais pra ficar pronto do que uma foto de instagram, e a divulgação da sua postura derrotista não foi imediata. sorte a dele, também, não haver twitter no qual as pessoas pudessem ridicularizar, editar e adicionar efeitos a suas fotos. e vídeos também, sorte de napoleão que não tinha vídeo naquela época, né?

pois donald trump não teve a mesma sorte - sua única sorte e estar sendo comparado ao clássico e belíssimo retrato de napoleão por delaroche. pena que a comparação não é pelos motivos nobres e artísticos que se poderia imaginar.

o tema do mês de junho no repete roupa é visibilidade negra, mas tive que interrompê-lo momentaneamente porque me parece impossível não trazer essa imagem pra cá, alguns dias depois de eu comentar sobre os significados do colarinho desabotoado e sem gravata de philonise floyd, irmão de george floyd, ao depor no congresso americano sobre o assassinato de seu irmão por um policial.


pega esse trump, de gravata desamarrada e desmilinguida, e seu boné de beisebol da campanha eleitoral.

pensa o trump: um cara obcecado por imagem, por uma perfeição (quase ariana), por um modelo de ordem e uma beleza de concurso que se reflete em sua esposa, e se emula em tradições como a gravata.


e vamos lembrar que essa gravata é o principal símbolo sartorial do trump: vermelha, cor dos republicanos, com um nó perfeito e um comprimento afrontoso, cafona: é o trump numa peça de roupa

sua gravata-símbolo desgrenhada e seu boné vermelho de campanha nas mãos, como um técnico que acabou de ver seu time perder um grande jogo: quase uma admissão da derrota.

se juntarmos aos símbolos sartoriais a cara dele nessas fotos e o fracasso de seu último evento - um rally em tulsa, cidade onde, em 1921, houve um massacre da população negra pela população branca - a gente vê que, no caso de trump, a gravata desgrenhada é apenas mais um sinal de seu poder, também, se desgrenhando.


quem sabe vestir melhor sua derrota?


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