• Filipe Chamy

As estátuas também beijam


Estátuas e beijos: "Dimensions of dialogue" (1983)

O mundo muda, ainda bem, e algumas coisas resistem, enquanto outras seguem alteradas. Falamos de transformações, bem como das consequentes contratransformações. Às vezes parece-nos que a sociedade anda num sentido e exige que tudo o mais a siga incontinenti – o que gera inevitáveis atritos, pequenos seixos pelo caminho que não se decidem se permitirão que os pulemos ou imporão que, fatalizados, tropecemos neles e caiamos de cara ao chão. Tinha esta pedra no meio do caminho: as narrativas infantis, contos de fadas e outros relatos antigos, tornadas anacrônicas demonstrações de opressões várias, insustentáveis demonstrações de forças que queremos enterradas num passado o mais que der inacessível.


Apenas o beijo em Aurora poderá desverdeá-la...

Para focarmos em apenas um caso, hoje muito se fala no abuso cometido contra a Bela Adormecida, de Perrault, dos Grimms, da Disney ou dos demais que contaram o conto, no momento em que o desenxabido príncipe encantado pressiona os lábios (e até outras partes, dependendo das versões abrangidas) da alteza dormida/desmaiada/defunta, para daí ressuscitá-la miraculosamente.

Para o nosso pensamento contemporâneo, é evidente que qualquer importunação num corpo que não deu explícito e inequívoco assentimento configura abuso em algum nível. Todavia a lógica da história é outra. O contrato sagrado entre as partes (encantadores/desencantadores) é mágico, com cláusulas que, realizadas, originarão maravilhas. A ordem do dia significa adequar-se ao que há, não ao que supomos que poderia haver ou que deveria ter havido.


"A bela adormecida" imaginada por Henry Meynell Rheam

Desconsiderar o trato mágico implica, necessária e exclusivamente, não o cumprir. Pode ser maravilhoso respeitar a princesa e não chegar perto de seu corpo enquanto ela dorme, mas... sem o beijo do príncipe ela não acorda, simplesmente. Parece-me evidente que, na lógica da história – que, reitero, não é a da nossa sensibilidade social de hoje –, beijar a princesa adormecida é algo positivo; para não dizer um favor, até uma imposição moral.


Ariel e a dureza que é cumprir um contrato narrativo!

Beijar a princesa adormecida é ato que demanda coragem, oportunidade e valor: não apenas pode ser feito, deve. Fugir disso significa descumprir a transação mística e, além disso, ser mau, tendo as condições para agir diferentemente. O príncipe é bom porque tem a capacidade de ser bom beijando a princesa e é isso que ele faz, é o que se espera dele, a obrigatoriedade implícita a sua condição: apenas ele pode resolver magicamente a situação, que o faça!


Então a transformação se dá, porque o beijo é a condicionante estabelecida no contrato narrativo. Não sei quem a estabeleceu, e deixo aqui registrado, antes que me acusem de pusilânime leniência, que dela discordo; acho um termo deveras besta, mas lei é lei: cumpra-se o acordado, ainda que na dormida.


Edmond Dulac retratou a perceptiva princesa ervilhenta

A princesa acordada, aliás, não demonstrará irritação e tampouco mostrar-se-á ingrata: ela também habita esse mundo mágico em que o estabelecido para o advento da transformação é o raio do beijo. Talvez ela preferisse realmente, como hoje desconfiamos, ser deixada em paz, sem assédio de espécie alguma – porém a paz seria, ela o sabe, eterna, e menor o custo de beijar um príncipe falastrão do que o de permanecer morta por mais alguns séculos. As princesas sem vontade são, já o sabemos desde a princesa com a ervilha de Andersen, deveras voluntariosas.

Menos rígidos que as normas narrativas, transformam-se os costumes e, com eles, as leis. Mais de uma pessoa já acusou sentir incômodo em contar essas histórias aos filhos, do que me espanto em todos os graus imagináveis. A moral humana é sempre móvel, contudo os textos são, como já disse Horácio, “mais perenes que o bronze”. O sentido de uma história ficcional não se encontra propriamente numa constituição ou dela se serve para qualquer efeito, ainda que tenha sido criado sob essa égide. Independe do país, da época e do espírito do leitor: os personagens estão obrigados àquele raciocínio, não nós. Perfeitamente coerente torcer pelo beijo na princesa adormecida e viver pregando, com sinceridade fervorosa, o “não é não”.


Isabelle Huppert, a "Madame Bovary" de Chabrol (1991)

Não se exige de ninguém aprovar a guerra para amar a Ilíada, tampouco pensar em traições para apreciar Othello, Madame Bovary e Dom Casmurro. A questão identitária, ainda que importante, é extratexto, pelo menos considerando esse material canônico de que ora tratamos. Igualmente ninguém precisa ser um destemperado monarquista para consumir fábulas sobre reis e príncipes. Nós humanos possuímos ainda suficientes empatia e imaginação para nos identificarmos também nesses tipos de nós tão diferentes, nos interessando por seus conflitos e sortes. Transformamo-nos!


O pensador e Rodin, o pintor (Corbis Historical / Getty Images)

Falei do bronze, e chegamos a uma transformação bem nossa vizinha: a guerra contra as estátuas! Derrubadas, pichações, a ordem do dia é desacatar quem já foi acatado demais por tempo suficiente: escravagistas, racistas e demais istas que queremos distantes. Justíssimo repúdio a seus ideais e comportamentos. Porém pergunto com ingenuidade de criança impertinente: o que as estátuas têm a ver com isso?

Tenho alguns pontos a levantar antes que me joguem no rio feito a efígie de ... (sinceramente não me lembra o nome, como diria Machado de Assis). Como o esquecimento permite atestar, nada tenho a favor de tal pessoa, que nunca vi mais gorda, ou mais brônzea, antes do mergulho não voluntário no rio Avon. Meu caso aqui é de princípios: sou um apegado a tudo que foi feito e inimigo de quem quer destruir. É arte? É. Gosto? Tanto faz. Que se preserve.


Malucos são os outros... (Pleno News / Reprodução)

Ora, para que preservar essa estátua? Pelas mesmas razões por que preservamos todas as outras: registro. Os registros de que dispomos em uma dessas peças são inúmeros, pois intuímos com muita propriedade que se alguém perdeu tempo em fazê-la é porque a pessoa retratada alcançou certo destaque na sociedade; então possuiremos fragmentos da cena social da época de sua construção, com alguns cacos de auxílio: quem a construiu, com que verba, por que encomenda, onde foi exposta, com que material, como era conservada etc.


Não apenas isso: salvo o caso de alguma maluquice de que não fui informado, as pessoas não ganham homenagens desse tipo por seus atos espúrios. Não é “em homenagem a esse grande racista que foi...” ou “com vivas por sua pujante demonstração de machismo” que alguém virou pedra (referimo-nos apenas a estátuas, neste caso). Então é outra coisa: e entender tudo isso é também entender o sentido da arte, a persistência da memória e o que isso nos pode ensinar. No mínimo que os heróis de ontem podem ser os vilões de hoje, e essa lição sempre se renova.


Uma ideia da Biblioteca de Alexandria (HiperCultura)

Houve muitos que falaram que derrubar as estátuas não é destruir a história, e sim uma nova forma de se relacionar com ela. De certo modo, estão certos – mas assim certamente também pensou o anedótico árabe que incendiou a Biblioteca de Alexandria, o que não torna sua conduta menos nociva e lamentável. Como eu apontei em meu texto sobre personagens negros nos quadrinhos, não é apagando o que houve que podemos esperar mudanças no que haverá. Se não nos lembramos do que passou, como podemos esperar fazer diferente?


Comichão e Coçadinha ou a "deposição" de Calígula?

Um último argumento contra a destruição de estátuas, se não o bastaram os acima, trago de Roma, referenciado em meu primeiro texto aqui surgido: as estátuas dos imperadores! Pense em gente mais amoral, despótica, estapafúrdios donos do poder e muitas vezes perpetradores de vilanias tais que nos parecem, se pouco, cartunizadas. A Roma imperial em não poucos momentos deve ter se assemelhado a um episódio de ‘Comichão e Coçadinha’, tanto sangue rolou por aquelas escadarias... E, no entanto, que de beleza maior que o exímio grau de correspondência material que os artistas alcançaram ao eternizarem a carranca de um odiável Caracala! Um seu justificável oponente político de nossos dias atuais pode entender por bem desmantelar cada ano de seu detestável governo a golpes de marreta?


Caracala, enquanto ainda lembramos (J. Paul Getty Museum)

As transformações abundam e ocorrerão sempre, em muitas formas. Seria bom se as deixássemos seguir seu curso, só embarcando nas modas boas, necessárias modificações dos infinitos erros nossos, das quais nos orgulharemos futuramente. Combater as ideias ruins não as reproduzindo mais, não aniquilando os suportes onde foram veiculadas originalmente. Pois, verdade dura a reconhecer, nada mais fascista que combater o fascismo destruindo arte ou censurando seu conteúdo. Relacionemo-nos de maneira não abusiva com a história, sem impor nossas verdades, exigindo de tributo a satisfação de nossas veleidades.


Ou então fica aqui a desprendida sugestão de abraçarmos em definitivo a transformação final e, anarquicamente, seguirmos uma vez mais os romanos: em vez de obras de arte, recusemos quaisquer representações, joguemos logo no Tibre os próprios imperadores...


P.S.: Os direitos das imagens pertencem a seus detentores.

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