• melody erlea

entendeu ou precisa desenhar? uma série sobre amizades e perrengues



num mar de produções-netflix pasteurizadas e incrivelmente repetitivas, a série franco-canadense "m'entendes tu?" (traduzida no brasil para "entendeu ou precisa desenhar?") cai tão bem quanto uma cerveja geladinha num boteco pé-sujo entupido de gente caíria nesse momento, em plena quarta-feira de uma pandemia que já dura mais de ano.


e a vibe da série é bem essa: na contramão de todas as outras coisas que costumo ver no netflix, m'entendes tu não tem síndrome de grandeza - e em sua modéstia acaba residindo um poder gigantesco de arrebatamento e reflexão. não tem figurino deslumbrado, roteiro épico, peripécias chocantes e beldades no elenco.



o programa segue a vida de três amigas, ada, caro e fabiola, que moram na periferia de montreal e vivem de maneira absolutamente comum. fabiola trabalha num fast food, ada faz terapia pra controlar seus acessos de raiva e consegue grana fazendo uns bicos - que muitas vezes envolvem favores sexuais - e caro mora com a prima traficante, de quem consegue emprestar o carro às vezes.


ao mesmo tempo que a série trata de temas densos, como abuso sexual, alcoolismo, vida nas ruas, aborto, maternidade irresponsável, abuso de drogas e outros perrengues da vida na periferia, ela retrata de maneira leve e singela a amizade entre as 3 garotas, e desdobra a aparente crueza delas pra mostrar mulheres sensíveis, inteligentes, leais e capazes de carregar os mais absurdos e pesados fardos.



cada episódio passeia pela comédia e pela tragédia naturalmente, delineando as diferentes personalidades das três protagnistas, que diferem e se complementam.


o figurino é exatamente do jeitinho que eu gosto: sem grandes malabarismos fashion, sem itens de designer, apenas o que a gente precisa pra entender um personagem: roupas.


as três amigas tem estilis bem distintos e marcados por peças chave que se repetem pelos seus looks.



ada, a mais extrovertida do grupo, é também a mais imatura, com um comportamento quase adolescente em relação a trabalho, sexualidade e a vida em geral. e ó que curioso: ela usa a gargantilha de nylon dos anos 90, aquela que parece uma tatuagem tribal, e tem uma coleção (invejável) de saias de colegial - aquelas plissadas e xadrez. dois itens que remetem à adolescência e a uma imagem, inclusive, meio fetichizada da menina adolescente. mas ada é uma adulta e eu tenho a impressão que ela vai passar por poucas e boas pra aprender a amadurecer.


fabiola é a responsável, com um emprego como gerente de uma loja de fastfood e o compromisso de cuidar da avó doente e da sobrinha pequena, já que a mãe da criança (irmã da fabíola) é usuária de drogas e some por dias seguidos. fabiola coloca muitos de suas vontades e ambições em segundo lugar pra cuidar de sua família, mas ela tem sonhos grandes e enxerga potencial em si mesma. acredito que essa auto confiança, embora suma nos nós e nos tropeços do dia-a-dia, se expresse um pouco em seus looks coloridos e sexy.


caro é mais quieta e sisuda, lê muito e se esconde em camadas de roupas largas de moletom. ela claramente tem um angústia forte que carrega sozinha - eu ainda não terminei a série, mas alguns flashbacks dão a entender que há um trauma pesadíssimo no pequeno corpinho de caro, e eu tenho a impressão que isso se conecta com como ela se veste.



para além de tudo, a série tem uma vibe urbana muito gostosa, que me remeteu a broad city: as amigas andam pela cidade, conversam enquanto se locomovem, correm pra trampo, pra casa, pra entrevista de emprego, pra terapia, equilibrando mil responsas mas sempre com tempo para ficarem juntas, se ajudarem, se divertirem (da maneira que dá com grana nenhuma).


dá um certo gatilho, em tempos de pandemia, ver essa galera livre leve solta por uma cidade grande, mas acima de tudo dá um quentinho no coração assistir a esse retrato não clichê e não sensacionalista da vida na periferia, em que amizades, amores e alegrias brotam no meio dos conflitos e tristezas da vida comum. e dá um mega de um alívio acompanhar uma narrativa doce e profunda, que não é uma super produção e com a qual a gente consegue se relacionar.


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