• melody erlea

i love dick, uma série feminista e tesuda



se woody allen e lenna dunhan tivessem juntos, milagrosamente, uma descendente judia cinegrafista, que ao invés de ser novaiorquina fosse texana, ela seria cris kraus, escritora do livro i love dick, que tem uma adaptação em série disponível na @hbomax.


a série começa quando cris kraus acompanha seu marido, um escritor, até a cidade de marfa, no texas, onde ele fará uma residência artística para aflorar sua criatividade em suas pesquisas e escritas sobre o holocausto. o mentor dessa residência, e responsável pelo instituto de arte de marfa, é dick - interpretado pelo sempre irresistível kevin bacon.



cris também é artista - ela escreve e faz filmes, que são recebidos com pouco entusiasmo pela crítica. ela sente uma imediata e obsessiva atração por dick desde o primeiro segundo em que o vê (não te culpo, miga, é a porra do kevin bacon de bota de coyboy e barba grisalha. ninguém aguenta isso). dick, como seu nome prevê, é um babaca pintudo, e no maior estilo ~the more you ignore me the closer i get~ quanto mais ele despreza cris, mais ela o deseja.


diferente de dunhan e allen, afora ela não ser uma respeitável e descolada judia de nova york e sim uma estranha e solitária judia no texas, chris kraus sabe dar voz a narrativas que vão além da pessoa branca cis heterossexual *judia* - a série trabalha com um tipo de efeito rashomon em alguns episódios (quem lembra quando eu falei disso aqui um tempo atrás?): termo cunhado a partir do filme rashomon, de kurosawa, significa que uma mesma história é contada de diversos pontos de vista, com todas as contradições incluídas.



então, além de nos envolver na tensão sexual de cris e dick, a série também nos mostra o efeito que dick teve sobre outras mulheres de seu entorno, como a vizinha dyke latina; ou a assistente no instituto, uma mulher negra e filha de mãe viúva; ou a única artista mulher que dick respeita, que tem um projeto sobre pornografia sem julgamento de valores, sem discurso político ou feminista, que reduz o gênero às suas formas.


por si só a série manda bem em nos lembrar que existem no texas muito mais tipos de pessoas do que o estereótipo do redneck racista e das karens conservadoras - mas ela é muito mais do que isso, oferecendo uma visão complexa de diferentes relações - casamentos, affairs, relações de trabalho - e como elas acabam vazando umas nas outras e se influenciando. sem contar a cotovelada irônica e sutil ao machismo inerente do mundo da arte, tão dominada pelo patriarcado quanto qualquer outra coisa.



e se prepara, pessoa solteira na pandemia: se tem outra coisa que essa série faz melhor que lenna dunham e woody allen é a sensualidade - ôoorra série tesuda da pohannnn! todo episódio é erótico, estimulante, intrigante...... ainda bem que a @naosou.pave me mandou um presentinho esses dias, porque aí dava pra intercalar com os episódios :P

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