• melody erlea

a estranha história do livro de receitas do anarquista


"leia este livro, mas lembre-se que os tópicos aqui descritos são ilegais e constituem uma ameaça. além disso, mais importante, quase todas as receitas desse livro são perigosas, especialmente para o indivíduo que brinque com elas sem saber que está fazendo. tenha cuidado, atenção e bom senso. esse livro não é para crianças ou idiotas."


em 1969, william powell, um jovem rapaz de 19 anos escreveu e publicou o anarchist cookbook, um manual de "receitas anarquistas", em que descrevia em detalhes as instruções para uma série de atividades consideradas ilegais como plantar maconha, adquirir diversas outras drogas, montar bombas caseiras e coquetéis molotov, reconhecer e saber usar diferentes armas de fogo, facas e outros armamentos, sabotar veículos em movimento, construir armadilhas e todo outro tipo de habilidade necessária para navegar a sociedade e simultaneamente combatê-la.


o livro foi um sucesso total, principalmente pelas polêmicas que levantou à época - que acabaram catapultando o sucesso da publicação ao invés de enterrá-la. críticos chamavam a publicação de irrresponsável. o fbi mantinha o livro e seus leitores em constante vigilância e até hoje ele pode ser considerado contrabando se confiscado nas fronteiras dos estados unidos e aeroportos, ou se encontrado em residências durante buscas policiais - sem contar o arquivo de 171 páginas que o fbi colocou em domínio público em 2010, quando finalmente fechou as investigações sobre o caso. mães norte-americanas se chocaram com o conteúdo explicíto do livro, que trazia informações tão delicadas agora ao alcance de qualquer um que entrasse numa livraria, e mandavam cartas ao presidente nixon pedindo pra que ele, por favor, não permitisse a comercialização do livro. eu não vou nem molhar meu dedão do pé nessa piscina de contradições que os estados unidos se mostra ser repetidamente; só vou exclamar: que doideira, hein?



pra todo o bafafá que o livro causou, acho que não houve um ato terrorista-anarquista que ocorreu nos estados unidos durante os anos 70 que tenha sido diretamente ligado ao anarchist cookbook - até o massacre de columbine, quando o livro foi encontrado em meio aos pertences do atirador.


hoje em dia, ele é mais um item cult nas bibliotecas caseiras, uma peça de época, uma memorabilia, do que uma cartilha para o jovem anarquista. virou filme, foi tema de documentário e atualmente é uma lembrança de tempos mais simples - a maioria dos manuais do livro não prevê a quantidade de câmeras e vigilância de hoje em dia e a dificuldade em conseguir vários dos mateirais necessários para orquestrar as peripécias anarquistas sugeridas.


anarquista, aliás, é o adjetivo menos apropriado para o livro de powell - o próprio rapaz não era um anarquista, e sim um ativista contra a guerra do vietnã, e escreveu o livro mais como um escape, um jeito de expressar sua insatisfação com o sistema social no qual tinha vivido toda sua vida, uma maneira de registrar seu repúdio a autoridades abusivas.


a verdade é que powell era jovem, estava vivendo um período turbulento politica e socialmente, experienciando grandes mudanças sociais e em como pessoas se expressam indivualmente - isso tudo após uma infância e uma adolescência confusas, doloridas, com muitas memórias infelizes de figuras de autoridade, especialmente professores nas escolas que estudou. além disso, ele era um cara que, até então, não havia encontrado seus pares: uma criança relativamente solitária, fruto do casamento de um diplomata americano com uma dona de casa britânica, que não se enxergava nem como inglês (pelo menos não da maneira que se era inglês nos anos 50), nem como estadounidense (já que não conseguia se encaixar em nenhum dos grupos étnicos da sua escola nos estados unidos, nem mesmo os americanos brancos de classe média).


em sua autobiografia, publicada postumamente em 2019 (ele faleceu em 2016), ele conta sobre sua infância, suas experiências tenebrosas com as primeiras figuras autoritárias da sua vida, seus professores, depois sua adolescência rebelde e desafiadora, mas que também o assustava, e, conforme crescia, sua insatisfação com o governo americano, as políticas de guerra do país e o conformismo e subserviência da população a governos claramente corruptos.


powell diz que, embora tenha sido ferozmente criticado pelo conteúdo perigoso de seu livro, nada do que escreveu era inédito ou original: a parte sobre bombas e armas, por exemplo, ele aprendeu em cartilhas militares que eram distribuidas gratuitamente.


ele conta que, embora não acredite mais nas ideologias que sustentava à época da publicação, a fonte de sua raiva segue sendo a mesma - a maneira como governos claramente manipulam seus povos e mantem situações de miséria, fome e violência para benefício próprio. william diz que, e embora ele goste de conhecer e estudar pessoas, quando elas se juntam numa instituição cujo objetivo é governar uma comunidade, elas se tornam absolutamente não confiáveis e perigosas.


e, num momento que achei especialmente bonito, ele fala sobre o perigo de certezas absolutas: quando escreveu o livro ele tinha certeza absoluta de tudo aquilo. ele tinha muito mais respostas do que perguntas, diz, e ao envelhecer o contrário se tornou verdade. mais perigosas que governos são as pessoas que tem certezas absolutas.


não dá pra discordar, e dá pra entender como a versão de 19 anos desse homem - jovem, cheio de energia, recentemente emancipado do domínio dos pais - canalizaria sua raiva num livro como esse.



a autobiografia de powell, chamada the cookbook: coming of age in turbulent times (o livro de receitas: amadurecendo em tempos turbulentos), é uma delícia de ler. esse homem tão sensível e com um olhar tão empático cresceu em meio a regras e restrições que ele nunca entendeu, explodiu em raiva na juventude por causa delas e depois de escrever o livro, como um grande alívio, se acalmou e procurou outras maneiras de lutar contra as autoridades que o traumatizaram: como um aluno com desordens de aprendizado nunca diagnosticadas, e portanto considerado o típico e clichê aluno-problema, powell cresceu para virar professor e pesquisador de inclusividade no ensino infantil, muito antes de isso virar tendência no mundo da educação. ele e sua esposa construíram uma escola juntos, com foco em ensino inclusivo para todo tipo de criança e estilo de aprender.


pega essa pink floyd, ao invés de e juntar ao bando querendo paz e distância dos professores, powell se tornou um professor que não é apenas um tijolinho - o tipo raro que enxerga seus alunos como indivíduos, e não como peças num jogo escolar de poder, regras e autoridade.


o anarchist cookbook tá disponível gratuitamente em pdf nesse link, e autobiografia de william powell tem na amazon (a versão pra kindle custa 12 reais!). não há tradução para o português de nenhum dos dois livros, infelizmente.

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