• melody erlea

cata os alicates, diz fiona apple


"fetch the bolt cutters" ou "cata os alicates" é uma frase que stella gibson, a detetive interpretada por gillian anderson na série the fall, diz quando encontra trancada com cadeado a porta de um quarto onde uma garota foi torturada.

pega esse clima e agora imagina que fiona apple escolheu essa frase pra ser o título de seu mais novo disco, lançado hoje mesmo, 17 de abril. a disco é do começo ao fim dedicado à narrativa feminina - a do amor, sim, mas também a da amizade, da rivalidade, dos remorsos, dos silêncios, das opressões.

fiona apple sempre cantou uma narrativa de amores e desamores femininos, mas me parece que esse é o primeiro disco em que essa expressão não é definida por um olhar externo masculino. um ex, um paquera, um babaca, um criminoso, um estuprador, um amigo, um coração partido, uma traição... tantas das músicas da fiona eram uma expressão dessa amargura feminina em relação à imagem de um cara. e em fetch the bolt cutters essa perspectiva tá completamente mudada.

até porque o jeito que nós, mulheres, contamos nossas próprias histórias mudou muito nos últimos anos, né? essa mudança, esse tomar a frente de nossas narrativas e nos desatrelarmos do eterno e onipresente olhar masculino (que tá na mídia, nas nossas famílias, nos nossos relacionamentos amorosos, nas nossas carreiras, na literatura, em tantos e tantos filmes e músicas e histórias...). é lindo ver essa mudança social personificada e expressada num disco, é inevitável que tenha sido um disco de fiona apple.


fiona se coloca crua e brutalmente honesta frente a todas as outras mulheres da sua vida e do mundo: a ex do seu ex, de quem você nunca vai ser amiga porque ele a envenenou como envenenou você uma vez; as mulheres incríveis com as quais você não consegue se conectar por insegurança, medo, vergonha; a mulher que enxergou todo seu potencial antes mesmo de você saber o que potencial significava; as meninas da escola com quem você queria andar mas que te desprezavam; as mulheres que foram assediadas e abusadas; as mulheres que amam e se permitem ser usadas; as que não calam a boca e falam o que precisa ser dito mesmo que incomode; as mulheres com depressão; as monogâmicas e as não-monogâmicas; as mulheres injustiçadas; as que parecem fracas e as que parecem fortes; as mulheres que foram abandonadas; todas as mulheres que existem.


mas, principalmente, fiona se desveste pra ela mesma. o disco é quase um passeio por tudo que já ouvimos dela em discos anteriores, mas repensado, revisitado, transformado. o jonathan que tá lá nomeado em idler wheel, o disco anterior da cantora, reaparece na música drumset do disco novo. a cantoria aguda no fim da primeira faixa do disco novo, relay, me lembrou o fim de periphery, também do idler wheel.


eu senti nessas músicas o poder de todas a história das mulheres na música, juro. eu senti a grace jones, patti smith. joan jett, regina spektor, nico, nina simone, tori amos, sinead, eu senti todas elas vibrando e ressurgindo na voz de fiona, que também parece referenciar a si mesma, suas histórias e as pessoas de sua vida, enquanto ressurge, a eterna fênix da música, maior, mais gigante, contendo em si toda a força da narrativa feminina.



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