• Aurélio Araújo

BoJack Horseman e o final dos "homens difíceis"

Aviso: esse texto está repleto de spoilers do final de BoJack Horseman.


Séries de TV, diferentemente de filmes, são pensadas para durar o máximo possível. A premissa ideal para uma série, em tese, deve ser uma história que tenha potencial de durar para sempre. Portanto, dá pra imaginar como é difícil acabar uma série.


O final de The Sopranos, considerada a maior série de TV da história, por mim e pela crítica, é um exemplo curioso, pra dizer o mínimo: o protagonista, o mafioso Tony, está jantando fora com a família. Do nada, há um corte pra uma tela preta.


E assim acaba.


Muita gente odiou.


David Chase, o criador da série, ficou furioso: “Tony Soprano era o alter ego das pessoas. Elas assistiam felizes a ele roubar, matar, pilhar, mentir e trapacear. Elas torciam por ele. E então, de repente, elas queriam vê-lo punido por isso. Elas queriam ‘justiça’. Elas queriam ver os miolos dele espalhados pela parede. Acho isso nojento, francamente”.


Independente de concordar ou não com Chase, a frustração com esse final é compreensível. O que as pessoas esperam, de certa forma, é um fechamento. O famoso final de novela, como disse uma colega de trabalho: um viveram felizes para sempre, ou mesmo um viveram infelizes para sempre. O importante é o para sempre, porque ele nos indica que não há nada mais para acompanhar naquela história, nada nunca mais mudou na vida dos personagens.


BoJack Horseman é bem diferente de The Sopranos, claro. Mas seu protagonista homônimo não cumpre um papel tão diferente assim de Tony na série dele.


E não sou nem eu quem estou dizendo isso: no pôster promocional da terceira temporada de BoJack Horseman, lá está o nome dele ao lado do nome de Tony, e de gente como Don Draper, de Mad Men, e Frank Underwood, de House of Cards. Eles são os “homens difíceis”, como diz o escritor Brett Martin, autor de um livro sobre esse tipo de anti-herói televisivo, tão popular no século 21.

Soprano, Draper, Underwood e Horseman: frutos da mesma era da TV

E como colocar um ponto final na história de um homem difícil? Fazer ele encontrar algum tipo de redenção seria ridículo. Foram seis temporadas acompanhando BoJack “mentir e trapacear”, parafraseando Chase, de forma cada vez mais grotesca, sempre procurando culpar outras pessoas ou as drogas pelos seus problemas.


E não faltaram wake-up calls, pedidos de todos que se importavam com ele para que melhorasse: seu amigo Todd certa vez lhe disse, “você é todas as coisas que há de errado com você”. Como então acreditaríamos que BoJack mudou e, de repente, deixou de ser um narcisista compulsivo?

"Você não pode continuar fazendo merda e aí se sentir mal consigo mesmo e achar que isso deixa tudo bem"

Aí então chegamos na outra opção possível: matar BoJack. Era até um caminho lógico que Raphael Bob-Waksberg, o criador da série, poderia seguir. Seu protagonista, que vinha tentando melhorar nas temporadas mais recentes, teve uma recaída grave nos últimos episódios. O combo de confrontar seus terríveis erros do passado + álcool + drogas finalmente seria demais para ele. Não haveria outra saída para alguém cujas ações o afastaram de qualquer possibilidade de redenção, como estabelecemos acima.


Matá-lo seria de fato uma opção tentadora. Em Angela, o antepenúltimo episódio, BoJack é convocado por Angela Diaz, a produtora-executiva da série Horsin’ Around, para uma conversa em sua casa.


A série é uma sitcom bobinha no estilo Full House, em que algum problema no cotidiano dos protagonistas é resolvido em 22 minutos, seguindo a fórmula: um problema surge no primeiro bloco. Pausa para o intervalo. O problema se complica no segundo bloco. Pausa para o intervalo. O problema se resolve no terceiro bloco. Fim. Mas foi essa série que deu fama a BoJack, tornando-o um ícone da TV nos anos 90, e é até um pouco ridículo vê-lo tentar retornar a todo o momento para aquela época em que ele era relevante.


No momento em que Angela o chama, os erros de BoJack já são públicos. Em especial, o fato de que a morte de Sarah Lynn, ex-atriz-mirim que contracenava com ele em Horsin’ Around, foi precedida por dias de farra e abuso de drogas acompanhados por BoJack. Ele é quem forneceu a heroína que causou sua overdose, e estava lá ao lado dela quando aconteceu.


Mas...com medo da polícia, ele esperou 17 minutos para chamar os paramédicos para salvá-la, sepultando assim qualquer chance de que ela sobrevivesse.


Tudo porque ele queria escapar de mais essa responsabilidade sua.

No trágico final da terceira temporada, BoJack está ao lado de Sarah Lynn quando ela morre

Essa revelação (do tempo de espera de BoJack para chamar ajuda) torna-o ainda mais irredimível, e isso era algo que a série não tinha nos revelado até essa derradeira temporada. Ele acaba, como dizem os jovens, cancelado por todos: pelos personagens que o rodeiam e também por nós, o público, que já o havia visto fazendo coisas realmente terríveis - mas nunca nesse nível.


Voltemos ao convite de Angela. Ela diz que estão lançando uma versão completa da série Horsin’ Around em DVD...mas que ele foi cortado de todos os episódios. O legado de BoJack, a única coisa que ainda o lembrava de um tempo bom e um pouquinho mais inocente, já não pertence mais a ele. Fora apagado até mesmo do passado. E isso o leva a ter uma recaída no vício e a tentar suicídio, afogando-se na piscina de sua antiga casa, que já nem pertencia mais a ele.


(Alguns parênteses: a ideia de que BoJack morreria na própria piscina é incrível, considerando que, em todas as versões da abertura da série, ele cai na piscina e é visto do fundo pelos amigos Diane e Mr. Peanutbutter)


BoJack no fundo da piscina: uma ideia que a série sempre deixou no ar

(Fora que sempre chamou a atenção a versão de uma famosa obra de arte que ele tinha em sua casa)


O quadro Retrato de um Artista (Piscina com Duas Figuras), de David Hockney
A versão do quadro que BoJack tinha em casa, com cavalos no lugar dos humanos

(A morte de BoJack afogado em sua piscina seria portanto um uso incrível do que os contadores de história chamam de foreshadowing, ou seja, quando um elemento que já foi anunciado lá atrás ganha um novo significado mais pra frente na história)


Chega o penúltimo episódio de BoJack Horseman, The View from Halfway Down, com certeza um dos mais incríveis de toda a série, em que, aos poucos, percebemos que ele está à beira da morte.


Reencontra-se com diversos personagens que já morreram: seu tio que nunca conheceu, sua mãe, Sarah Lynn e até o ator Zach Braff, antigo protagonista da série Scrubs - lembrando que sim, Zach Braff morreu no universo de BoJack Horseman.

A atriz Jessica Biel, ex-mulher de Mr. Peanutbutter, coloca o pobre Zach em chamas na quarta temporada

Enfim, longa história, vamos manter o foco.


Durante pouco menos que meia hora, nesse episódio, o roteiro de BoJack Horseman nos leva a uma espécie de purgatório em que BoJack se reencontra com todos esses defuntos e eles discutem sobre suas vidas e mortes. É uma experiência assustadora, principalmente quando BoJack tenta presumir que vai encontrá-los “do outro lado”, ao que ouve: não existe outro lado. Tudo se acaba ali.


Mas e se tudo de fato acabasse ali e fosse esse o último episódio de BoJack Horseman?


Seria surpreendente. Novamente, seria um final lógico para esse personagem. De certa forma, seria até um alívio para o próprio BoJack, que chegou de fato ao fundo do poço, ou da piscina. Mas...não seria justamente isso que David Chase criticou na reação do público em Sopranos? De certa forma, matar BoJack seria nos trair em nome de alguma "justiça", como se nós, que participamos passivamente das péssimas atitudes do protagonista, fôssemos nos redimir. "É, não tinha jeito...ele teve o que mereceu", e passaríamos para o próximo "homem difícil" da próxima série do momento.


Mas ainda há um episódio final, Nice While It Lasted.


Nele, descobrimos que BoJack não morreu (na verdade, nos créditos de The View From Halfway Down, já era possível escutar seu coração voltando a bater). E essa é uma punição mais cruel para BoJack: ele vai preso por ter invadido a casa que já não era mais dele e, vivo, tem que lidar com tudo o que já fez.


Pode não parecer, mas esse final oferece aos espectadores uma fagulha de esperança. Terminar com a morte de BoJack, afinal, seria fácil demais também. Não é essa a série que sempre nos foi prometida, um "homem difícil" não pode ter um final fácil.


Às pessoas que, como o protagonista, sofrem com algum tipo de adição, por exemplo, há um alento no último diálogo entre BoJack e Todd. BoJack pergunta: e se eu tiver outra recaída? Todd responde: aí você fica sóbrio de novo. Ou seja, não há nenhuma garantia de que BoJack não vá repetir seus padrões de comportamento. Mas há sim a garantia de que é sempre possível se levantar mais uma vez.


Já na última cena de toda a série, BoJack conversa com Diane, e descobrimos que, antes da tentativa de suicídio, ele fez mais uma merda: ligou pra ela, ela não atendeu, e ele deixou uma mensagem na caixa postal em que diz que a culpa era dela pelo que estava prestes a acontecer (e que acabou não acontecendo).


Fica implícito ali que a amizade de ambos está no fim também. Há limites para se perdoar alguém, e Diane tentou salvá-lo muitas outras vezes durante a série. A punição de BoJack, no fim das contas, é viver. Viver consigo mesmo.


E isso fica claro no seguinte diálogo:


BoJack: a vida é uma merda e aí você morre, certo?

Diane: às vezes. Às vezes, a vida é uma merda e você continua vivendo.

Diane e BoJack conversando no telhado: uma tradição

O final é agridoce. As coisas poderiam ter sido muito piores para BoJack, embora mais simples e práticas. E isso talvez tivesse dado a nós o ponto final que normalmente se busca no fim de uma história. Mas essa é uma série que nunca ofereceu resoluções simples e práticas.


Como The Sopranos, mas de forma menos radical, BoJack Horseman se recusa a entregar um final no estilo Horsin' Around. Mas também mantém vivo o seu protagonista, dando a esperança de que possa ter havido algum crescimento em meio a toda essa dor. E que ele pode, com muito esforço, deixar de ser um "homem difícil". Eis o ponto final dessa história. Em vez de felizes para sempre, o final de BoJack Horseman poderia ser resumido na frase tentando para sempre.


A vida é uma merda e continuamos vivendo, pois.

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