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Minha vida peluda: uma brisa roseana na frente do espelho

por Erica Martinelli

(Aviso: esse texto não está aqui pra te convencer a parar de se depillar)


Eu não me lembro exatamente a data em que parei de ir à depilação, mas me lembro

perfeitamente do momento de decisão. Eu tinha um date no dia seguinte, estava sentada

no ônibus e olhava a paisagem conhecida da USP, quando pensei “poxa, esqueci que preciso

ir ao abatedouro.” Sabe aquele momento em que você vira duas pessoas e uma escuta a

outra pensando? “abatedouro?! Você tá chamando de abatedouro um lugar onde você vai

por livre e espontânea vontade? E ainda paga?” Assim que eu pensei isso eu sabia que não

poderia mais voltar à depilação. Não é que eu ache que o abatedouro seja, em absoluto,

uma boa metáfora. É que depilação pra mim sempre foi muito sofrido. Aos 16 anos eu me

convenci que seria melhor arrancar os pelos da perna e da virilha com cera do que continuar

raspando na gilete, já que depois da gilete eu passava dias cheia de bolinhas na pele. Pra

falar a verdade, depois da depilação eu também passava dias com a pele vermelha

empipocada. E doía. Mas doía tanto. A moça que fazia a minha depilação chegou a me dizer

que nunca tinha visto pelos tão grossos em uma pele tão fina. Eu tenho a pele da princesa

da ervilha com os pelos de um lobisomem. O que é super interessante para uma

personagem de conto de fadas, mas terrível pra se depilar. Ardia, parecia que eu estava

perdendo um pedaço da pele. E a virilha então! Cada poro sangrava, juro. Considerando

tudo isso, parar de me depilar foi só uma decisão racional.


Até aqui, temos uma simples história da menina com a pele mais fina e os pelos mais

grossos do mundo, que tem que aceitar o seu destino, uma história de exceção. Primeira

leitura possível: ela não deve se depilar porque para ela dói, para ela é ruim. E cada uma de

nós deve fazer o que é bom para si mesma, né, cada uma sabe de si, meu corpo minhas

regras, feminismo é sobre isso, certo? Sim... e não.


Se o momento de perceber que eu estava pagando para ir a um lugar que eu chamava de abatedouro foi crucial, o momento mais importante de tudo isso foi quando eu parei de raspar as axilas. E essa decisão, na verdade, eu não me lembro como tomei, mas não teve

nada a ver com dor. Acho que foi como um dominó, entre não depilar a perna, não querer mais raspar perna nem virilha, e de repente começar a pensar ué pra quê eu continuo raspando esse último pedaço do corpo? Por que esses pelos eu não posso ter, se com os outros eu me acostumei? Então eu fiz uma experiência, fui deixando. Eu achava horrendo, feio mesmo, mas tinha se tornado um experimento muito interessante, em que eu mesma era o ratinho de laboratório. A curiosidade é nossa grande amiga. Eu estava curiosa pra saber se tinha alguma coisa embaixo dessa camada que a gente carrega nos nossos olhos todos os dias, desse “eu gosto” e “eu não gosto” ao qual nos acostumamos.


Me propus então um exercício: enquanto deixava os pelos da axila crescerem, eu ia todo dia

até o espelho do banheiro, levantava os braços, colocava as mãos atrás da cabeça, e ficava –

obrigatoriamente – olhando minhas axilas por alguns minutos. Aqui a coisa fica brega, e me

desculpem, mas eu não vou ter como descrever de outra forma: foi um processo de

descoberta. Infelizmente para o meu senso estético, que morre de preguiça dessa jornada do herói pré-cozida, não tem como escapar: foi... (argh)... um processo de autoconhecimento.


Pronto, falei.


A verdade é que, como tantos outros conceitos dos quais o capitalismo se apropria

diariamente, esse negócio de autoconhecimento pode não ser só uma lenga lenga de coach

para “trabalhar enquanto os outros dormem” ou te fazer comprar cristais pra colocar na

buceta (ah, me poupe). Pode ser só uma parada interessante que você escolhe fazer para

repensar alguma prática cotidiana: pode ser só esse exercício de olhar aquela parte do

corpo diariamente no espelho. Esperar. Olhar e esperar até que as camadas diversas vão se

dissolvendo. No conto “o espelho”, o narrador do Guimarães Rosa passa muito tempo se

observando no espelho, até que sua fisionomia vai desaparecendo, e no fim alguma coisa

brota no lugar (“rostinho de menino, de menos que menino, só – só”).

A minha brisa não foi lá tão roseana, não encontrei algum tipo de essência verdadeira, nem

uma luzinha de humanidade como no conto (que é lindo, leiam). Mas sim, encontrei alguma

coisa. Primeiro uma certa tranquilidade. Foi ficando pacífico, passou o desgosto e a

vergonha. Depois veio o que eu não esperava: o prazer estético. Eu comecei a achar bonito.

Juro. Não bonito que nem um quadro, ou que nem um rosto é bonito. Bonito como uma

curva nas costas de alguém pode ser bonita, olhada bem de perto, no meio da transa. A

real? Eu descobri que axila é (ou pode ser) uma zona erógena. Os pelos se parecem um

pouco com pelos púbicos, se vc desce um pouco pela curva, tem um caminho direto para os

mamilos. Babado, né? Talvez seja por isso que axilas peludas são um pouco despudoradas:

elas nos lembram que somos seres sexuais. Porque mulheres também passam pela

puberdade, sabe. E uma das funções da depilação é fingir que não.


Mas como nem tudo são flores, nunca vivi essa mesma experiência de beleza estética com

os pelos da perna ou da virilha. Até hoje acho eles um pouco estranhos. Durante um tempo

arrancava inconscientemente os mais compridos da canela quando estava distraída. Hoje

em dia acho isso bem maluco, mas fez parte do meu processo. Não passei a amar ou achar

bonitos ou sensuais meus pelos da perna, mas passei a achar que não preciso achar tudo

que tem no meu corpo bonito. Será que cada unha precisa ser algo belo? A Regina Spektor

diz “I’ve got a perfect body, but sometimes I forget. I’ve got a perfect body cause my eye-

lashes catch my sweat” (“eu tenho um corpo perfeito, mas às vezes me esqueço. Eu tenho

um corpo perfeito porque meus cílios apanham meu suor”). Tem partes do corpo que eu

quero achar bonitas, tem outras que precisam fazer a função de proteger os meus olhos. O

olhar estético sobre o corpo é um dos muitos olhares. O corpo precisa fazer certas funções,

sentir certas coisas. Quando eu tenho um orgasmo eu não me preocupo que meu clitóris

seja belo. Nesse momento eu não acho os pelos da minha perna bonitos, mas estou feliz

com eles lá. A gente esqueceu, mas os pelos, assim como os cílios da Regina, servem pra nos

proteger. Tenho um grande carinho pelos meus pelos protetores.

E por falar em proteger, quando eu tinha aplicativos de paquera eu colocava uma foto

(muitíssimo sensual, aliás) de braços levantados, pelos à mostra, pra me proteger de boys

escrotos. Às vezes gerava umas mensagens estranhas, mas, na maior parte do tempo, me

garantia que eu não ia ser agredida por um olhar de nojo quando eu tirasse a blusa na frente de um cara muito travado. Eles me deixavam em paz. Se não quer brincar, não desce

pro play.


Se eu acho que você devia parar de se depilar? Sei lá, bicho. Eu acho que pode ser um

caminho bacana pra ver qualé. Pode ser um teste de escolhas: brincar de verdade ou

desafio com você mesma, repensar essa parada do “é para mim” versus “é para os outros”

(tudo o que nós fazemos é um pouco pra nós mesmos e um pouco para os outros, é assim

que funciona viver em sociedade, sabe?). E se é tanto para você quanto para os outros, você

pode entrar em negociação, tanto com você mesma, quanto com os outros. Tem ambientes

em que eu escolho não mostrar as axilas. Quando decidi bancar a regata numa escola em

que trabalhava uma pessoa me perguntou se era “por causa de religião”, o que me fez

refletir sobre um bocado de coisas. Às vezes quero deixar elas de fora e entender os olhares

pré-adolescentes como um momento didático para elas. Às vezes quero ficar na minha

porque me sinto exposta. Já tiveram momentos bem desagradáveis de notar olhares de

muito nojo. Já tiveram momentos em que isso me fez rir. É um processo bacana esse de

entender até que ponto vai seu hábito, onde determinados padrões te pegam mais, e onde

você tá suave na nave com eles. Tudo isso vindo de uma pessoa branca com um zilhão de

privilégios. Com certeza outros corpos viverão essas questões de formas que eu não posso

conhecer.


Agora, se eu acho que tem que ficar tirando carteirinha de feminista da mina que se depila?

Óbvio que não, né, colega? Cada uma sabe, em última instância, de si. Tem tretas que a

gente encabeça, e tem aquelas que a gente não escolhe, tem lutas que a gente luta na

discussão e no questionamento, outras na prática do corpo. A internet (essa entidade

maluca) vive querendo que a gente dê um posicionamento claro: ou você é a favor ou é

contra. Porque dialética é coisa de quem está em cima do muro né? Bom, aqui vai o meu

posicionamento claro sem muros: eu sou contra a obrigatoriedade da depilação. E sou a

favor das miga depilada. E sou contra a gente acreditar com tanta fé que “eu faço pra mim”.

Enquanto depilação não for escolha individual de estilo eu vou continuar dando uma força

para a dissidência peluda. Mas isso não é um ataque à tua pele lisinha, só um relato

individual, lembrança de uma possibilidade de mais pluralidade no coletivo.


Mas eu não consigo deixar de sorrir quando percebo uma aluna adolescente deixando os pelos crescerem. Porque me lembra a minha vivência, e me lembra que me sinto mais feliz agora, e fico na torcida que ela também se sinta. Não porque eu quero um clubinho ou um exército de minas peludas (se bem que agora fiquei tentada a angariar esse exército hein, manda inbox), mas porque ainda não se trata de uma escolha individual tranquila e simples de fazer para todo mundo. Ainda é tabu o suficiente pra olharem esquisito pra você na rua. Ainda não é uma pauta popular o suficiente (se fosse já teria propaganda da nívea com axilas peludas falando para você se empoderar com o novo nívea soft hairy pits).



No dia em que depilação virar algo que é REALMENTE opcional, tipo barba de homem, a gente pode chamar de escolha individual com tranquilidade. Mas sendo muito sincera, não acho que a gente vá chegar nesse lugar. Justamente porque depilação simboliza coisas bastante tensas das relações de gênero, tem a ver com infantilização e fantasia de pureza do corpo da mulher, tem a ver com uma pá de coisa que a gente está bem longe de transformar, apesar de estarmos, bem ou mal, tentando.


***

sobre a autora:

Erica é leitora profissional (e amadora) apaixonada numa ficção científica feminista, mas o que pesquisa a sério mesmo é a poesia de mulheres contemporâneas. Faz textos acadêmicos sobre divas do punk e poemas punk sobre divas acadêmicas. É dando aulas de teatro para adolescentes que ela expurga seus demônios e vive seu lado rock star. O lado intelectual bebedora de chá ela exerce sendo doutoranda em teoria literária pela Unicamp.

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