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  • melody erlea

hobble skirt: a primeira tendência "man repeller"


eu raramente sei das datas das premiações de cinema e tv, mas meu feed do instagram não me deixa escapar um tapete vermelho! ontem rolou o golden globes, e cês sabem que eu gosto de ficar de olho pra ver se aparece uma roupa pra contar história.


quinta brunson, que protagoniza a genial abbott elementary e ganhou um globo de ouro ontem, arrasou com esse vestido do christian siriano, que me lembrou imediatamente da incomparável divine em pink flamingos, com seu absurdo vestido vermelho justo no corpo todo e com uma barra cogumelo de tule.



aliás, o próprio siriano devia ter assistido pink flamingo logo antes de pensar em sua coleção, porque ele desfilou um vestido-divine na última semana de moda e vestiu mariah carey na versão vermelha da roupa para a parada de ação de graças em nova york, em novembro do ano passado. vestida de divine e cantando seu hit all i want for christmas is you, não fica mais camp que isso.


pode até parecer uma roupa absurda, mas na real essa estética da barra cogumelo já tinha estado até na capa da harpers bazaar lá em 1952, em foto maravilhosa de richard avedon para a então novíssima, moderníssima e chiquérrima coleção de cristóbal balenciaga.

além do vestido da capa, inúmeros outros vestidos da coleção tinham essa silhueta meio saia lápis, sensual e elegante, com o volume surpresa lá na barra. a própria balenciaga, nessa nova fase tenebrosa atual, desfilou uma versão do vestido em 2022, mas se for pra escolher o cosplay de divine, faço igual a mariah e fico com a versão do siriano.



e por mais camp e segunda-metade-do-século-vinte que pareça essa ideia, uma tendência parecida já havia rolado no comecinho do século, na era eduardiana, entre as moças da europa e estados unidos: as hobble skirts, ou “saias mancas”.



a invenção da silhueta é atribuída ao estilista paul poiret, e dizem as lendas fashion que ele se inspirou na atriz sensação da época, edith berg, que foi convidada a dar uma passeio de avião por um dos irmãos wright (aqueles mesmos, que dizem ter inventado o avião, por mais que a gente saiba que o verdadeiro criador dessa maravilha tecnológica tenha sido santos dumont, que também inventou o relógio de pulso). pra evitar que sua volumosa saia saísse voando e se enroscasse nas engrenagens ou no motor do avião, wilbur wright a amarrou nas canelas da jovem atriz, e foi assim que ela foi fotografada para os jornais.



a ideia virou uma sensação, e mais uma vez a moda feminina se reinventava - mas sem nunca deixar de ser levemente impraticável. as “saias mancas” ganharam esse nome porque prejudicavam consideravelmente a locomoção das mulheres rapidamente viraram motivo de chacota nas páginas humorísticas dos jornais e revistas.


por mais que a hobble skirt nos pareça desconfortável e desnecessária, a era eduardiana foi uma era de experimentação feminina na moda, com muitas tendências aparecendo rapidamente, e mulheres personalizando o uso de suas roupas e se dando permissão para quebrar regras antiquadas. a saia manca foi uma dessas experimentações, se tornando símbolo de uma época em que as mulheres começavam a lutar por emancipação e sua independência intelectual. a hobble skirt não é o tipo de tendência que nós, do século XXI, costumamos atribuir ao "male gaze", ou seja, silhuetas e estéticas para atrair o olhar do homem hétero, e sim uma tendência absurda e divertida que era uma linguagem fashion entre mulheres. a primeira tendência man repeller, será?



e antes que vocês digam que a hobble skirt era coisa de fashionista, de atriz, de it girl, eu te digo: a tendência ficou TÃO marcada no imaginário pop do início do século XX que a clássica garrafa de coca-cola, lançada em 1915, era conhecida como “hobble skirt bottle” e teve seu formato inspirado nessa curiosa silhueta da moda, super popular entre as moças da época. incrível ou incrível?

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