• melody erlea

eu sou uma máquina do tempo


escrevi esse texto num caderno e percebi, quando fui escrever a data, que não sei que dia é hoje. tô desde sexta lidando com sentimentos na minha cabeça e na boca do meu estômago que não sei descrever melhor do que "ansiedade em sua mais pura forma". já chorei de levinho na frente do meu pai e da minha irmã, sem contar as tantas vezes sozinha, alto, com grandes soluços e travesseiro encharcado.


ontem deitei na cama, bêbada de sono, mas não consegui dormir enquanto pensava em tudo que tá acontecendo. no macro, no mundial, no medo, e também no micro, no que acontece na minha mente, na solidão e, também, em algo que chamo de medo.


vira e mexe eu comento aqui que vejo muito mais tv do que seria apropriado pruma adulta de 32 anos. eu me afogo em séries, em histórias que me transportam, em narrativas que me envolvem completamente e me deslocam da incerteza que é minha cabeça e a vida num geral. eu não tenho vergonha do escapismo e da alienação: são esses dois amiguinhos que me deixam sã (aliados a rotina e sensação de dever cumprido, que nos últimos tempos foram pro beleléu).


comecei a semana com muitos planos, principalmente aqui pro repete roupa, mas me vejo incapaz de colocá-los em prática. paralisada é uma palavra que li por aí que gostaria que me descrevesse, mas no fim é só uma metáfora, porque tô aqui bem capaz de me mexer mas sem saber o que fazer com essa habilidade.


ontem à noite na cama, enquanto repassava na minha cabeça todos os acontecimentos recentes que me deixam desestabilizada - que normalmente são só coisas minhas e das pessoas ao meu redor, mas que agora evoluíram pra escala de desastres mundiais - percebi, num raro momento de auto-consciência, que eu me acalmava quando lembrava de zoe kravitz em high fidelity. a fuga pras histórias fictícias: ela é real.


quando eu era criança eu lia muito. às vezes olhava em volta e todos meus amiguinhos tinham ido embora, brincar em outro lugar, enquanto eu tava perdida dentro de um livro. só depois de adulta entendi o quanto esse escape era, e continua sendo, essencial pra mim.


então ontem eu dormi pensando numa loja de discos fictícia e nas três pessoas que trabalham nela, revivendo cena por cena dentro do meu cérebro pra não ter que pensar em mais nada. hoje acordei e olhei pro meu instagram, pro último post, por coral cantando com chris martin no tiny desk e lembrei que há mais de 10 anos o tiny desk já salvava minha vida trazendo pra dentro da minha casa pessoas criando narrativas, histórias, coisas pra eu, momentaneamente, esquecer de mim.


essa versão de laundry room do avett brothers tem quase o mesmo efeito que lembrar de high fidelity teve ontem. é uma música feliz, de um encontro apaixonado que toma conta, mental e fisicamente, do eu lírico e se manifesta numa explosão de cordas (esse banjo me faz ter fantasias inomináveis). e no fim, mais do que amor, a música é sobre o poder da paixão de nos tirar da rotina, de experienciar o novo - ou até o velho, mas com um olhar completamente fresco.


a ideia de que somos máquinas do tempo vivas, levando pessoas pra voltas por momentos da vida aos quais sempre poderemos retornar, mesmo que distantes ou já inexistentes, porra, que conceito reconfortante.


eu sou uma máquina do tempo, e tô temporariamente aqui, nesse lugar, nessa situação. e você também. vem dar uma volta comigo e lembrar que tudo tudo tudo é temporário - amores intensos e caos social, o bom e o ruim.


nós somos máquinas do tempo.

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