• melody erlea

estrangeiro aqui como em toda a parte



chinelos nos pés, guitarra pendurada nos ombros, uma maquiagem buster keaton, um fundo infinito: é tudo que bowie precisa pra nos transportar pra sua cabeça e nos cativar completamente.


bowiezinho, despido de suas artimanhas estéticas espetaculares, falando da coisa mais humana possível: solidão.


a ideia de estar tão tão tão sozinho, de ter estado em todos os lugares e partido de todos eles - estrangeiro aqui como em toda a parte, já havia dito fefê pessoa 50 anos de bowie, porque existem sentimentos compartilhados por todas as gerações de todas as sociedades da louca história da humanidade (aliás, penso muito que chance desperdiçada do universo de não fazer pessoa e bowie membros da mesma geração; eu imagino que teriam sido muito amigos, eram mentes artísticas muito similares, heterônimos et al).


aquela vontade de suplicar, ao léu, aos 7 ventos, pra quem quiser ouvir, pra quem estiver disposto a compartilhar um ouvido, um ombro, uma vida: fica aqui, vive a vida comigo, que não dá mais pra suportar ser sozinho.


a sensação é universal, quase uma memória genética da solidão relativa em que vivemos nesse universo gigante e vazio. mas adiciona-se a esse clipe, a essa música, o que bowie tava vivendo - em berlin, recém separado, vivendo entre cold turkeys e sessões de gravação, sozinho, sozinho, sozinho.


porra, cara.


esse foi um dos singles menos bem-sucedidos de bowie, mas um de seus lançamentos mais simbólicos e devastadores. o clipe, em todo seu minimalismo, remete a seu clipe anterior, de 1973, quatro anos antes: life on mars, com o mesmo conceito do fundo infinito emoldurando o cantor sozinho em cena.



em life on mars bowie nos apresentava à estética extravagante de ziggy stardust, e uma canção com uma letra rebuscada e longa, cheia de imagens surrealistas e fantásticas. já em be my wife, a letra é simples e objetiva, e os mesmos versos se repetem várias vezes, no eco solitário de um homem afogado em suas próprias máscaras.


e eu arrepio toda vez que escuto a música e vejo o clipe.


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