• melody erlea

dando pequenos passos com haim


haim é aquela banda que você consome ouvindo mas também olhando. uma banda de três minas gatas. além de gatas elas são irmãs, talentosíssimas, multi instrumentistas e claramente comprometidas em fazer com que a imagem da banda seja apropriada para como elas querem que suas músicas sejam escutadas.


tava lendo ontem mesmo um trecho do livro "bycicle diaries", do david byrne, em que ele comenta sobre a relação de imagem com música que surgiu quando as capas dos discos passaram a ser impressas com imagens, depois a evolução disso tudo até a era do cd e da mtv, e então o derradeiro fim quando passamos a consumir música digitalmente, sem apego a capas ou outras ferramentas visuais que nos conectam a um artista. ele não previu o poder do instagram - a imagem dos nossos artistas preferidos hoje em dia não vem de uma capa de disco para a qual ficamos olhando e admirando. ela vem de todo o conjunto de fotos, vídeos, stories, imagens e posts que os artistas reúnem num @ de rede social.


byrne diz que o primeiro disco a ter uma capa estampada foi uma sinfonia de bethoven, que teve sua capa desenhada por alex steinweiss, muito muito muito tempo depois de bethoven a ter composto. isso foi em 1939 - quer dizer que durante séculos as pessoas consumiam música e compravam disco sem ligar pro que havia na capa. mas a conexão de som e imagem - sound & vision, já cantou nosso querido david bowie - foi o casamento ideal. as vendas de discos aumentaram 800% depois que steinweiss decidiu imprimir imagens em suas capas.


haim, uma banda millenial, ainda se apega maravilhosamente ao poder da imagem, e amo como elas atualizam sua imagem conforme sua música evolui. de pequenos contos sobre amor e break up dos discos iniciais, o novo disco - que elas começaram a promover comendo hot dogs agressivamente no instagram - parece ser uma ode a ser mulher, a viver num mundo masculino, e a lidar com as merdas e esgotos da nossa própria cabeça sem deixar de ser, de uma maneira ou outra, um ideal de mulher, um objeto humano sempre sendo observado e interpretado por um olhar alheio, muitas vezes masculino. toda essa interpretação pode vir unicamente dos clipes que elas lançaram recentemente, e das imagens que tem publicado em seu instagram. alguns dias antes da estréia do clipe de "the steps", elas apagaram tudo de seu perfil pra dedicar a estética ao novo disco, cujo nome só foi revelado uns dias depois: women in music part 3.


e de clipes divertidos, engraçados e leves, pouco a pouco elas densificaram sua projeção visual nos clipes e fotos, porque elas tão densificando também seus assuntos: não é mais sobre amar e terminar - agora é sobre incompreensão num relacionamento que vai além da paixão. agora é sobre depressão e seguir dando os passos necessários pra funcionar rotineiramente. agora é sobre sair de um inverno e se reencontrar como uma summer girl, se descobrir das camadas de proteção e se colocar vulnerável no mundo de novo. agora é, principalmente, sobre ser profundamente mal compreendida pelo outro num nível que parece ser sem volta.

the steps é a 4ª música que elas liberam do 3º disco, que vai ser lançado no fim de abril. a primeira coisa que reparei é na estética que me remeteu tanto à fiona apple - não à toa: o clipe, assim como todos os últimos clipes, fotos e vídeos da banda, foi dirigido por paul thomas anderson, grande parceiro de trabalho de fiona por muitos anos. acho que ele traduziu perfeitamente esse novo feeling da banda - 3 minas gatas, mas como todo livro que não deve ser julgado pela capa, com muito mais caraminhola acontecendo dentro do cérebro do que gostaríamos de ver ou acreditar que uma mulher nutre. uma mulher que tá perdida em sua sensualidade e decadência ao mesmo tempo e tá completamente sem entender o caminho pelo qual tá andando, mas segue dando os passos pra frente.


porra, haim, assim cês me matam. sabe a música certa na hora certa? foi essa. e eu só posso esperar pra escutar o novo disco e querer dançar ao mesmo tempo que me deito em posição fetal e me deixo levar pelos sentimentos todos que só saberei sentir, mas não saberei explicar.