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  • melody erlea

gen z'ers, cês tão bem? - o estilo em white lotus


em white lotus, cada elemento importa para a histórica, cada detalhe fala: das ilustrações e animações na abertura dos episódios às obras de arte nas decorações dos ambientes, das intertextualidades com cultura pop e mitologias da antiguidade aos figurinos das personagens.


se na primeira temporada conhecemos a filial do hotel white lotus no havaí, e tivemos contato com as delicadas e complexas relações entre os privilegiadíssimos hóspedes do resort e a equipe trabalhando para servi-los, na segunda temporada somos transportados ao elegantérrimo white lotus localizado na sicilia, itália.



os conflitos principais dessa nova temporada focam mais nas dinâmicas de poder entre os gêneros binários feminino e masculino, e a ambígua e agressiva dança na qual homens e mulheres embarcam para assegurar sua posição hierárquica.


não é surpreendente - embora seja genial - que muitas das metáforas e símbolos usados nos episódios retomem essa temática das relações de poder entre homens e mulheres. o tema está presente nos mínimos detalhes das cenas, da presença de esculturas "testa di moro" em todos os quartos às menções mitológicas como a história de hades e perséfone.



o próprio desenvolvimento dos personagens nos dá insights em como a construção de gênero tem um papel fundamental na composição de suas personalidades e na maneira como tomam decisões e lidam com consequências. a começar pelo trio ítalo-americano de avô, bert, pai, dominic e filho, albie, que estão na sicília para tentar algum contato com seus distantes parentes que ficaram para trás quando parte da família foi para os estados unidos. cada um deles é deslumbrado e terrível de seu jeito, representando o zeitgeist perfeito do conflito de gerações mais desagradável possível: o dos homens brancos héteros. de um avô e um pai com fantasias misóginas patriarcais para um filho com síndrome do nice guy aliado salvador woke porta-voz dos mais vulneráveis, difícil escolher quem é mais irritante ou inapropriado.


não é mera coincidência que albie, o nice guy que fala pelos oprimidos, imediatamente se sinta atraído por portia - a coisa mais próxima de uma manic pixie dream girl que a geração z vai ter. ela tá confusa, perdida, desencontrada de si mesma e abbie acha que pode ajudá-la. tão bonzinho, ele.



mas portia não é uma engraçadinha e charmosa moça problemática de um filme do começo dos anos 2000, ela é uma jovem em 2022 megulhada numa vida algorítimica cujos traumas e defeitos não fazem dela mais interessante e misteriosa - eles a fazem meio arrogante e um pouco sem noção. portia reclama o tempo todo da viagem gratuita que está tendo oportunidade de fazer, e diz odiar a vida dentro de telas e redes sociais... mas não abre mão de seu celular e parece ter suas escolhas ditadas pelo que ela vê nos trending topics. uma indicação clara disso é seu estilo.


as roupas de portia são uma bagunça. ela usa e abusa de todas as tendências tiktokers possíveis, sem demonstrar lá muita personalidade em seus looks. é o oposto de harper, interpretada por uma brilhante aubrey plaza, cujo guarda-roupa traduz a sofisticação necessária para frequentar o white lotus e a discrição que pede sua culpa-rica de proletária que acabou de entrar pro 1%.



portia não tem medo de cores, estampas e misturas das mais absurdas. bolerinhos de crochê, estampas psicodélicas y2k, scrunchies, chinelos de plataforma, croppeds e calças cargo... o guarda-roupa de portia é a moda de tiktok vomitada pra fora da tela do celular. é tudo confuso, sem forma e sem intenção. ela sabe que uma vibe retrô é cool, então às vezes desfila com imitações baratas de ícones da moda como as pinturas multicoloridas de warhol que viraram coleção da versace, ou usa camisetas de filmes que ela nunca sequer assistiu - e cuja premissa básica ela não compreende, porque como parece ser com a geração z, portia é incapaz de analisar os temas propostos em produtos culturais dentro de seus próprios contextos sociais, tornando suas perspectivas superficiais, ecos vazios de frases de efeito que ela vê pela internet.


ainda assim, ela não tem a menor vergonha de usar uma camiseta do poderoso chefão um episódio depois de admitir nunca ter assistido ao filme. acredito que a camiseta tenha sido um souvenir do passeio turístico que ela fez pela vila onde o filme foi gravado, é mais uma memória afetiva da viagem que ela está fazendo do que apreço pelo filme, embora diga muito sobre a irrelevância de conhecer um filme ou uma banda para poder usar uma camiseta de dito filme ou banda. é pelo visual nostálgico, pela estética.



portia não é a hóspede padrão do white lotus: ela está lá de graça, a trabalho, como assistente de tanya, a socialite interpretada de maneira genial por jennifer coolidge no que posso afirmar ser o melhor papel de sua carreira. ao contrário de todas as outras mulheres hospedadas no hotel, portia é a única que não tem acesso a grifes, alta costura e itens de qualidade impecável. seu guarda-roupa é uma mistura do que parecem itens garimpados em brechó com itens de fast fashion, com uma ou outra coisa que ela compra de gente vendendo sua arte no instagram.


é injusto dizer que ela é a única cujo estilo não grita personalidade - a própria tanya, sua chefe, que na primeira temporada usou e abusou de caftans e tecidos esvoaçantes, como se espera de uma divorciada rica de meia idade num hotel paradisíaco, agora parece emular divas italianas e se veste como a monica vitti para tentar ter seu "dia de filme da itália" andando de vespa e comendo espaguete. daphne, esposa troféu de um bilionário do mercado de ações, parece ter comprado todos os looks das coleções resort disponíveis nas multimarcas de luxo online. ainda assim, tanya e daphne parecem mais bem ajambradas, mais confortáveis no papel que elas aceitaram como seu, e em suas roupas.



todas elas estão fantasiadas, mas portia é a única que PARECE estar fantasiada, o tempo todo. as roupas dela fazem a gente ter vontade de perguntar: geração z, portia, cês tão bem?


para além disso, algumas das roupas da série parecem ser pequenas premonições do que está por vir.... tanya usa o mesmo vestido que a manequim de apollonia estava usando no carro do restaurante turístico temático do poderoso chefão. sabendo que apollonia morreu no lugar de michael corleone numa trágica explosão - justamente a cena da qual portia desdenha, dizendo " ela explode? parece meio de mau gosto" - o que será que isso pode significar? o fato de tanya e portia ambas usarem figurinos que fazem referência ao filme me fazem acreditar nas mais loucas teorias...



o golpe que a trupe gay está tentando aplicar na tanya vai sair pela culatra e atingir a portia? a portia vai morrer no lugar da tanya? vai ter uma explosão? a portia vai sacar o que tá acontecendo e, num carma audiovisual de reparação histórica, ao invés da tanya ser atingida pelo desatre, seja ele qual for, será o greg, o marido cafajeste mentiroso? não consigo acreditar na queda da tanya, APENAS NÃO CONSIGO.

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