• ericammz

Do café e outros demônios: um mergulho em vícios ínfimos


Começa assim: queixei-me de baratas.


Por mim começava todo e qualquer texto com esse plágio da Clarice. Acho mesmo que “a quinta história” é o esqueleto de todas as histórias de repetição. Todos os textos que rodam na cabeça feito ladainhas são a quinta história, e todos começam da mesma forma: queixei-me de baratas.


As baratas das quais me queixo hoje são essas da minha cabeça: os pequenos sintomas e besteiras de um corpo que não sabe o que é real. Está sempre à beira de uma morte estúpida gerada por sua própria impressão de mortalidade. Adianta o absoluto da morte para o tempo fraco do cronograma. Ocupa os espaços da agenda com a lista transbordante de preocupações. Os sintomas do dia são um tipo invisível de boleto.


Começa assim: queixei-me de hipocondria.


Um dia eu passei a noite em claro pesquisando no google, certa de que eu morreria por causa da tromboflebite no meu braço daquela agulha mal enfiada que viraria uma embolia pulmonar (porque afinal, não existe probabilidade: tudo é cinquenta por cento, acontece ou não acontece, e se poderia acontecer com certeza aconteceria).


Agora a crise não era porque eu ia morrer, mas porque eu estava exausta de achar que eu ia morrer. Veja, a metalinguagem é um caminho de saída:


- Doutor, me dói a hipocondria.


Começa assim: queixei-me de queixar-me de baratas.


Já se percebe pela apresentação que não sou hipocondríaca, mas que uso a máscara para entender a máscara e, portanto, poder tirá-la.


Começa assim: queixei-me de dor de garganta. Depois de idas e vindas concluiu-se (a benção do sujeito oculto) que se trata de problema de refluxo.


Do refluxo eu sabia. O que não sabia é que refluxo se disfarça e varia de sintoma: azia num dia, aftas no outro, tosse no terceiro, e se você for ainda muito azarado: asma. Dizem que as cidades estão menos poluídas, e que não se respira mesmo assim. Em tempos de pandemia refluxo é uma piada de mau gosto. Eu, por sorte, não tenho falta de ar.


Ter hipocondria (de mentira?) no meio de uma pandemia é uma experiência e tanto. Talvez eu devesse fazer um podcast. (se você chegou até dois mil e vinte sem dizer talvez eu devesse fazer um podcast, sério, meus parabéns!)


E quanto ao refluxo?


é preciso tomar omeprazol. é preciso beber água mais devagar. é preciso parar de comer duas horas antes de deitar.


é preciso elevar o travesseiro, é preciso comer menos fritura.


é preciso suspender o chocolate.


é preciso suspender o café.


é preciso suspender o chá.


o chocolate. o café. o chá.


As minhas três drogas.


Sempre toca na minha cabeça aquela música do alice in chains: "what's my drug of choice?" (“qual é a sua droga favorita?”)


A graça é que eu sou extremamente careta. Pensa numa garotinha grunge ouvido os drogados e não bebendo nem álcool. Essa era eu com quinze anos. Já fui mais careta, mas ainda sou, na média, bastante careta. Minha droga sempre foi o chocolate.


o primeiro amor


Esse, como a maioria das paixonites tóxicas por homens cafagestes de adolescente, eu aprendi como aprendemos tudo: com a minha mãe.


(Aprendi um monte de coisas boas também. um beijo, mãe!)


Minha mãe gosta de chocolate. Sempre foi um tipo de compulsão diferente entre nós: ela não podia ver a barra de chocolate aberta e me pedia para tirar da frente dela. enquanto tivesse, ela comia. Eu podia fechar a barra e guardar. Mas eu precisava que tivesse todo dia. enquanto não tivesse, eu sofria.


Aquele tipo de vício que se compara com o outro vício como se fosse menos baixo. Pecado mortal mesmo, sem justificativa.


Mas chocolate, eu dizia, meu deus, de todas as drogas, eu vim tão pura e tão inocente, como sou injustiçada! Oh desgraçada de mim que quero apenas a minha droga infantil e a tenho arrancada com tal violência!


(criança gosta de espernear né?)


Chocolate é uma droga tão boazinha, tão inocente, quietinha e legal, toda dentro das normas ela.


O primeiro amor é de infância e a gente vai passar o resto da vida defendendo a sua ingenuidade. Mas o desejo não tem ingenuidade, nasceu sem. O chocolate eu talvez diga: posso comer só de vez em quando ("uma vez a cada morte de papa" dizia meu avô, quando ele precisava maneirar nos doces. E quando ele comia o que não devia eu brincava: "quantos papas você matou hoje?")


Porque o chocolate é a droga barata, o vício mais puro, a criança que esperneia. Deixa a criança fazer birra, dá a ela duas leituras de poesia, para ver se aguenta as longas faltas de barras de chocolate. Inverte e a Bernadete Mayer, e segue o baile. (A Bernadette Mayer tem um poema que diz que ela levava barras de chocolate para as leituras de poesia, para que os filhos aguentassem esperar. Ela chamava leituras longas de “leituras de duas barras de chocolate”. Esse poema foi traduzido pela Marília Garcia, lindíssima.)



Interlúdio: uma saída sem sacrifícios


Talvez seja possível, negocio, uma saída sem sacrifícios.


Equilíbrio, querida.


Todos sabemos que a resposta está no meme zen-budista: um pouco de droga, um pouco de salada.


Mas então como fica a história da minha madrinha, que está tratando um câncer do intestino, não pode comer coisas cruas, e me conta que a coisa proibida da qual mais sente saudade é salada?


de noite, todos os gatos são pardos. na hora do vamos ver, salada também é droga.


(fim do interlúdio)


O segundo amor


Como toda criança que se preze, eu detestava café. “tem gosto de giz”, dizia a Paty Maionese, e eu concordava. (Uma vez na primeira série nós fizemos um “verdade ou desafio” entre as meninas e eu comi um pouco de pó de giz da lousa. Não tem gosto de café não, mas eu sabia o que a Paty Maionese queria dizer). O cheiro, porém, sempre foi incrível. Eu subia os três andares do armário de concreto da cozinha para pegar o pote de café para a minha mãe, abria e respirava fundo. Cheiro bom, gosto ruim.


Não foi no colégio também, estranhava as amigas que tomavam café. Não foi para estudar, não foi nada disso. O segundo amor, ou o segundo dos meus ínfimos vícios, eu conheci numa viagem.


Minha primeira vez em Nova Iorque foi que nem um daqueles casos de verão em que nenhuma das duas pessoas está completamente sóbria em nenhum momento, nem completamente acordada, porque passeiam por aí de dia com os amigos e bebem e transam de noite sem tempo pra respirar. Eu não transei com ninguém em Nova Iorque, dessa vez, mas a cidade me deixou elétrica e cheia de tesão em tudo, podia ter lambido o asfalto, chupado um livro, dormido abraçadinha com as esculturas do jardim do Moma. Primeira vez que me deparei com o Chelsea Hotel acho que comecei a chorar. Estava fechado, tinha uma placa em homenagem ao Leonard Cohen. Qualquer diner tosco de esquina era apaixonante, porque eu estava na terra do Lou Reed, sabe? Coisa de gente jovem deslumbrada mesmo. Fiz a viagem sozinha, mas encontrava minha amiga Sassá pra beber e ouvir jazz de noite, e andava por todo e qualquer canto de dia, sem muito critério.


E o café? Essa parte chega a dar vergonha. Eu ia dormir lá pelas 4 da manhã e acordava às 8 com sede de respirar aquele ar sujo e pisar no mesmo chão que a Patti Smith, então eu comecei a passar de manhã no Starbucks da esquina. Sim, meu primeiro café, ou meu primeiro café que conta, foi um starbucks. Mas toda primeira foda é meio tosca, né. Vai me dizer que a sua foi assim um sexo tântrico de horas? Duvido. Meu primeiro café cotidiano era um tall iced caffe mocha. Não vou ousar sentir vergonha. Eu ensino meus alunos a não ter medo do ridículo. Era verão e fazia um calor de deixar o Rio de Janeiro no chinelo, e quando eu descobri que meu café podia ser gelado e entupido de açúcar e chocolate, e ainda me deixar acordada, foi uma só. E tá aí o chocolate de novo: porque a primeira transa é isso né, aquele resto de infância meio disfarçado misturado numa tentativa mal realizada de ser adulto, cumpre a função dela e segue viagem, fast food to go.


Depois os cafés foram melhorando. No começo tremia toda se tomava café longe da refeição, fico ansiosa e com taquicardia: café pra mim é droga pesada. Mantive o gosto pelo café gelado, que eu insisto que nós de país tropical tínhamos mesmo que fazer melhor que os gringos. Não gosto de café puro, tomo com leite (com leite, desgraça, nem café puro eu tomo, qual é a do refluxo?!). Nem tomo café todo dia sabe? Mas barganhar com o próprio estômago é difícil, ele não tem muita paciência para desculpas esfarrapadas.


Dei uma requintada no gosto trash pelo Starbucks cheio de chocolate e chantilly, em casa faço catuaí amarelo na prensa francesa. Em casa temos dois cafés: o ruim e forte, do meu namorado, que bebe Três Corações Extra Forte da cafeteira italiana, e o meu cafezinho fresco e fraco de algum lugar de produção própria.


Hoje em dia sempre que viajo vou em busca dos melhores lattes gelados de qualquer lugar. (O melhor latte gelado da cidade de São Paulo é do PPD, aquele café do centro, e se vocês forem lá, um dia, em uma galáxia muito distante, comam o bolinho de café deles que é delícia.)


O café com leite virou na minha vida aquele vício útil, que de vez em quando é a única coisa que me faz conseguir trabalhar no calor campineiro pós-almoço, e que serve de desculpa para estar fora de casa e variar o ambiente. Por um tempo foi também o jeito de trabalhar quando eu não conseguia trabalhar em casa, no apartamento em SP. E eventualmente me apeguei aos cafés aqui da minha nova cidade, onde vou com meu amigo contar fofocas sobre nossos interesses românticos frustrados. Não fazemos isso há seis meses. Meu café favorito foi o primeiro lugar do qual eu senti saudades, lá no início da quarentena, quando sentir saudades era novidade.


O amor maduro


Antes que vocês digam assim:


“mas Erica é só tomar chá de erva doce e hortelã, Erica, nem todo chá faz mal pro estômago, Erica, não estou vendo a dificuldade!”


Infusão, gente. Isso que vocês estão falando nem é chá. Infusão não tinha nem que estar aqui. Infusão eu tomo de noite pra ir dormir.


(Sabe qual a diferença entre chá e infusão? Um é droga, o outro não.)


Chá é coisa de gente adulta. Chá é aquela coisa que a Ana Cristina Cesar toma com as convidadas escritoras imaginárias dela, chá é bebida de gente casada e silenciosa que lê livros.


Chá é podre de chique.


Como é que eu, uma Sagitariana com S maiúsculo, dessas que adora se dizer sagitíssima, exagerada jogada aos teus pés etc e tal, como foi que eu fui me apaixonar por uma coisa tão... sutil?


Sim, porque só gosto de sentimentos intensos. Me dá um pânico danado esse negócio de rotina. Perguntam qual é o lugar onde eu me sinto mais confortável digo logo “estrada”. Talvez seja a vontade de algo que contraponha o barulho que faz dentro da minha cabeça, um gosto leve, que para sentir é preciso fazer um pouco de silêncio.


Mas de onde veio, como chegou o amor maduro, o vício mais delicado de todos?


Talvez tenha sido até na mesma viagem a Nova Iorque. Ou em outra. O amor maduro volta e meia você não se lembra tão bem onde e quando conheceu. Não é que nem a primeira foda, que é meio trash, mas você lembra exatamente onde estava. É mais de vagar, sorrateiro, vai aparecendo aqui e ali, e um dia já foi. Com o chá foi isso. Um dia eu voltei de alguma viagem e tinha comprado um monte de chás.


Agora, além de ser um amor podre de chique, a gente não pode se esquecer que é um vício, e vício não pode ser só uma coisa bonita. A parte vício mesmo do amor maduro pelo chá é que o negócio é caro. Fui um tipo de dondoca falida prematura que torrou dinheiro que não tinha em saquinhos e latas bonitas de chá por aí. A parte vício é o consumismo mesmo. Porque todo mundo sabe que não faz sentido colecionar chá. Todo mundo sabe que eu não consigo tomar metade daquele bendito varal de saquinhos pendurados na cozinha e daquelas latas espalhadas pelo balcão. Chá é um negócio econômico, usa-se bem pouquinho por vez, mas eventualmente vence o prazo. O fato é que eu compro muitos para ficar realmente apaixonada por uns três ou quatro, e tomar esses, meio aflita pelo medo que acabe.


Essa história do medo que acabe não é uma história da maturidade. Sempre fui pleasure delayer. Adoro essa expressão: adiadora de prazer. Mania de adiar o prazer para não chegar ao fim, essa personalidade meio mão-de-vaca com a felicidade, que quer ser feliz mais de vagar pra não gastar. A felicidade pra nós é um vértice meio trágico, uma lembrança ao contrário da queda. A gente fica na dúvida entre tomar o chá e ter o chá. Tipo a minha cachorra que quer desesperadamente que você jogue a bola, mas também não quer te devolver a bola.


A história do chá não acabou, porque ele representa ainda uma quietude que eu procuro e não acho. Um tempo de leitura que eu perdi, uma tranquilidade de não ir que eu finjo ter, para ver se alcanço. O chá acorda gente parada, gente quieta, sabe perfeitamente o limite do sabor, da energia e do silêncio. O chá é pura sabedoria. Mas pura sabedoria às vezes também causa refluxo. Somos assim, corpos que não aprenderam a digerir nada, mas envelhecem assim mesmo.


É isso. Está feito o levantamento dos vícios, a anamnese, a investigação arqueológica de suas origens, ou a carta de amor aos defeitos que eu preferia não perder. Ficou mais fácil qualquer tipo de despedida? Acho que não. É como espalhar pelo quarto os objetos na faxina, cada foto e bilhete encontrado abre trilhas de memória, aquece e alonga músculos.


Não decidi o que fazer do chá, do café, dos chocolates. Não decidi como vestir a paranoia dos micro-sintomas, resultados não só dos ínfimos vícios mas das grandes histórias mal contadas. Não tomei decisões sobre a palavra hipocondria, nem sobre a oscilação entre estômago e intestino. Não sei os limites nem os excessos, nem confirmei meus diagnósticos. Não decidi parar ou começar alguma dieta. Não escolhi, como a moça da quinta história, entre eu e a minha alma, nem entre minhas três pequenas drogas. Não decidi o que comer, o que vestir, para quem dizer e não dizer que sigo querendo queixar-me, todos os dias, de baratas, de refluxo e de hipocondria. Nem parar de reclamar eu decidi.


Mas decidi voltar a escrever. E escrever faz um bem danado para o estômago.


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