• melody erlea

já ouviu falar da GRANDE RENÚNCIA MASCULINA?

soa como algo incrível, hein? imagina, os hómi tudo renunciando e deixando o mundo em paz? 1 blogueirinha pode sonhar kkkk

mas na prática não foi algo assim tããão legal. inclusive, foi um dos passos para assegurar o novo sistema patriarcal e anti-aristocracia após a revolução francesa. a GRANDE RENÚNCIA MASCULINA foi o conjunto das novas regras de vestimenta para os homens, o momento em que a chavinha da moda virou, os homens pararam de se enfeitar e o interesse pelo vestir ficou restrito às mulheres.


nada aconteceu do dia pra noite - e, a bem da verdade, a maioria dos homens na frança, inglaterra e resto da europa não se vestia como os grandes nobres e aristocratas que vemos nos retratos, cheios de rendas e cores e jóias e maquiagem e salto alto. a moda, até o fim do séculp XVIII, funcionava muito mais na base da diferenciação de classe social, não de gênero.


isso significava que certos signos da moda só eram usados pelas altas classes - os homens comuns vestiam cores sóbrias, tecidos mais grosseiros, e por aspectos práticos, alguns itens de vestuário completamente diferentes das modas aristocráticas.


na frança, os homens do povo eram, inclusive, chamados de sans-culottes, porque ao invés de usarem os culotes dos nobres (calças justas, parecidas com leggings, que iam até os joelhos, usadas com meias que cobriam do joelho pra baixo), eles usavam as "pantalonas" - calças compridas, de modelagem mais solta do corpo, em modelo bem parecido com o que se usa até hoje.


mas foi só a partir da revolução que decapitou os nobres na frança que o visual aristocrático, exagerado e ostensivo, passou a ser considerado efetivamente de mau-gosto. com os novos ideais de liberdade, igualdade e fraternidade e maior apreciação por homens que trabalhavam por seus ganhos e posição social, crescia a rejeição pela ideia de privilégio herdado e riqueza excessiva.


se antes o trabalho era degradante, e quanto menos prática a roupa de um homem mais assegurada sua alta posição social, depois da revolução passou-se a entender o trabalho como parte fundamental da masculinidade. a ideia de um "uniforme social masculino", além de funcional, também aproximava homens de diferentes alcances financeiros, ao invés de destacar o que possuiam mais dos que possuiam menos.


charge do séc XIX satirizando a nova moda masculina

no século XIX essas ideias para a moda masculina já estavam estabelecidas como norma, no fenômeno que o psicológo john carl flügel descreveu em 1930 e nomeou "a grande renúncia masculina". flügel pontuava essa mudança como o momento em que o gênero masculino renunciou a vontade de ser belo e optou por ser apenas útil - e dizia que após a 1a guerra mundial o fenômeno tinha se acentuado, por causa principalmente dos uniformes militares com os quais os homens haviam se acostumado.


flügel, autor do livro "a psicologia das roupas" de 1933, não apenas foi o primeiro psicólogo a olhar para as roupas por um viés da psicanálise, mas também era fundador do partido da reforma do vestuário masculino, cujo manifesto exigia a volta das cores, acessórios e enfeites na moda masculina e, principalmente, o resgate da expressão da individualidade através do vestir, ao invés da uniformidade. ele afirmava que as cores sóbrias, as modelagens monótonas e os tecidos grosseiros estavam prejudicando enormemente a saúde mental dos homens. para flügel, as roupas que os homens eram obrigados a usar eram uma das fontes de doenças como depressão, ansiedade e fadiga crônica.

enquanto a moda masculina se tornou mais e mais prática, a moda feminina seguiu evoluindo das maneiras mais absurdas - não à toa, no início do século XIX, as sufragista consideravam a reforma da moda feminina uma alta prioridade. o mais irônico é que as mulheres acabaram ficando com o legado do que, alguns séculos atrás, era a quintessência da masculinidade: as maquiagens, os tecidos nobres e brilhosos, e, a mais tenebrosa herança da masculinidade tóxica, os saltos altos.


talvez você já tenha ouvido falar que o solado vermelho dos sapatos de christian louboutin são inspirados nos sapatos dos nobres da corte de louis XIV. louis havia estabelecido uma lei garantindo que apenas membros de sua corte poderiam usar a sola vermelha, que hoje em dia a gente pensa como sexy e feminina - mas lá no século XVII o vermelho representava sangue, que lembrava guerra. e se tem uma coisa que sempre foi e continua sendo uma pira masculina, é guerra.

essa pira não saiu da cabeça do rei não - quem usava os saltos originalmente eram soldados persas, não por tendência mas porque os calçados com salto permitiram que eles se fixassem no estribo e se posicionassem para lançar suas flechas com mais eficácia. os europeus estavam numa pira fashionista persa e os nobres copiaram os sapatos dos corajosos e masculinos soldados, com o solado vermelho que remetia ao sangue das batalhas e enfatizava a virilidade do calçado.

e se você acha que emprestar itens do guarda-roupa masculino é coisa recente na moda feminina, pega essa: as mulheres nobres começaram a usar salto alto para emular a masculinidade, o poder, o PESO do guarda-roupa masculino. uma certa androginia tava na moda, e salto alto foi um dos jeitos que mulheres arranjaram de ~masculinizar~ o visual.

charles II, rei da inglaterra durante parte do séc XVII, também usava salto vermelho - VIRIL que chama

pausa pra gente rir de nervoso um pouco.


depois da grande renúncia masculina, a tortura e impraticalidade do salto ficou pras mulheres, que não precisavam de um guarda-roupa prático e funcional e passaram a ter, ainda mais, um valor ornamental na sociedade.


há quem diga que essa expressão da masculinidade está em crise e que os homens estão, pouco a pouco, se reapropriando de ferramentas sartoriais. esse movimento é chamado de "o grande renascimento masculino", e teve sua primeira onda na década de 1970, com a hipersexualização dos corpos masculinos resultante da liberdade sexual e da ideologia feminista em voga na época.


essa fase do renascimento fashion masculino se encerrou quando a epidemia da aids ficou associada a homens gays, e a moda masculina tratou de separar os gays dos héteros através de uma volta a signos tradicionais, sóbrios e uniformizados, e a criação de um estigma quanto à expressão mais andrógina ou com elementos femininos na aparência.


durante os anos 80 se proliferam subculturas como a gótica, em que a expressão do vestir é andrógina principalmente para homens, que usam maquiagem, esmalte e cabelos coloridos com penteados elaborados, mas a tendência não chega a contaminar o vestuário mainstream do gênero masculino.


david beckam, ídolo metrossexual dos anos 2000

os anos 90 foram uma fase bem heteronormativa para a moda masculina, mas desde o fim dos anos 2000, com a popularização da expressão "metrossexual" parece que o tal do grande renascimento masculino vem tomando força, ainda que devagar, discretamente, e vindo principalmente de grupos lgbtqi+ que afirmam a expressão individual através do vestir. mas a tendência não fica contida aí - o próprio metrossexual era, normalmente, descrito como um homem cis hétero, e nas comunidades negras o uso do dandismo como expressão de liberdade e individualidade acontece desde tempos coloniais.


com a popularização do consumo de roupa de segunda mão e uma tendência pós-pandemia de maximalismo e criatividade nas roupas - além da difusão de perfis como o @watchingnewyork, que registra a moda das ruas, de pessoas comuns - a década de 2020 parece que também contará com uma onda do grande renascimento masculino. outras tendências dos último anos, como camisas estampadas e florais, bermudas mais curtas com a coxa aparecendo e uso de acessórios por homens também apontam pra isso.

fotos de johnny cirillo, conhecido como @watchingnewyork

mas do mesmo jeito que a grande renúncia masculina começou no fim do século XVIII e só se estabeleceu como norma quase 100 anos depois, a nova mudança também deve acontecer lentamente - ao contrário da moda feminina que muda constantemente e confunde, mistura e muda todos os signos e mensagens o tempo todo.


pelo menos a gente tem a sorte de viver uma onda da grande renúncia feminina (as outras foram 100 anos atrás, na década de 1920, e depois uma longa fase que durou as décadas de 60, 70 e 80), e salto alto não consta mais como item essencial do guarda-roupa feminino. a gente tem que contar todas as poucas vitórias, não?

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