• melody erlea

arruinando vidas ou salvando reputações: a história do decote preto


o oscar chegou, passou e eu não tive um segundo pra parar e falar sobre os looks lá pelos stories, mas alguns estão até agora passeando pelos meus pensamentos - cês sabem que eu gosto dos visus que me fazem lembrar de histórias, de anedotas e, principalmente, de traçar conexões pelo mundo pop.

esse dior preto da charlize theron, pelo que eu vi nos comentários de instagrams e blogs de moda, não fez muito sucesso. coisas como "elegância na zona de conforto", "seguro" e "previsível" foram alguns dos adjetivos que eu li por aí, mas a real é que esse vestido, embora preto e longo e com fenda, não tem nada de previsível, e a história que ele carrega nessa alcinha propositalmente caída não é nem um pouco confortável. esse vestido é uma releitura de um outro pretinho básico de tronco estruturado e saia longa - um vestido do fim do século XIX, que causou um fuzuê tão grande quanto algumas polêmicas de instagram, numa época sem internet. e quando uma notícia viralizava num mundo pré-instagram, é porque o negócio era quente mesmo.

1883, amélie gautreau, uma it girl nascida nos eua mas criada em paris, aceitou que seu retrato fosse pintado por john singer sargent, pintor também americano e criado na europa. ela era conhecida como uma socialite ávida por fama e popularidade, e ele queria sua oportunidade para, também, ter fama e popularidade. imagina tipo o andy warhol e a edie sedgwick, mas uns 100 anos antes.

estudo para madame x, john singer sargent

o quadro foi exposto no salão de paris em 1884, e recebido com choque e horror pelos presentes: amélie usava um vestido preto de veludo e cetim, com uma das alças caindo do ombro, bem provocativa.

estudo para madame x, john singer sargent

um jornalista escreveu que a moça estava vulgar e sexual, com um vestido preste a cair (mal sabia ele que por baixo do veludo tinha metal e osso de baleia segurando tudo aquilo muito bem no lugar, zero chances de cair). as alças finas e decote do vestido sugeriam, também, que a socialite não vestia as roupas de baixo e combinações comuns às moças da época, o que fez o quadro ser acusado de ser pornográfico. tanto o pintor quanto amélie foram humilhados e se isolaram da alta sociedade.

singer corrigiu o retrato, repintou a alça do vestido  e a colocou no lugar devido, mas manteve o quadro consigo pelos 30 anos seguintes, em que viveu recluso em londres. em 1916, singer vendeu a pintura, intitulada madame x, para o @metmuseum, e na carta que escreveu para o diretor do museu disse que esse retrato havia sido a melhor coisa que ele fez.


já amélie gautreau, humilhada com a recepção do quadro, encomendou novos retratos a dois outros pintores, mas não conseguiu que eles fizessem sucesso e nem ficar reavivar sua reputação. seguiu casada, teve uma filha e morreu em 1915.

madame gautreau brindando, john singer sargent, 1883

abaixo há uma versão não terminada de um rascunho, o vestido sem uma das alças - sugerindo a polêmica alça caída. é minha versão preferida; acho muito moderna e bonita e nem parece não terminada. e nada mais incrível que ver charlize theron sendo filmada e fotografada para o mundo inteiro com a mesma alça caída de amélie, e causando polêmica não pela ousadia excessiva, mas pelo contrário: a pouca ousadia e a jogada segura de um vestido preto.

esse vai-e-vem da cor preta já dura séculos. ele é aceitável e amado ou renegado, pode ser símbolo de pobreza ou de riqueza, mas para as mulheres roupa preta por muito tempo foi sinônimo de duas coisas - luto e uniformes (de escola, de empregada doméstica, de garçonete). foi lá pelo século XVI que preto começou a se popularizar como uma cor propícia para roupas de noite, e não era comum que se usasse a cor de dia até o fim do século XVII. ainda assim, a cor era combinada com outras cores ou usada em detalhes como mangas e golas - um vestido elegante não podia ser preto demais.

uma das primeiras pessoas a usar a cor preta como uma escolha de estilo - primeiro como protesto, depois para se distinguir de todos os outros membros da corte, sempre vestidos de maneira colorida e extravagante - foi filipe IIII, duque de borgonha, no século XV. nancy macdonell, no wall street journal, comenta que duque filipe é uma versão medieval de hedi slimane, estilista da grife celine: vestido de preto e retratado em ângulos e linhas retas, destoante, chamativo e elegante.

outra grande amante de roupas pretas e uma das grandes causas da popularização da cor foi rainha vitória, que usava um vestido preto ao levar sua filha mais nova beatriz até o altar em seu casamento - a cor era em homenagem a seu marido, príncipe albert, que havia falecido 24 anos antes. a rainha usou seu vestido preto no casamento da filha em 1885 - apenas um ano depois do retrato de amélie gautreau acabar com sua vida pública.

mesmo depois de se tornar relativamente comum, ainda assim a etiqueta do preto não era fácil: tonalidades mais foscas, sóbrias, do tipo de roupa que se usa pra não se destacar, eram destinadas a serviçais, idosos e pessoas do clero. pra quem queria usar preto como uma escolha de estilo, o ideal eram pretos com textura e profundidade, como o dos veludos, sedas e cetins (não por acaso tecidos mais caros do que simples algodão). o tal do pretinho básico da chanel? antes de ela começar a vendê-lo por preços altíssimos, o transformando assim num desejo de consumo das mulheres endinheiradas, o vestido de coco teria sido considerado um "little nothing": pequeno nada que uma vendedora ou empregada doméstica vestiriam no trabalho. em 1926 coco chanel lançou oficialmente seu pretinho básico, que não apenas ilustrou a capa da vogue mas foi chamado de "o ford do guarda-roupa feminino" pela revista - fazendo referência ao modelo T, carro da ford que era insanamente popular na época. e assim como o carro, o vestido básico de chanel seguia um princípio: disponível em qualquer cor, desde que fosse preto.

desde então o pretinho básico - e o se vestir de preto - passou a ser a epítome da elegância atemporal, imune a tendências e modismos de instagram e pra sempre acima das efemeridades mercadológicas da moda.


e o vestido de amélie, eternizado por john singer, passou de símbolo de ruína para símbolo de empoderamento, se liga:

na noite de 29 de junho de 1994 a princesa diana saiu de seu carro ao chegar na festa da vanity fair pra qual tinha sido convidada. parece notícia daquelas que viram meme (chico buarque passeia na orla, essas coisa) mas espera que tem mais. nessa mesma noite um documentário sobre o príncipe charles estreava na tv - no qual ele admitia ter traído diana. esperando uma diana magoada e envergonhada, a mídia foi a loucura ao se deparar com essa mulher chegando na festa num estonteante pretinho básico bem sensual bem provocante bem ah é, meu quirido? toma essa então. apelidaram o visu de vestido-vingança (revenge dress, em inglês): aquele look que você usa pra mostrar pro mundo todo que superou o boy lixo e tá na pixxxxta, sabe? diana saiu na fita como a poderosa fodona, ao invés da mocinha de coração partido, e charles, que tinha lançado o doc justamente pra recuperar sua popularidade, seguiu sendo o babaca. e ela nem ia usar esse vestido: a escolha original era um valentino, mas a grife vazou a notícia pra imprensa e a princesa ficou p da vida e na última hora trocou pelo pretinho da estilista christina stambolian. me diz se esse vestido, que deu um boost na fama da diana, não parece o de amélie gautreau, que 110 anos antes de princess di era a it girl mais procurada nas altas rodas? ela teve sua reputação arruinada ao ter seu retrato pintado em um vestido preto de veludo com um decote coração bem parecido com o revenge dress de diana. só que pra azar de amélie, em 1884 isso foi considerado uma afronta e um escândalo, ao invés de um ato corajoso como em 1994. como pode o mesmo vestido que destruiu a popularidade de amélie fazer de lady di um exemplo de superação?

diana já havia usado uma versão mais clássica do vestido de amélie em 1988 na casa branca

o mundo é uma loucura, as coisas mudam rapidão e roupa, cara, é o reflexo mais imediato e real das mudanças. lá da ruína de amélie gautreau pra cá a cor preta virou um ícone de moda tão absoluto que mal se fala nela - estamos soterrados em cores de todos os tipo e de todos os nomes, principalmente porque, adivinha só, preto não fica bem no instagram, uma rede propícia pra comunicação via fotos em pequena resolução, em que cores se destacam mais do que formas e texturas.

mas a gente sabe que não importa a cor do momento e nem a tendência de feed de instagram colorido queridinho das influencers: na vida real o preto continua unânime e sempre presente. e a pobre amélie: seu único erro for ter nascido no século errado - o vestido dela é agora um grande querido das celebridades e dos tapetes vermelhos, e existe pra toda personalidade e estilo, da sensual elizabeth hurley no versace de alfinetes aos arquitetônicos pretos de azzedine alaia e balenciaga. se liga em todas as releituras do vestido de madame x que encontrei recentemente - e isso sem pesquisar profundamente, só bebendo da fonte dos feed de internet!

da exposição da coleção que azzedine alaia tem de vestidos balenciaga
charlize já teve outros looks que remetem ao vestido de amélie!

do mesmo jeito que preto, ao invés de cor, é a ausência total de cores, o vestir preto é ausência total de tendências - na era pantone, na era da consultoria de estilo e análise de coloração, na era de cor do ano, do trimestre, do verão, o preto segue soberano, aparentemente coadjuvante mas ciente de que a pantone pode inventar o nome de cor que quiser - elas passarão, o preto passarinho.

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