• Filipe Chamy

Bruxos crianças, birras adultas: como reentrar num castelo após vinte anos


O autor do texto conversando sobre encantamentos com Adelaide em 2014, na exposição do Castelo no MIS
O primeiro da coleção, que chegaria a doze livros

Como qualquer criança média dos anos 1990, cresci fascinado por esse grande fenômeno televisivo que foi o Castelo Rá-Tim-Bum. A mística, as personagens, as histórias; depois, os livros, os gibis, os brinquedos. Nada mais justo para neste mês de outubro pandêmico que juntarmos duas datas famosas e lembrarmos que o Brasil também tem seus bruxos nas narrativas infantis.

A eterna criança Cássio Scapin (foto de Jair Bertolucci)

Criança exigente que eu fui, lembro-me de descobrir com desagrado que o filme do Castelo não teria Cássio Scapin no papel principal, e bati o pé recusando-me a vê-lo. E não fui, nunca fui, escapei inclusive das fitas VHS, do DVD, das reprises televisivas. A birra durou mais de vinte anos, considerando o filme ter saído em 1999. E ano passado decidi que era tempo de encerrar mais esse capítulo de imaturidade na minha vida, fazer as pazes com as birras descabidas e, afinal, entrar mais uma vez no Castelo, para ver novos rostos e aventuras.

A Cinemateca Brasileira, com sede aqui em São Paulo e aparentemente hoje mais em via de extinção que o lobo-guará (que ganhou uma sobrevida monetária nas notas de duzentos reais), programou o filme para uma mostra especial de filmes que saíram naquele fatídico penúltimo ano do século XX, compilando uma boa porção de obras que estavam alcançando bodas de porcelana. E resolvi que ia finalmente ver o filme como o devia ter visto na época: no cinema e em película.

Estranhos olhos atrás...

Os reveses da vida fizeram com que nesse dia, já programado, eu me visse inopinadamente às voltas com um passeio de carro com os pais, a ex-namorada (na época só namorada) e uma gata preta, batizada por mim de Medeia – evidentemente os ingredientes perfeitos para um excelente dia das bruxas à brasileira. Resultado do feitiço: em poucos dias perdi o filme, a ex adquiriu três gatas, meus pais perderam uma nora e eu ganhei uma excelente terapeuta.

Como todo cético, acredito muito em coincidências mas desprezo seus sinais. Parecia que o universo me falava para não ver esse raio(s e trovões) de filme, catástrofes estavam vinculadas a ele. Quiçá por isso o elenco do programa não tenha chegado inteiro às telonas, havendo todos morrido na feitura do filme... Ops, filme errado.

Será que o Nino dará uma colher de chá à tia?

Bobagem! Intrépido que sou, nesta pandemia, no dia 12 de outubro, dia de todas as crianças, decidi que de agora não passaria, o filme seria visto. Apanágio da contemporaneidade cibernética: o que se quiser ver, quase sempre, pode ser visto.

O novo Castelo: propriedade Stradivarius ou Matarazzo?

Fui, vi e venci. Devo dizer, num entretanto anticlimático, que a minha história por trás do filme me parece mais interessante que a do filme em si. Porém é um bom filme, que em nada deve assustar a ninguém que já não se assuste com qualquer ninharia. Pelo que apurei, o filme fez muito sucesso comercial (vender a alma às bilheterias também é algo digno de Halloween) e muita gente gostou que dava para se concentrar na trama, em vez do centro nos pequenos esquetes educativos do programa televisivo. Parece que apenas eu bati o pé por Cássio Scapin, o que talvez explique uma unha encravada que me perseguiu anos a fio, em outra fantasmagoria certamente ligada a essa saga diabólica.

Único sobrevivente: o que já era Mau...

O que mais salta aos olhos no filme é como ele parece um subproduto de Harry Potter, mesmo tendo sido filmado antes de qualquer filme da coleção do bruxo inglês. A inspiração para ambos deve ser o início da fase decadencial de Tim Burton, uma estética que marcou essa época e ainda marca presença na nossa, aqui e ali.


Estão ausentes do filme quase todos os personagens do programa, exceto o núcleo familiar principal, ligado a Nino, ou melhor, Antonino Stradivarius II. Então reencontraremos basicamente seu tio Victor (Sérgio Mamberti) e sua tia-avô Morgana (Rosi Campos), tutores desse mocinho em fase de aprendizado e aperfeiçoamento moral e intelectual.

... conseguiu ficar ainda pior

Nino agora é interpretado por um menino, Diegho Kozievitch, mal aparentando seus trezentos aninhos mal vividos sem amizades, sem escola, sem mais companhias que as dos habitantes do castelo, que agora são poucos e bastante infrequentes. Estão ausentes do filme quase todos os bonecos favoritos da assistência saudosa: o porteiro foi substituído por duas bizarras esfinges; na árvore em torno da qual a construção foi erigida não há sinal da cobra Celeste ou dos passarinhos musicais; da biblioteca desapareceu o Gato Pintado, quem sabe preferindo passar a consumir seus livros favoritos em formato eletrônico em outro cômodo da propriedade; sumiram ainda o ratinho dos bons conselhos de higiene, o relógio enxerido, o monstrengo Godofredo, as botas Tap e Flap, uma completa e acabada desbonequização do pobre Castelo. Para dizer que não há nenhum, há três heroicos resistentes: um chamado Feio, outro de nome Sujo e... o Mau! Sim, o Mau, eterna presença infecta dos encanamentos mal conservados do castelo televisivo, faz aqui seu retorno, sem qualquer semelhança fisionômica com nosso velho conhecido e sem a gargalhada fatal. Quem pode rir agora?

A séria transição capilar de Penélope

Identicamente sumiram os amigos não-bonecos, como as fadinhas Lana e Lara, os cientistas distraídos Tíbio e Perônio, o alienígena extraviado Etevaldo, a bizarra criatura do mato Caipora e o entregador de pizza Bongô. Meu palpite é que a ideia de aventuras cotidianas envolvendo comida e amigos do dia a dia não pareceram cósmicas o suficiente para entrar nessa proto-Hogwarts que é esse Castelo que de castelo mesmo tem muito pouco, se assemelhando mais a um resquício de mansão de barão cafezeiro da Paulista... De todo modo, aparece, numa ponta, a jornalista Penélope (Ângela Dip), sem peruca rosa e igualmente envolta na seriedade da coisa toda.

Três crianças felizes e coloridas: Biba (Cinthya Rachel), Zequinha (Fredy Álan) e Pedro (Luciano Amaral)

Pois falemos da seriedade. Esqueçam o quarto cujas paredes são decoradas com histórias em quadrinhos, crianças de cartola e roupas espalhafatosamente coloridas, num estilo de que depois Romero Britto se apropriaria malignamente como o Dr. Abobrinha (Pascoal da Conceição) tenta sempre se apoderar do Castelo para transformá-lo num megaempreendimento imobiliário, vilão neoliberal avant la lettre...

Dr. Abobrinha e a gentrificação: muá, muá, MUÁ!!...

Alvíssaras! Dr. Abobrinha, ou, mais “dignamente” (?), Pompeu Pompílio Pomposo está no filme! Porém, oh, não, está com um inexplicável assistente, chamado Rato (Matheus Nachtergaele). Nosso empresário desfavorito aliar-se-á com Losângela (Marieta Severo), parente renegada dos Stradivarius que, por algum motivo, resolve botar as mangas e os bruxedos de fora. A razão que eu encontrei é que é o mês das bruxas, mas no filme há algum insólito macguffin envolvendo o alinhamento dos planetas.

O Dr. Victor cinematográfico: eterno "bad hair day"...

Falemos dos figurinos e da maquiagem, já que falamos da seriedade. Comecemos pelo Dr. Victor, que tinha aquela carinha de professor desenhado por Hergé, com seus oclinhos, colete e bigodinho pontudo, agora tem cabelos brancos compridos, rosto limpo e roupas soturnas, lembrando um primo afastado do Pinguim interpretado por Danny DeVito. O filme, aliás, usa umas tomadas em contra-plongée orsonwellesianas que só aumentam a estranha circunferência do tiozinho. E se a ideia era tornar tudo estranho, bem, conseguiram.

Morgana também perdeu a gralha de estimação Adelaide, na chacina bonecal empreendida pelo diretor-conceptor Cao Hamburger – aqui sem as invencionices divertidas de Flavio de Souza (já falamos que os gêmeos inventores caíram fora; se você não sabe, um deles era o co-criador do programa!). Notem na foto a diferença entre os trajes da velha feiticeira, como também se tornaram mais sisudos. Diria mais “acurados”, considerando haver um figurino prototípico para bruxas; o original lembra mais uma dama rendada espanhola, nesta análise feita por este grande conhecedor de moda que sou eu.

Tia e sobrinho próximos à árvore central do Castelo

E o Nino? Sua roupa engraçada com listras verticais cheias de cor virou um sóbrio traje parecido com os dos aprendizes dos filmes medievais, um assistente de alfaiate, algo enfadonho, tedioso, que vai ao encontro da discreta revolta empreendida pelo garoto no filme, qual seja: rebelar-se contra a marginalidade solitária a que os tios de boa-fé o condenaram, associando-se a crianças normais, querendo empinar pipa com elas, andar de bicicleta e (eu não disse que a revolta era bem discreta?) ir à escola.

Cacau, João e Ronaldo: os novos três amigos de Nino

Pois bem, mais uma vez temos um trio de crianças, com mistura étnica e diferentes procedências, todavia conhecidos entre si e amigos até o fim. Saem Pedro, Biba e Zequinha, entram João, Cacau e Ronaldo (Leandro Léo, Mayara Constantino e Oscar Neto). Na busca por uma verossimilhança inaudita em um filme de fantasia infantil, as roupas do trio são normalíssimas, nem sinal de um pequeno cartoludo como na série original. Por que buscar realidade em um filme protagonizado por bruxos e destinado ao público mirim? Oras... Porque sim, Zequinha!

Rato e Pompeu Pompílio Pomposo: elegância

Dr. Abobrinha, cuja mudança de vestuário limou sua autoconfiança a ponto de mudar sua ética de quase sempre agir sozinho, traja um terno bastante sóbrio para uma pessoa conhecida pela insistência nada gloriosa em se estrepar das formas mais vexaminosas possíveis, prometendo vingança ao som de sua risada amarela fatal. São dois os maus a gargalharem pelo Castelo...

No fim das contas Castelo Rá-Tim-Bum, o filme é diversão mais que digna, filme que, com seus tropeços (há uma propaganda descarada de um chocolate, a certa altura), mostra um pouco e honestamente a cara da criançada de sua e todas as épocas, como as boas histórias infantis. A razão da comparação com o programa foi apenas porque tive esse Rubicão de vinte anos atravessado pelo meu eu de hoje e tive de ceder à tentação de comparar tudo que foi possível, a César o que é de César. É um vício, que não aceitou ser domado à explicação lógica de que o filme e o seriado possuem contextos, propostas e conceitos diferentes. Choque de universos, planetas se alinhando.

Meus medos revelaram-se infundados, como eram equivocados os temores de Victor e Morgana acerca do não-acolhimento de Nino pela sociedade normal. E como o próprio Nino, receoso do convívio com crianças normais, terminou por perceber, nessa jornada de amadurecimento: não há experiência sem experimentar. Crianças devem enfrentar o desconhecido, por vezes. Ou pelo menos permitirem-se entrar nos castelos imaginários que encontrarem por aí – provavelmente a única e maior moral que concedemos extrair desse conto de bruxas brasileiro.

Tchau não; até amanhã! O autor do texto acertou a senha para entrar e nunca mais sair dos castelos

P.S.: Os direitos das imagens pertencem a seus detentores.

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