• melody erlea

aperte os cintos: o twee está de volta

esse texto acompanha uma playlist no spotify: twee para todos os gostos!

lembra um tempo atrás, quando falamos de cory kennedy e sua estética indie-decadente que está voltando junto com a tendência y2k? pois tem outra estética indie dos anos 2000 voltando com ela - o look-zoey-deschanel, historicamente conhecido como estilo twee.


pensa: paletas de cores tipo wes anderson, roupas de vovó, cardigans, estilo retrô, looks inspirados nos anos 50 e 60, mas menos jane birkin e mais professora de escola primária no interior da inglaterra. smiths, belle&sebastian, lemonehads, camera obscura, nirvana, magnetic fields, pop sessentista e indie obscuro dos anos 80 tocando na vitrola. na prateleira de livros, alguns de j.d. salinger e jonathan safran foer, as vantagens de ser invisível, a playlist infinita de nick e norah.


kurt cobain, improvável ídolo twee

taí, o retrato esterotipado do twee. pra alguns um movimento cultural tão revolucionário quanto o punk, pra outros uma evolução ainda mais triste do hipster, mas a realidade é que você pode desenterrar aqueles mp3 de she&him, porque o twee ESTÁ DE VOLTA!


como toda tendência de moda e comportamento, o twee vem e volta conforme os tempos pareçam apropriados a recebê-lo - e a cada onda, ele vem um pouquinho mais caricato, menos espontâneo, mais montação (mas quem há de dizer se as versões passadas não foram tão montadas quanto, e é através da lente da nostalgia que tudo parece mais autêntico).


a palavra twee já foi insulto, já foi reapropriada, transformada em insulto de novo, e agora, conforme vejo sua popularidade crescer em redes como tiktok, me pergunto se esse revival é um resgate romântico ou apenas uma ironia fina, aquela piada que a gente só entende umas horas depois.


o primeiro registro publicado da palavra twee é em uma revista de humor de 1905, em que o autor (anônimo) descreve uma tia que fala tudo no diminutivo, com uma intonação fina de criança - entre as várias abreviações fofas que ela faz, está "twee", que supõe-se ser o jeito dela de falar "sweet" ("um docinho", palavras que ela usa pra descrever um bichinho). no contexto da publicação, o comportamento da tia é inadequado e, inclusive, humorístico.


sua segunda ocorrência impressa foi em 1917, num contexto parecido: a história de uma mulher que se refere a algo "adorável" como twee. nos dois casos, as moças estão usando a palavra como um elogio, mas os autores que escrevem as histórias estão obviamente criticando o jeito de falar, tirando sarro desse traço feminino e infantil.


olha só: a palavra twee já nasce como um adjetivo pejorativo para mulheres adultas que se comportam de uma maneira considerada infantilizada demais pro olhar masculino.


nos anos 60 a palavra já havia adquirido outro significado: era usada pra descrever pessoas com gostos e referências antiquadas - basicamente toda a cena de música e arte londrina tava reciclando referência véia, então twee é meio que uma estética sessentista, mod, mas com toques infantis (tipo como uma criança londrina se vestiria nos anos 60) e mais exagerada, beirando o camp.


mas esse twee que conhecemos hoje, dos vestidinhos em tons pastel, cardigans e músicas fofas mas levemente melancólicas, esse surge, de verdade, nos anos 80, numa subcultura que nasce como uma resposta ao punk - cru, agressivo e masculino.


se havia uma característica do punk que havia contagiado a juventude britânica era a ideia de que qualquer pessoa podia ter uma banda, em qualquer lugar. e foi nesse espírito que o indie nasce - de gente que não gostava do punk como som e visual, mas se aproveitou do zeitgeist pra começar a fazer sua própria música - mais fofa, mais feminina, mais melancólica, mais *dreamy*. muita da sonoridade vinha de bandas da década de 60 que também faziam um som meio psicodélico, porém harmônico - o chamada jangle pop, todo trabalhado em guitarras, teclados e vozes comestíveis.


o estilo se consolidou em 1986, quando a nme lançou uma compilação em cassete chamada C86, um álbum cheio de músicas dançantes, mas sem grandes peripécias - canções simples, despidas, mas envolventes em sua.... sei lá, pureza??? o mais legal é ouvir o disco e, mesmo sem conhecer banda nenhuma, reconhecer as "sonoridades indie" que acabariam por conquistar o mainstream. tem banda que lembra smiths, sonic youth, belle&sebastian, primal scream.. mas tudo mais cru, menos refinado - mais punk, que era o jeito de fazer as coisas mesmo. tipo é punk... mas é indie. essa fita foi um es-tou-ro.


nos anos 90, conforme o indie britânico se tornava popular e bandas deixavam de ser independentes, o lado twee que havia estourado com o C86 acabou ficando às margens - um novo tipo de indie, mais descolado, menos tímido, por vezes mais masculino, ganhou os holofotes.

o fenômeno twee vampire weekend

a estética e sonoridade twee ressurgem nos anos 2000, nos estados unidos. filmes como 500 dias com ela, representam bem a vibe da época, e nessa época - a era do indie-sleaze - o twee vem como uma maneira de se permitir não ser cool. é uma validação do indie-nerd, daquele que toca flauta e lê jane austen enquanto escuta cocteau twins, daquele que não tá numa festa estranha com gente esquisita virando shots. e professorinha desastrada de roupas fofas, o rapaz sensível que gosta de ver filmes da nouvelle vague, o escritor solitário, até a hoje em dia odiada manic pixie dream girl... todos esses são personagens meio twee que permearam a imaginação pop nos anos 2000.


e, sei lá, agora, ao que parece, a tendência voltou. junto com todas a desgraças que voltaram quando abriram a porteira do inferno (mais conhecido como anos 2000). não sei é sinal do apocalipse chegando ou só mnha vontade mesmo que ele chegue logo pra eu não ter que reviver tudo isso. socorro.

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