• melody erlea

kylie minogue e o espírito de klaus nomi


se você frequenta o repete roupa faz algum tempo você deve ter reparado que não tem nada que eu goste mais o que o lado meio antropofágico da cultura pop, que vai se alimentando e reinventando os mesmo símbolos várias e várias vezes.


quem acompanha os assuntos recorrentes por aqui vai lembrar que eu sou fissurada pelo klaus nomi, performer alemão que se apresentou com bowie nos anos 70 pra então virar um símbolo pop em si mesmo.

se você é repeterouper e tava esse sábado no festival grls assistindo ao show da kylie minogue você deve ter BERRADO COMIGO quando essa mulher me deixou subir no palco um klaus nomi, igualzinho-que-nem nos anos 80, com terno de plástico e batom preto e dancinha meio robótica mas tão lindamente coreografada de um jeito que só os grandes nomes do pop conseguem entregar.


não é só que a kylie tenha lembrado de klaus e, indiretamente, homenageado bowie. com UM figurino de UM dançarino essa deusa representou infinitos desdobramentos da cultura pop e honrou a história da moda ocidental do século XX - juro, tudinho contido nessa figura icônica de klaus nomi, encarnada pelo dançarino yves cueni nos shows da cantora desde 2019.


pra entender quem é klaus nomi e a importância de sua presença num palco de uma cantora pop em 2020, imagina o seguinte: o ano é 1979 e você é um músico performer underground alemão morando em ny há uns anos, quando numa balada - dessas frequentadas por artistas e gente influente - um amigo seu consegue furar os seguranças do bowie e te chama pra dar um oi. bowie não apenas conhece sua arte (afinal, o músico passou uma boa parte da década de 70 em berlim) e te cumprimenta pelo nome: ele elogia teu trabalho e escreve o telefone num papel pra vocês fazerem alguma coisa juntos. isso aconteceu com klaus nomi, que algumas semanas depois tava no palco do saturday night live com seu amigo joey arias fazendo backing vocal em the man who sold the world.

no dia da apresentação bowie explicou pros seus colegas de palco que usaria uma roupa bem loka dadaísta, que eles o carregariam até o microfone e deu mil dólares pra cada um pra comprarem um look da hora. eles apareceram com espécies de túnicas monocromáticas - klaus de preto, joey de vermelho - e bowie decidiu na última hora mudar o seu próprio look pra combinar com klaus e seu colega - por baixo de seu visu loucão, ele vestiu também uma túnica azul. antes do show, klaus e arias maquiaram um ao outro e depois os dois maquiaram david bowie, AFFF olha que honra. imagina só você ser um alemãozinho estranho e de repente david bowie te chama pra dividir um palco num programa de alcance nacional nos estados unidos? fala sério.

klaus nomi curtiu demais o figurino de bowie na apresentação, um gigante terno de plástico, e após o show procurou o designer, mark kravitz, pra pedir algo parecido. a roupa tinha custado 1500 dólares, dinheiro que klaus não tinha, mas kravitz ficou emocionado com o rolê todo e topou fazer um terno triangular um pouco mais simples e mais baratchénho - é esse aí do vídeo lightining strikes, de 81, e que klaus continuou usando em todas as suas apresentações e vídeos - isso sim é #repeteroupa, hein?

o terno original do saturday night live foi desenhado pelo próprio bowie e executado por mark kravitz, que trabalhou com bowie também em diamond dogs e algumas outras turnês, fazendo figurinos e cenários. a inspiração do terno é um figurino dadaísta de 1920, feito por sonia delaunay, uma das maiores artistas modernistas do mundo, pra uma peça de tristan tzara, um poeta dadaísta romeno. tristan e sonia já haviam se envolvido artisticamente criando vestidos com poemas bordados diretamente no tecido e outros trabalhos - mas foram os figurinos dessa peça que bowie curtiu e quis copiar. esse visu se tornou simbólico e esse show catapultou klaus nomi para a popularidade, que pode ter sido breve mas deixou muita influência por aí.

mesmo antes de klaus e bowie nos anos 70, e sonia e tristan nos anos 20, já tinha uma estilista visionária criando uma roupa de estética bem similar, pensada não para os palcos mas para a vida real de mulheres.

rosalynd ayres como lucille duff gordon, no filme titanic (1997)

essa estilista foi tão importante que tava presente até quando o navio mais famoso da história afundou: se tem alguma personagem na qual a gente devia ter prestado mais atenção em titanic, é essa mina foda chamada lucile duff gordon, uma das primeiras estilistas no sentido que entendemos hoje, tendo aberto suas lojas e ateliê quase 15 anos antes de coco chanel abrir sua primeira loja de chapéus. e a mulher sobreviveu ao fucking titanic, gente, cês tão entendendo um negócio desses? ela lançou as primeiras saias mais soltas e espaçosas e decotes mais profundos, popularizou corsets menos restritivos e o uso de lingeries mais sensuais e de parzinho (sutiã e calcinha combinando).

mais do que tudo isso, lucile inventou o jeito que a moda se relaciona com suas consumidoras: ela foi a primeira a dar nome a seus vestidos. os nomes eram inspirados por literatura, cultura popular e história pra criar uma ligação emocional entre as roupas e as clientes e, portanto, garantir vendas. também foi lucile que fez os primeiros desfiles de moda - nada mais do que chás em que apenas convidados entravam, nos quais lucile mostrava suas novas criações em modelos que ela escolhia a dedo e para as quais dava nomes e personalidades específicos pra encantar a clientela. tinha souvenir, drinks, efeitos de luzes e música, tudo igualzinho um desfile hoje em dia, feito pra convencer as clientes ricas a comprar mais. as modelos variavam muito em altura e tamanho. uma delas, dolores, tinha quase 2 metros de altura, e a phyllis (na foto abaixo), era pequenina tipo eu 🖤 essa roupa dela era o vestido tonel, ou vestido barril, de mais ou menos 1915. não é absurda a semelhança dessa criação de lucille com os figurinos de delaunay e, consequentemente, de klaus e bowie? até o batom preto e a cara tristonha, parece que saiu tudo da cabeça dessa mulher em 1915.

a moda é maravilhosa, né não? de uma sobrevivente inglesa do titanic ao palco do snl, o que é bom sobrevive gerações - e ultrapassa a vida terrena dos maiories ícones. lucille, delaunay, klaus, bowie: todos já se foram mas o legado da roupa barril e do ombro exagerado permanece no imaginário da cultura pop e da moda.


o visu de klaus nomi foi inspiração pro conceito estético de edward mãos de tesoura (olha a boquinha fazendo bico e o olhar triste), e eternizou o terno de plástico com ombreiras gigantes de tal maneira que muita gente acredita que quem criou a fantasia foi ele, e não bowie. e esse figurino entrou com tanta força no inconsciente coletivo dos anos 80 que veio parar até no xow da xuxa.

fora do brasil, nomi é, realmente, uma grande inspiração estética e musical. a lady gaga tem alguns figurinos inspirados nele, ano passado a banda alemã rammstein lançou um clipe cujo visual era claramente uma homenagem a klaus, e a atriz ex-junkie-atual-queridinha-de-hollywood natasha lyonne compareceu ao baile do met de 2019, cujo tema era camp, num look que mimetizava a make e a arquitetura do visu klaus nomi (com um toquinho de caixa econômica federal)

nas passarelas o conceito aparece e reaparece, conforme a tendência das ombreiras entra e sai de voga. e nas semanas de moda desse ano o ombrão caricato deus as caras em muitos desfiles.


aqui no brasil, vi ombros grandes e visus que me remetiam a klaus nomi no desfile da dupla venenosa na casa de criadores ano passado, e é só dar uma olhada no instagram delas pra ver que essa estética já tá rondando as criações da marca há alguns anos. mas esse visu, nomeado a mulher vhs, poderia ser usada ipsis litteris por klaus - talvez a própria pegada anos 80 das faixas coloridas da fita cassete tenha me ajudado nessa conexão. esse look também me lembra demais esse outro terno listrado aqui, de 1992, do todd oldham.

a mugler tinha desfilado uns looks meio klaus nomi em 2017 (e lá em 1979, mesmo ano que bowie se apresentou com klaus, a grife já desfilava uns ombros pontudos teatrais), e esse ano vi rick owens, balmain e balenciaga, todas com ombrão exagerado.


a inspiração mais literal nas passarelas 2020 foi essa, de christian siriano:

mas minha preferida é essa, de marina hoerdeseman, mais na pegada do figurino original de bowie (num vibe meio tim burton):

e dois anos atrás klaus nomi havia sido homenageado no reality show ru paul's drag race, pela courtney act:

embora o ombro gigante - ainda mais quando aliado a um terno caricato em preto&branco ou com estampas mais geométricas - sempre vá me remeter a klaus nomi, a real é que no mesmo ano que ele se apresentou com bowie, 1979, pierre cardian lançava oficialmente seus ternos com "ombro pagoda": uma curvatura nos ombros inspirada nos templos pagoda chineses. e muito muito muito antes de pierre, bowie e klaus, o ombro pontudo bufante já era querido e usado na moda feminina - desde os anos 30!

eu fico de cara: um look sai lá da inglaterra de 1915, passa pelos dadaístas nos anos 20, se une à uma tendência romântica dos anos 30 pra chegar nas mãos de pierre cardin e bowie nos anos 70 e no new wave alemão dos anos 80, vai parar num programa infantil brasileiro, é repaginado e reinventado em filme, clipe, no baile mais chique e rico do mundo da arte e do entretenimento e nas passarelas de moda, pra de repente ressurgir, literal e em forma de homenagem, num show de kylie minogue, uma das maiores diva pop ainda atividade desde os anos 80.


porrannnn, e tem gente que não gosta de moda, cara!

(som do vídeo péssimo, só queria deixar eternizado aqui o registro pessoal do show da kylie em são paulo, com a aparição do espírito de klaus nomi, que me fez quase desmaiar de tanto gritar taquepariuuuuuuu)

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