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  • Foto do escritormelody erlea

como pode em duas horas caber tanta vida


se eu me lembro da pessoa que eu chamei de melhor amiga por anos ao mesmo tempo em que lembro aquela noite, parece que foi ontem (mas já outra vida), em que eu e um namorado discutíamos o nome de uma canção do the cure. "quer apostar?" ele me desafiava, porque sabia que tinha a resposta certa. "e você vai apostar o que? o meu próprio dinheiro?"; corte profundo no ego de um homem que, com todas as contas atrasadas, desempregado, devendo até a meia que botava no pé, realmente não tinha um tostão pra apostar comigo, nem de brincadeira.



e eu pensei nisso tudo, numa fração de segundo, quando tocou a maldita música. a que ele sabia o nome e eu não.

também pensei, ao mesmo tempo, cérebro divido em duas telas, nessa minha melhor amiga (estranho usar "ex" pra falar de amiga, mas é o que é, uma ex melhor amiga), com quem eu ouvi a mesma música, ao vivo, 10 anos atrás. uma mesma música; quantas melodys eu já fui ouvindo a mesma música. spider man IS INDEED having you for dinner tonight. como pode em duas horas caber tanta vida. como pode eu estar aqui e ao mesmo tempo estar em 2008, na marginal pinheiros, no banco do passageiro do carro de uma amiga ainda recente demais pra eu entender a profundidade possível daquela conexão. eu lembro de estar triste, melancólica, cheia do spleen como costumo ser desde sempre, e muito apropriadamente tocar the cure no rádio, let's go to bed, que eu cantei do começo ao fim com minha nova amiga, janelas do carro abertas, marginal passando. "nunca conheci ninguém que sabia essa letra inteira de cor". eu sabia, sei ainda.


e depois, tantos crushes, e antes, então, tantos mais, e ao fundo sempre the cure tocando. na estrada para o rio com outro namorado, meu deus nem sei dizer há quantas vidas, lovecats no cd de mp3 que ele provavelmente baixou na unha, música por música.


e depois outro crush, que numa limpa de vinis me disse "separei um do the cure pra você". quanta ingenuidade, a minha, acreditar na promessa de um possível porém improvável gesto. não ganhei nem o disco, nem o amor que eu achei que o disco (apenas prometido, nunca entregue) podia representar.

e tantos crushes tantos crushes tantos crushes que dos recentes nem falo mais - porque amadureci, sabe, pra ficar expondo eu e os outros em textos metaforicamente mal ajambrados. mas também porque os crushes recentes me lêem, e se tem algo que eu não quero é que eles pensem que eu criei significados demais em pequenos momentos de conexão e the cure.


deixa os significados só na minha cabeça. que daqui 10 anos eu espero estar vendo the cure ao vivo, de novo, e poder dizer pra mim mesma: como pode em duas horas caber tanta vida.




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