• Filipe Chamy

Essa estranha obsessão cromática

— O problema é que você vê tudo em termos de preto e branco.

— ÀS VEZES É ASSIM QUE AS COISAS SÃO!

Essa linda e filosófica epígrafe foi traduzida por mim do final de uma página dominical (aquelas que ocupavam “metade” da página dos jornais, cerca de três vezes o tamanho de uma tira diária) da magnífica tira cômica Calvin & Hobbes – minha predileta, ainda que às vezes se bata com a igualmente primorosa Peanuts. Isso não vem ao caso; a questão é cores. Ou, mais especificamente, a fascinação das pessoas com elas. O que eu gosto de chamar de “obsessão cromática”.



Não vou falar de física, fenômenos óticos, descoberta de pigmentos e nada equivalente – não que não sejam tópicos pertinentes ao tema; o ponto é que desconheço esses assuntos em profundidade. Quero falar do fenômeno que nos faz tão dependentes de cores. A virtual maioria das pessoas se assombraria com um mundo sem cores, como o imaginativo Calvin em sua cogitação mental. Já eu prefiro usar a filosofia do Calvin “real”, ao fim da história: é assim que as coisas são, de vez em quando. Essa resposta também é real: o autor Bill Watterson a usou verdadeiramente para se defender de alguém que lhe acusou também de ver as coisas em preto e branco.

Qual o problema do preto e branco? Que o faz parecer pobre, deficiente, incompleto. Para muitas pessoas, falta algo... Não de hoje. Colecionador de gibis, acompanho há décadas anúncios que falam das páginas coloridas finalmente disponibilizadas aos leitores, da edição totalmente em cores, até dos programas televisivos que agora, ora graças, possuem cor! Agora sim, a diversão está completa...


Esse reinado do cromatismo criou estranhas gerações para quem coisas “sem cores” (como se não houvesse tons, nuances e matizes em preto e branco) são vistas como anacrônicas. Coitado do filme preto e branco, que pobrinho que ele é! (Leia-se com a compungida interpretação vocal de Elis Regina para A corujinha). Os quadrinhos preto e branco são colorizados e anunciados como se “até que enfim” a cor trouxesse a definitividade à obra – exemplos: as republicações luxuosas de Mágico Vento publicadas atualmente pela editora Mythos (quadrinhos originalmente concebidos e publicados em preto e branco). Eu tenho em minha coleção de DVD alguns filmes que vêm em sua versão colorizada posterior, com o seguinte dado de bizarrice na edição: “extra: versão original em p&b”.

Certo, já entendi que as pessoas querem cor. Por que razão é a grande dúvida. Isso torna as coisas mais belas?


Discutivelmente. Os romanos possuíam um apuro refinadíssimo na arte do retratismo em esculturas, e qualquer um pode ficar atônito ao ver uma de suas estátuas pessoalmente, ou até numa busca na rede: ali estão, em tamanho natural e com detalhamento estarrecedor, os imperadores Augusto, Calígula, Caracala. Peguemos uma famosa estátua do primeiro imperador de Roma, Augusto di Prima Porta. Todo o viço, juventude e imponência do governante iniciador da pax romana. Estátua despida de qualquer cor, para com nossos ocidentais olhos do século XXI contemplarem com o devido gáudio.

Pois enganamo-nos. As estátuas romanas eram coloridíssimas, até nos olhos. Todos os detalhes de indumentária possuem cores próprias, e o rosto e os cabelos não são menos cromatizados. Que aconteceu? Essas cores se perderam ao longo dos séculos. Descascaram. Seja por maus materiais, seja por conservação não ideal, seja porque (hipótese favorita) os deuses nos foram favoráveis e retiraram as cores para que possamos ter dessas obras uma imagem mais emblemática. Sabemos que as estátuas eram coloridas quando menos porque temos traços de pigmentação remanescente em algumas partes. Porém não dimensionamos a sorte que é observá-las em toda sua beleza sem as cores planejadas: cores berrantes, chapadas, esquisitíssimas.


Longe da sobriedade que esperamos dos tempos áureos de Roma, temos então uma carnavalização incômoda e artificial.

Se levássemos esse princípio “chamativo” a ferro e fogo, hoje a ideia seria alguém se vestindo como o Norival Rizzo naquele quadro Você sabia?, do X-Tudo. Eu certamente não eternizaria nada disso numa estátua, apesar de não ser muito austero com meus próprios trajes. Sou aquele que vai trabalhar com camiseta da Ariel...


Então a questão parece ser usar a cor ou não, podendo optar. Discuti com amigos outro dia sobre cineastas que resolveram renunciar às cores em seus projetos fílmicos, mesmo já tendo trabalhado com elas antes.

Considerando, claro, os cineastas de uma época em que o comum e menos dispendioso era o preto e branco, ou pelo menos era prática habitual e não tão “marcada” quanto um cineasta de hoje filmando em preto e branco. Cineastas que vão no máximo a um período de transação que compreende a época em que os filmes coloridos passaram a ser a única opção (o que é ontologicamente um contrassenso, claro).

Alain Resnais, Alfred Hitchcock, Billy Wilder, Blake Edwards, gente de toda procedência, idade e mentalidade. Razões abundam, de motivos estéticos a preocupações psicológico-narrativas. François Truffaut, após realizar alguns filmes inteiramente coloridos (como Fahrenheit 451 e Beijos proibidos), em 1970 lança O garoto selvagem, excepcional estudo sociológico em belo preto e branco; gosto imensamente da divisão de percepções entre o diretor e seu roteirista Jean Gruault: Truffaut queria o filme preto e branco por ser uma história “antiga” e ele enxergar assim as coisas velhas, enquanto o roteirista queria filmar a cores porque quando ele pensava em século XIX (a época de ação do filme) lembrava imediatamente de quadros e as pinturas eram todas coloridas...

Recentemente vi toda a filmografia (encontrável) de Harold Lloyd, abrangendo produções originais de 1913 a 1947. Mais de noventa filmes, entre curtas e longas, e todos, sem exceção alguma, em branco e preto. Em nenhum momento tive a impressão de que era uma pessoa menos viva, de tombos menos reais, peripécias desprezíveis. Não há cor na filmografia de Harold Lloyd; todavia nada impede que haja vida ali. Algumas pessoas parecem ver o preto e branco como a impressão fotográfica de um defunto. Cadáveres que se mexem e pulsam sem serem zumbis. Cacarecos. Pó.


E ao pó voltaremos: os livros! Nem entrarei no mérito do exagero mercantilista de uma Cosac Naify, que chegou a colorir as páginas de uma edição de contos dos Grimms com cores tão espalhafatosas que, fechado, o volume parece um imenso bloco de post-it; falarei apenas de um fenômeno que noto de perto há décadas, pois sou apaixonado consumidor e pesquisador de Monteiro Lobato: ilustrações.

Os desenhos de Belmonte, Voltolino, André Le Blanc e tantos outros maravilhosos artesãos da pena e nanquim hoje sobrevivem em edições sucateadas em sebos e em trabalhos acadêmicos (meu mestrado sendo um pobre exemplo). As crianças querem cores! Cores, cores, cores! Uma Emília a branco e preto é hoje crime de lesa-infância! Indecente desconsideração com as pupilas de nossos mirins leitores. Poderia falar aqui sobre os formatos dos livros, que quase sempre são relançados em tamanhos exagerados que os fazem se assemelhar mais a Almanacões da Turma da Mônica, mas fiquemos nas cores.


O traço, a harmonia das formas, a expressividade de um contorno e os movimentos do desenho puro dos artistas, nada levado em conta num livro infantil, onde as ilustrações “descoradas” são contemporânea e tacitamente proibidas de veiculação. É o primado da mensagem cromática – e os desenhos preto e branco são, quando muito, rascunhos de uma ideia que, para ter sua força necessariamente potencializada (leia-se: vendida) deve ser colorida!

Tenho para comigo que é mais questão de costume; como o mundo naturalístico é a cores, o que o modifica ou desnatura vira tabu e deve ser combatido, execrado. Uma aventura de Tex não será menos emocionante em preto e branco, assim como o Zorro televisivo originalmente sem cores (sim, o que a televisão aberta exibiu por décadas foi uma versão adulterada) não é menos vibrante. Parece, porém, que nos forçamos a aceitar apenas um tipo de prato e quando a sobremesa desponta já estamos tão mal acostumados que queremos é repetir a refeição: mais cores, por favor! No meu Netflix não entrará nada em preto e branco... Não passará!

Hoje o preto e branco desponta como um maneirismo algo pedante, se praticado por um Martin Scorsese ou Woody Allen, e puramente inócuo para as demais coisas, que são antigas e não serão consumidas pois ultrapassadas: cartuns de Péricles, fotografias de família, filmes da nouvelle vague, quadrinhos de gênero de décadas pretéritas. Já ouvi de gente, nos tédios comuns aos cotidianos, a pintar quadrinhos como os do Príncipe Valente... Um jeito de “melhorá-los”, evidentemente. E que moda mais espantosa que a dos livros de colorir para adultos? Não se pode aceitar um desenho sem cores? O mosaico só estará completo quando cromatizado.


Talvez a moral seja essa: as pessoas não aceitam a incompletude das coisas. Mas às vezes é assim que as coisas são.


P.S.: Os direitos das imagens pertencem a seus detentores.


Filipe Chamy é geralmente descrito pelas pessoas que convivem com ele como sendo um idiota; mas é muito mais do que simplesmente isso. Fundamentalmente, é um apreciador de coisas belas, mesmo quando elas são feias. Groucho-marxista convicto, nunca fala sério — mesmo que pensem o contrário —, e tem ojeriza a autoridades (e alergia a poderosos). Tenta viver a filosofia “Hakuna Matata”, mas acaba se preocupando mais do que deveria. É escritor frustrado, músico falido e apaixonado consumidor de arte.

Blog: http://pirlimpsiquice.blogspot.com

Canal no YouTube: https://tinyurl.com/yajky4zo

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