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  • melody erlea

leituras de 2022


nos últimos anos meu ritmo de leitura diminuiu muito - em 2016 eu cheguei a ler mais de 30 livros em um ano, e de 2017 pra cá tava lendo dois, três, no máximo 5 livros anualmente. esse ano eu decidi fazer um "reading challenge" no goodreads - a ideia era chegar a 12 livros lidos no ano, um por mês. o desafio me ajudou a reavivar minha relação com a leitura, e consegui ler 10 livros ao todo!


aqui estão os livros do ano, mais ou menos na ordem que eu li, sem ordem específica de preferência.


(lembrando que são os livros que leio no meu tempo livre, como escape, por interesse próprio e para pesquisas pro blog - não incluo aqui as leituras que fiz pro trabalho, nem os livros de literatura que leio com meus alunos anualmente).


the dispossessed - ursula le guin

comecei o ano com meu primeiro livro da ursula le guin, the dispossessed. se tem algo que eu amo na ficção científica dos anos 1950 aos 80 é que há sempre uma sensação de inospidez, de solidão, de aridez.... eu leio ficção científica antiga e sempre me parece que tá todo mundo passando sede, como se o universo todo fosse uma grande versão de duna. the dispossessed colabora muito pra esse sentimento: a história conta as relações diplomáticas (ou falta delas) entre dois planetas irmãos, um dos quais é, realmente, árido e seco. além de fisicamente inóspito, o planeta é conhecido por ser uma sociedade anarquista - uma sociedade fugida das dinâmicas mercadológicas e misóginas do planeta onde eles originalmente viviam, e com o qual não mantiveram nenhum contato por séculos - até que shevek, um cientista bem intencionado, é convidado a conhecer a universidade do planeta capitalista. num retrato voraz das dádivas e problemáticas de cada uma dessas sociedades, ursula consegue destrinchar a mesquinhez humana que existe em qualquer ambiente e qualquer dinâmica social.


kindred - octavia butler

já emendei a ursula le guin com a octavia butler - eu comecei o ano com essa pira de adicionar mais mulheres ao meu rol de escritoras de ficção científica, e da octavia eu só havia lido o conto bloodchild (que é aterrorizante o suficiente mas ainda assim não chega perto da chocante premissa de kindred).


uma escritora negra dos anos 1970 é repentinamente transportada para uma plantation no século XIX, onde se vê frente a um dilema ético ao salvar a vida de uma criança branca que se afoga. cada retorno dela para esse ambiente hostil a presenteia com aprendizados profundos sobre a complexidade do ser humano, e cada vez mais perigos e ameaças à sua própria vida. um misto de ficção científica com romance histórico, e um dos mais maravilhosos livros que eu li.

frankenstein - mary shelley

em algum momento do 1o semestre eu decidi que precisava voltar a ler os clássicos (não sei por que meu primeiro ano na letras e o maldito texto de calvino sobre ler clássicos ficaram perambulando pela minha cabeça). pra minha sorte, nessa mesma semana a amazon disponibilizou dezenas e dezenas de clássicos gratuitamente, e eu baixei todos. decidi que iria intercalar um clássico com um livro moderno, e escolhi começar dentro da minha zona de conforto: relendo meus favoritos.


essa releitura de frankenstein, agora com minha mente adulta, foi maravilhosa. é incrível que um livro no qual praticamente todas as vozes vem de personagens masculinos ser tão claramente sobre a mulher - ou falta dela. é fascinante a teia de diversas histórias, uma dentro da outra, que mary shelley consegue trançar, todas elas destacando os dolorosos paradoxos de viver no tipo de sociedade que vivemos. realmente, uma das grandes obras da história da humanidade.


(ler a ursula, a octavia e a mary shelley assim em seguida me fez ter vontade de escrever sobre mulheres na ficção científica, e aí aproveitei pra adicionar outras que amo, como doris lessing e margaret atwood).


powers of darkness - bram stoker & valdimar ássmundson


eu já tinha decidido que meu próximo clássico seria a releitura de dracula - mas eu não podia esperar ser presenteada pelo universo com uma versão perdida do livro, que foi recentemente redescoberta.


ao contrário de todas as outras traduções, que são fiéis à história original de bram stoker, a tradução finlandesa, descobriu-se, era na verdade uma versão levemente diferente da mesma história, aparentemente adaptada pelo tradutor, valdimar ásmundsson, junto com bram stoker.


essa versão, além de apresentar personagens com nomes diferentes do original, propõe uma primeira parte bem mais longa e detalhada: conhecemos a fundo o castelo de dracula na perspectiva de jonathan, o advogado que vai até a romenia ajudar o conde a comprar imóveis na inglaterra. há diversas cenas que não existem na versão inglesa do livro, e um retrato ainda mais sombrio do vampiro, seu lar e todos os seres monstruosos que lá habitam. a segunda parte, por outro lado, foi radicalmente resumida: após dracula chegar a inglaterra tudo acontece muito rápido e sem grandes explicações; foi como assistir a um filme avançando todas as cenas.


hagseed - margaret atwood


difícil argumentar contra o fato de que margaret atwood é muito provavelmente minha escritora favorita. eu li mais livros dela do que de qualquer outro escritor e nunca deixo de me surpreender: a mulher passeia da ficção científica ao drama feminista, do humor absurdo ao olhar mais poético e sensível possível. atwood enxerga coisas nas pessoas e no mundo que eu só posso agradecer por ter acesso através de seus escritos.


hagseed foi 1o livro dela que li cujo protagonista é um homem, e como é maravilhoso ver a construção dessa masculinidade nas mãos de margaret. felix é um diretor de teatro que acaba sendo passado para trás por politicagens e briga por pequenos poderes. ele consegue um emprego como professor de literatura e teatro numa prisão masculina e passa anos planejando sua vingança contra as pessoas que puxaram seu tapete - enquanto trabalha com seus alunos prisioneiros uma versão da peça a tempestade, de shakespeare. cada elemento da fantasiosa tragicomédia shakespeariana é refletida na história de felix e sua empreitada, formando uma teia de paralelismos que, como costuma ser nos livros de atwood, reflete brilhantemente as dinâmicas interpessoais de seus personagens.


tik-tok, the reproductive system e the muller-fokker effect - john sladek


esses três livros são fruto do maravilhoso acaso da internet: num instagram de imagens dos anos 70 e 80 vi essa capa maravilhosa do livro tik-tok, e pensando, claro, na popular rede social da geração z, fui imediatamente atrás de baixar. achei essa edição que continha 3 livros do mesmo autor, e já li os três um seguido do outro. foi um pequeno tesouro da ficção científica dos anos 1980 que descobri por um completo acaso!


tik-tok conta a história do robô tik-tok, que aparenta ser uma obediente e pacífica criatura. no entanto, os chamados "circuitos asimov", que garantem que robôs não se rebelem contra humanos, parecem estar meio defeituosos no simpático tik-tok, que passa a constuir uma vida paralela de crimes e assassinatos.


the reproductive system se passa numa instituição militar de pesquisas tecnológicas na década de 1960, onde um cientista (meio louco) cria um sistema de caixinhas robóticas que se alimentam de metal e se reproduzem sozinhas. obviamente algumas delas escapam, rapidamente tomando a região de nevada e, em breve, o mundo.


the muller-fokker effect também se passa nos anos 1960, e também trata de tecnologia militar: uma fita especial inventada para que o governo consiga transferir a consciência de um ser humano inteiramente para a fita. tipo a versão sessentista de fazer um upload da nossa mente pra um computador.


os três livros são bem-humorados, uma coisa meio douglas addams, meio terry pratchett, mas altamente influenciada por asimov e com uma clara estética kurt vonnegut. uma boa descoberta esse ano!


twee - marc spitz e goth - lauren goodlad e michael bibby

esses foram os dois livros de não-ficção que eu li esse ano, e nem sei se eles deveriam entrar na lista - o twee eu não terminei, li apenas o que considerei necessário e suficiente pra fazer meu post sobre twee. o goth eu li aos pouquinhos, intercalando alguns ensaios com outros livros, e também não terminei (mas tô quase). ambos os livros e mais alguns que eu amo estão aqui nessa lista de livros sobre cultura pop que fiz um tempo atrás. o goth me impressionou tanto que fiz um post só pra ele.

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