• melody erlea

basquiat e o único jeito possível de usar ternos


jean michel basquiat, como tantos outros artistas que deixaram sua marca na cultura pop, fazia questão de que sua mensagem artística e estética também estivesse presente no seu modo de vestir. ele tinha aquela coisa mágica, impossível de explicar mas fácil de reconhecer, que a gente chama de "estilo pessoal". um conjunto de itens e escolhas que era só dele, e parecia fluir naturalmente.


a verdade é que, como todo estilo marcante e único, o estilo de basquiat era pouco "natural" e muito uma escolha consciente de combinações e misturas que o permitia passear pelos diversos ambientes sociais que ele frequentava, principalmente após a fama. um artista negro, proveniente do grafite, que se tornou ícone de uma cena artística novaiorquina muito branca e muito burguesa, jean michel tentava equilibrar esses mundos diversos numa maneira de vestir que lembrasse a todos suas origens ao mesmo tempo que o tornasse palátavel nos ambientes mainstream e embranquecidos da fama.


essa estratégia de estilo não é incomum a personalidades negras que se tornavam adoradas pelo mundo todo. a ideia de equilibrar elementos autênticos de sua história pessoal e ancestralidade com elementos comuns à estética branca europeia foi usada por muitas celebridades negras, de jimi hendrix a martin luther king jr, e segue viva nos looks de rappers como pharell e andre 3000.


no guarda-roupa de basquiat, essa mistura se traduzia num hi-lo de ternos armani e issey miyake com jeans batidos, chinelos ou pés descalços e roupas respingadas de tinta. o acabemento do look, símbolo absoluto de sua estética, era o cabelo, que o artista cortava e esculpia ele mesmo. os ternos de grife, que ele vestia descombinados, eram usados pra pintar mesmo, e costumavam estar manchados de tinta.


eu amo isso! o cara pega o símbolo quase atemporal da vestimenta do homem branco ocidental europeu - o terno, representante do trabalho, do profissionalismo e da elegância sóbria masculina - e usa pra fazer arte influenciada pelo grafite e pelas ruas, pra respingar de tinta, pra sujar, e pra viver.


existe jeito mais lindo de usar roupa do que pegar um item feito e pensado pra um certo tipo de pessoa e de vida, e desconstruir tudo que ele representa? transformar em algo único, novo, descolado dos significados com os quais a gente tava acostumado? brincar com os signos e as mensagens até virar algo imprevisível? sabe do que eu chamo isso? ARTE!



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