• Marina Minassian

a injustiça do jeans justo

ainda que eu curta muito falar sobre organización, sempre busco atrelar esse conhecimento com questões mais profundas&problemáticas. exemplo disso é essa #caódica de dois anos atrás:

(clique pra ver o post do insta)


a intenção era falar do jeans para além das minhas dobras à la Marina Kondo, refletindo sobre o Denim Day, ou “Dia do Jeans”. bueno, desde 2018 muita coisa se passou e agora tenho o privilégio de discorrer pelas linhas desse maravilhowso Repeteblog, e assim o farei.


Bom dia Brasil, boa tarde Itália.


era uma vez, em 1992, uma italiana que, tendo completado seus 18 anos, decidiu usufruir de seu direito de se habilitar como motorista. escolheu um jeans skinny bem basiquinha pra sua primeira aula prática de direção, que acabou sendo um pouquinho-quase-nada mais desafiadora do que ela poderia imaginar, já que seu instrutor-casado-de-45-anos (acho sempre importante levantar o perfilzinho né) um tanto quanto infeliz-carente-tomado-pelo-demônio decidiu se aproveitar de sua superioridade e fácil locomoção para forçar sua aluna a fazer sexo com ele em uma estrada sinistra. conseguindo o que queria, ele a ameaçou de morte caso ela contasse a alguém. pouco traumático, mas pelo menos não matou, turupom Maluf?


indo contra às sutis recomendações de seu estuprador, nossa heroína então chega em casa e (ai meu coração, só de escrever...) conta tudo aos pais, que obviamente a ajudam a fazer justiça. é o que acaba tendo.


mas não teve.


justo, só que não


o fucking-instrutor-casado-de-quarenta-e-cinco-anos foi sentenciado por algo muito mais brando, tipo uma “exposição indecente” (não manjo desse universo, perdón). mesmo assim, não contente, o infeliz recorreu à Suprema Corte Italiana. nesse bololô burocrático todo, SEIS ANOS se passaram e ó a cagada: em 1998 eles simplesmente anularam a condenação, com o argumento maravilhowso de que:


ela estava usando calças jeans tão justas, que a única forma de terem sido tiradas foi com a sua própria ajuda. portanto, óbfio que o sexo só poderia ter sido consensual. é.


"because the victim wore very, very tight jeans, she had to help him remove them... and by removing the jeans... it was no longer rape but consensual sex. it is a fact of common experience that it is nearly impossible to slip off tight jeans even partly without the active collaboration of the person who is wearing them."

o veredito - de revirar o estômago - enfureceu as mulheres do Parlamento Italiano (incluindo a neta de Mussolini), que em demonstração de sororidade e repúdio à anulação da sentença, foram trabalhar vestindo calças jeans, além de comunicar seu repúdio com todas as letras:


“Jeans: álibi para o estupro”


só depois do fussuê, a patifaria foi revertida. mas podiam ter ficado sem essa........


como diria o dramaturgo Bertolt Brecht: “que tempos são estes em que temos que defender o óbvio?”


nasce o Denim Day


nesse caso, até o Senado e a Assembléia da Califórnia tiveram que se manifestar pra defender essa obviedade. e então, Patricia Giggans, Diretora Executiva da Comissão Contra o Assédio Sexual da Mulher em Los Angeles (atualmente com o nome bem mais sussa de Peace Over Violence), instituiu o Denim Day.


eis a mais longa campanha contra a violência sexual da história, reconhecida oficialmente por mais de 20 estados dos EUA, mobilizando negócios, membros da sociedade civil, oficiais e estudantes a vestir jeans anualmente, na última quarta-feira de abril, em honra ao Mês da Conscientização Contra o Abuso Sexual.


mas, claro que o processo de libertação feminina sempre caminha a passos burocraticamente lentos e masculinamente desinteressados.


p r e g u i ç a

somente em doismileoito (e DEZESSEIS ANOS depois desse ep) é que a Suprema Corte Italiana - reconhecida por fazer várias cagadas (também vale esse doc que escancara mais injustiças femininas: Amanda Knox) e

composta majoritariamente por homens-europeu-acima-dos-40-anos - revisou por completo a “injustiça do jeans justo” (como eu marotamente intitulei). poisé. acho que lá em cima não cheguei a mencionar que isso era instituído. louco como as regras podem ser bem deterministas e radicais quando não estão ao favor do feminino, né não?

os álibis vão desde o jeans super justo, jeans boot-cut, vestido estilo Geisy Arruda, shortinho tipo Anitta até ao pijama, ao hijab, a burca, etc, etc. e seja lá qual peça, de qual natureza, não existe blindagem para o assédio masculino a que somos obrigadas a nos submeter cotidianamente. nenhuma roupa nos faz esquecer do fato de que não estamos seguras.


a saída é a gente se lembrar o tempo todo que isso é justamente o que nos une.



o poder do vestir, ao nosso favor


nesse ano de 2020, o Denim Day acontece na quarta-feira do dia 29/04, e em plena pandemia global, turupom?


mas olhando aqui pro copo mei cheio, nesse período de isolamento social em que pijamas e a “athleisure wear” se normalizaram nas redes sociais, um #lookdodia com jeans bem skinny num contexto bem de boas&comfy em casa pode ser uma ~proposta, meninas~ que dá um contraste interessante. holaquetal? bamos? lá em @caoticasuave também vou te encorajar nessa ;)


se recomponha das bads possivelmente trazidas por esse texto e/ou pela pandemia, escolha um jeans justinho, faça sua sessão fotográfica caseira de amor próprio e bora fazer parte disso junto de mais de 5 milhões de pessoas globalmente.


a nossa integridade é sempre urgente.

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