• melody erlea

me bate, me morde, me veste: a camiseta que tornou vivienne westwood um ícone


joan jett veste camiseta da seditionaries

muito antes de vivienne westwood ser uma renomada e icônica estilista, ela era apenas vivienne: uma professora de ensino infantil que em seu tempo livre colaborava com a loja de roupas, discos, revistas e outros itens descolados de seu namorado, malcom mclaren. era o início dos anos 70 e eles sabiam que o swinging sixties tinha acabado, o flower power não tava resolvendo nada e a minissaia era uma falsa libertação feminina (como costuma ser a libertação feminina num geral).


o jovem londrino da contra-cultura já tava saturado de cores, estampas geométricas, mod e dos histéricos e otimistas anos 60. a loja de mclaren, chamada na época paradise garage, era tipo um brechó/sebo: ele vendia tudo que ele tinha colecionado durante os anos anteriores. roupas, claro, mas também seus discos antigos, móveis e objetos dos anos 50 (lembra que, nos anos 70, encontrar e colecionar itens dos anos 50 era relativamente fácil, equivalente aos nossos achadinhos-anos-90 de hoje em dia).


o local da loja era importante: até 1970, o lugar hospedava a loja "mr. freedom", que vendia roupas estilo pop-art pra tooooda a criançada popular da cena londrina nos anos 60: mick jagger se vestia lá, o elton john também... pensa no estilo desses dois durante os anos 60 e vocês vão entender: era uma loja pra gente que queria brilhar, literal e figurativamente. em 71, mclaren começou dominando o fundo da loja com seus itens vintage, e um amigo dele ocupou o resto do espaço vendendo memorabilia dos estados unidos. a decor era toda inspirada na estética 50s norte-americana (pensa numa galera que tá tão saturada da londres sessentista que decide se voltar pros estados unidos cinquentistas, mas de um jeito irônico - curtir as coisas com ironia não é exclusividade dos hipster millennials).



em 1972 a mágica começa a acontecer: sai o amigo de mclaren, entra vivienne westwood produzindo roupas - a princípio coisas simples, principalmente camisetas. vivienne queria uma alternativa praquela moda twiggie dos anos 60 e se ninguém tava oferecendo ela ia criar a dela. o nome da loja muda pra let it rock - bem mais condizente com o feeling que essa turma tava sentindo e querendo extravasar (inclusive dá pra entender, até, o apego aos anos 50, ao rock puro e sem consequencias, antes de ser engolido pela inglaterra e regurgitado em forma de british invasion, mod e swinging sixties).



o nome da loja foi mudando quase que anualmente: uma época chamou too fast to live, too young to die, por um tempo foi simplesmente SEX (foi um bafão, teve protesto, notícia de jornal, o espetáculo todo - que só serviu pra dar mais ibope pra vivienne e suas ideias revolucionárias sobre moda e expressão individual), e aí em 76 o espaço se estabeleceu como seditionaries. seditionaries virou, além de nome de loja, meio que o nome da primeira marca de moda produzida e desenhada pela vivienne westwood - a marca durou até 1980 e vestiu alguns dos maiores nomes do punk. manja a clássica camiseta e capa de disco dos sex pistols god save the queen? design original da seditionaries. hoje em dia é só colar na galeria do rock pra ver um monte dessas, mas uma original dos anos 70 feita pela seditionaries é rara e custa na casa dos milhares de reais.



foi sorte - ou timing perfeito - que a seditionaries tenha começado em 76, já que 1977 é conhecido basicamente como "o ano do punk". a gente sabe que já tinha punk desde muito antes, mas foi de 76 pra 77 que o negócio foi confirmado como uma tendência jovem mundial mesmo, ao invés de consistir apenas de grupos de contracultura espalhados pela inglaterra e pelos estados unidos.


em 76 mclaren conheceu os sex pistols e virou seu empresário - e vivenne conseguiu seus primeiros garotos-propaganda da moda punk. em 1977 a banda foi lançada pela gravadora EMI. é claro que os sex pistols não deveriam ser o cartão-postal do punk inglês, mas por um tempo eles meio que foram. os sex pistols fizeram pelo punk inglês o que os beatles tinham feito pelo rock inglês: transformaram numa coisa fácil de consumir, vender e viralizar (viralizar na era pré-internet não era pra qualquer um não, hein). e isso foi, em grande parte, graças à consultoria de estilo e produção de moda feita pela vivienne, que sabia desde o começo dos anos 70 que o novo jovem precisava de uma nova estética para amar e imitar.



(outros momentos marcantes do punk aconteceram em 77, como a apresentação da banda inglesa the damned no cbgb em ny - a primeira banda não-americana a tocar no icônico clube punk. the damned tinha se formado no ano anterior, 76, mesmo ano em que o ramones lançou seu primeiro disco. também em 76 surgiu a união de artistas contra o fascismo, que deu visibilidade a grandes bandas do punk e do reggae inglês ao montar festivais de shows de rock. em 76, também, o television lançou seu disco punk-pero-no-mucho marquee moon. foi em 77 que o clash lançou seu primeiro disco - esse sim um cartão postal do punk inglês. não é à toa que 1977 seja considerado o ano do punk - foi quando o punk saiu das margens e adentrou o imaginário cultural mainstream. foi também o início do fim: comercializou, e acabou).


em 76 vivienne lançou a provavelmente mais icônica peça da seditionaries, uma camiseta branca estampada com os dizeres:


Beat Me

Bite Me

Whip Me

Fuck Me Like The Dirty Pig That I Am

Cum All Over My Tits And Tell Me That You Love Me

Then Get The Fuck Out.


("me bate, me morde, me chicoteia, me fode como o porco sujo que sou, goze nas minhas tetas e diz que me ama. e aí sai da porra da minha frente", numa tradução livre)


essa camiseta é meio que um mistério hoje em dia - embora sua criadora esteja viva e na mídia até hoje, pouco se sabe sobre o design e o poema punk estampado. a gente sabe que apenas algumas das pessoas mais cool, estilosas e talentosas da cena underground dos anos 70 vestiram a camiseta - e que uma original custa, no ebay, por volta de 6 mil reais e, no etsy, mais de 11 mil dinheiros brasileiros. isso sem frete nem taxa de alfândega.

tanto westwood quanto mclaren tavam amarradões na literatura punk e anarquista da época, e alguns pesquisadores atribuem o design da camiseta, com suas frases imperativas e caóticas, ao livro the anarchist cookbook (o livro de receitas do anarquista), um compilado de manuais faça-você-mesmo para várias atividades consideradas ilegais, de plantar maconha a construir bombas. o livro foi lançado em 1971 por william powell, um rapaz de 19 anos que se arrependeu amargamente da publicação nos anos seguintes - e pelo resto da sua vida. powell lançou uma autobiografia ano passado, chamada the cookbook: coming of age in turbulent times, no qual conta sobre quem era quando escreveu seu best-seller e de que maneiras essa decisão moldou o resto de sua vida. após a publicação, william se retirou da vida pública e seguiu na carreira de professor, trabalhando com alunos de inclusão muito antes de inclusividade ser discutida e abraçada na educação.


o livro de powell continha instruções para montar bombas caseiras e coquetéis molotov retirados de manuais do exército, e os mesmos manuais militares viraram estampas em camisetas do sedinioaries, mas a vibe bem-humorada e escrachada dessa frase específica (beat, bite me, whip me...) remete mais a outra publicação anarquista de 1971, o steal this book (roube este livro), escrito por abbie hoffman. em seu livro, hoffman explica como tirar do sistema social tudo que ele tira dos cidadãos, com dicas prática de como comer, se vestir, mobiliar a casa, morar, estudar, se divertir e ter acesso a saúde de graça. suas dicas vão de programas sociais que oferecem comida e moradia a técnicas para furtar e roubar sem ser pego. o livro é ilustrado com fotografias cujas legendas traduzem de maneira leve e engraçada os modos de burlar o sistema no qual somos obrigados a viver.


atualmente, o livro anarquista de hoffman está a venda na amazon por 123 reais, e o de william powell tem versão ebook disponível por 47 reais, ou você pode adquirir a versão de capa dura por 121. mas se vamos ser fiéis às motivações das duas publicações, o steal my book tá disponível online em pdf aqui (com algumas das imagens do original) e o anarchist cookbook também tem em pdf gratuito bem aqui.


(mas se eu tivese 6 milzinho sobrando, hein, o que eu não daria por uma camiseta dessa original... infelizmente não tem nada nesses livros dos anos 70 ensinando a roubar o acervo vintage de um vendedor do ebay, eram tempos mais simples, dava pra entrar direto na loja da vivienne e roubar ali, da arara, com ela olhando e aprovando enquanto folheia uma cópia roubada de steal this book)

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