• melody erlea

juntei 15 mil reais em um ano sem esforço - saiba como

o titulo é caça níquel por motivos de em tempos de jornalismo buzzfeed só sensacionalismo salva, né?

quer dizer, a definição de sem esforço pode variar bastante de pessoa pra pessoa, de realidade social pra realidade social, de que profissão escolhemos pra prostituir nossos supostos talentos pessoais por dinheiro (isso se formos o tipo de pessoa no tipo de realidade social em que podemos escolher nossa profissão, né, o que já é assim bem distante de muita gente).


o ano era 2017 e eu decidi criar um blog chamado repete roupa, onde postaria semanalmente fotos das roupas que eu usaria durante o ano, para um desafio pessoal que criei pra, precisamente, economizar dinheiro. o desafio consistia em repetir uma peça de roupa semanalmente e não comprar supérfluos por um ano.


tipo, nada. não podia roupa, sapato, maquiagem e todas essas coisas que sustentam o delicado equilíbrio de ser mulher. mas também não podia coisas de decoração, plantas, calcinhas e meias, coisas de cozinha, cadernos e papelaria em geral, livros, revistas, discos, presentes, canecas, celular pós-pago, tv a cabo, porrinhas eletrônicas, apps pagos, lentes de contato pra minha miopia... não podia absolutamente nada afora meus gastos fixos necessários, que em 2017 eram: aluguel, luz e gás, despesas com automóvel (gasolina, pedágios, manutenção, impostos), internet, alimentação, gastos com o cachorro (ração e veterinário), créditos pro celular (às vezes), e produtos de limpeza e higiene, que só poderiam ser comprados quando o que eu estivesse usando acabasse. caso algo necessário quebrasse, eu podia repor o item.


eu não abri uma conta poupança, não fiz planos de investimento, não fiz planilhas dos meus gastos nem controlei a experiência toda com muito primor: eu só escrevi a lista do que eu considerava realmente necessário e aboli todo o resto por um ano. também não controlei quanto estava economizando - eu e minha conta bancária tínhamos uma relação do tipo o-que-os-olhos-não-vêem-o-coração-não-sente que agora percebo não era lá das mais saudáveis. inclusive desconfio que se eu fosse um pouco mais disciplinada na questão de registrar o meu primeiro ano sem comprar supérfluos eu teria tido uma perspectiva melhor e talvez tivesse juntado ainda mais grana.


eu não registrei minuciosamente, não guardei notas fiscais, não sei quanto eu realmente GASTEI em 2017, mas eu sei quanto eu ganhava. e no fim, quando vi o dindin me esperando depois de um ano sem consumir supérfluos, eu jurei que em 2018 reviveria a experiência mas dessa vez registrando todas minhas movimentações financeiras - queria anotar tudo, quanto eu gastava de supermercado, de gasolina, o que eu realmente comprei, quantos desodorantes sabonetes pastas de dente eu usava em um ano, tudo. queria fazer planilhas de organização financeira e deixar elas disponíveis pra download no meu site. em janeiro de 2018 eu estava maravilhada com as possibilidades de falar de dinheiro no blog.


mas a real é que eu me importo pouco com dinheiro (um dos motivos de eu ter virado uma consumista irresponsável) e simplesmente não tenho organização mental ou sequer vontade de fazer dinheiro um assunto principal por aqui. mas eu consegui juntar dinheiro, e quando eu conto pras pessoas a reação é sempre de choque, de maravilha, de pelamordedeus me fala comofas.


essa é a história de uma menina privilegiada de classe média que nunca foi ensinada organização ou responsabilidade financeira - apenas que dinheiro servia pra comprar coisas e que coisas compradas diferenciavam pessoas umas das outras. e foi assim que minha vida adulta se encaminhou.


no fim de 2016 eu fui demitida de uma das duas escolas onde trabalhava - a escola cujo salário realmente me sustentava, a escola que bancava minha vida adulta, meu aluguel e meus desejos consumistas imaturos. na escola que sobrou eu ganhava R$1500,00, e foi assim que eu comecei 2017 - pagando um aluguel de R$1600,00. consegui umas aulinhas a mais em outra escola, que me somaram um salário bruto de R$3000,00 (bom lembrar que emprego fixo com carteira assinada hoje em dia é ostentação, e por isso mesmo é bom a gente cuidar desse salário com muito cuidado, muito amor e consciência). aí adicionei um aluno particular que me garantia mais 450 reais por mês. uns freelas aqui e acolá, uns alunos temporários, umas substituições de professor e eu tinha mais alguma coisa de vez em quando.


eu tô arredondando os valores todos, mas pensei mais ou menos isso: dos quase 3500 que eu tava ganhando, sobrava 1850 depois que eu pagava o aluguel. menos uns quase 400 reais de gasolina e uns 200 das outras contas, sobravam mensalmente entre 1200 e 1300 reais - que economizados durante um ano me garantiram os aproximados 15 mil.


e foi com esse salário e minha lista de compras aprovadas e proibidas que ao fim de um ano eu juntei 15 mil. isso quer dizer que eu consegui economizar quase metade do dinheiro que eu recebia todo mês. parei de comprar baboseira e só isso já me ajudou a economizar boa parte do salário que eu ganhava.


mas, melzinha, e os prazeres da vida, pelos quais a gente paga? e o netflix, o spotify? e um cineminha de vez em quando? e um livrinho? uma brusinha nova uma vez ou outra? valeu a pena abrir mão de tudo isso só pra ter uma graninha a mais?


Ô SE VALEU. em 2018, com o dinheiro que economizei de bobagens, eu comprei uma câmera fotográfica, um celular (nos anos anteriores tive dois celulares de segunda mão bem acabados), um sofá (comprei usado, mas foi o sofá dos meus sonhos - eu morava sozinha há alguns anos e não tinha sofá porque, adivinha, não tinha dinheiro pra comprar), fiz tatuagens maneiras, e passei a pagar pelo spotify (sem culpa de estar usando o cartão de crédito pra isso).


gastei boa parte da grana economizada em 2017? gastei. mas gastei com compras pensadas, com coisas que eu queria e/ou precisava há algum tempo mas ficavam pra escanteio porque eu precisava satisfazer qualquer necessidade momentânea de comprar alguma besteirinha, alguma roupa, alguma coisa fofa e inútil.


de lá pra cá, o desafio se adaptou mas segue na minha vida. a lista de compras desse ano já foi publicada e a definição do que considero supérfluo tá bem diferente do que eu pensei lá em 2017. adaptei partes da minha vida - agora moro num lugar onde pago menos pelo aluguel e estou mais perto do trabalho, o que diminui meus gastos com gasolina. por outro lado, voltei a comprar coisas que muitos considerariam desnecessários (se estivermos falando no senso literal da palavra - o que é essencial pra sobreviver): voltei a usar lentes de contato de vez em quando, discos passaram pra lista de compras permitidas, assim como livros pra kindle (mas dou preferência pra conteúdo disponível gratuitamente). sigo sem comprar maquiagem e sem ir ao cinema. é um conceito meio marie kondo: de todas as besteiras que a gente consome, quais são realmente as que nos trazem alegria?


se você quer começar a sua lista, lembre-se:


- ela precisa ser ideal pra você e sua família! eu sou solteira e moro sozinha e muito do que eu me proibi de consumir pode não fazer sentido pra você.

- antes de fazer a lista de compras proibidas, faça de compras necessárias: o que você e sua família REALMENTE precisam para viver com saúde e conforto mínimo? inclua comida, higiene e limpeza, mas também fraldas, se tiver bebê, roupas e sapatos a cada x meses caso tenha crianças em fase de crescimento, medicação, meio de transporte, coisas burocráticas como mensalidade de escolas, renovação de documentos, etc. é um momento para sentar e analisar suas reais necessidades até o fim do ano.

- faça sua lista de supérfluos - tudo que você e sua família costumam gastar que não é completamente necessário. dá pra incluir atividades de lazer como cinema, almoços fora, coisas que compramos não para substituir algo que estragou (como roupas e sapatos, utensílios de cozinha) ou acabou (como maquiagem e cosméticos).

- edite a lista de supérfluos da maneira que achar mais adequada, eliminando gastos e montando sua lista de compras proibidas do ano. eu, por exemplo, proibi cinema, mas para uma família com crianças talvez cinema seja uma alternativa de lazer bem importante. no fim você terá sua lista de gastos supérfluos, mas que são importantes e fazem bem a você e sua família, e a de compras proibidas, que são todas as coisas das quais vocês estão dispostos a abrir mão por um tempo!


eu não tô dizendo que você vai juntar 15 mil reais em um ano - isso vai depender do tamanho da sua família, de quanto você ganha e de quanto você vai conseguir deixar de gastar após fazer a lista. mas é um exercício de aprender a diminuir gastos desnecessários e às vezes gastos despercebidos, que no fim do mês acumulam um dinheirão mas a gente não percebe até ver o estrago.


também é legal lembrar que não existe "deixa só eu fazer uma última compra antes de começar". uma vez que a lista tá escrita o jogo já tá valendo!


pra incentivar mais ainda, ter um blog ou instagram em que você registra o andar do seu desafio é ótimo pra selar o contrato - tipo, agora até perfil na internet tem, não dá pra arregar. e você pode fazer o registro da maneira que você preferir! a jo moura, do um ano sem zara, registrava os visus diários durante seu desafio de não comprar roupas. a cait flanders fazia um diário dos gastos mensais e do quanto economizava porque tinha uma dívida muito grande e o objetivo era juntar dinheiro pra pagar. você pode achar o seu jeito pessoal pra contar sua história e manter um registro do seu desafio (o:


e, claro: às vezes consumimos em excesso para cobrir algum buraco emocional com o qual não sabemos lidar - cuidar da saúde mental é tão importante quanto cuidar das finanças. caso você ache que seu comportamento é compulsivo, procure um terapeuta pra te acompanhar no processo!