• melody erlea

A minissaia foi inventada no Brasil, e por um homem

publicado originalmente na Revista AzMina

revista gazeta, 1956

Com obra exposta até 19 de outubro na Galeria Almeida e Dale em São Paulo, Flávio de Carvalho revolucionou o pensamento de moda masculina nos anos 50 no Brasil e pode ter sido a primeira pessoa a usar minissaia na mídia.


A Swinging London dos anos 60 tava pulsando: música, cores, psicodelia e moças com as pernas de fora desfilando com a tendência da década, a minissaia. Mary Quant, a estilista pop do momento, era considerada a responsável pela criação da peça de roupa icônica e revolucionária, mas a própria estilista dizia que quem inventou a minissaia foram suas clientes - ela só executou os desejos da mulher londrina da época.


Pouco antes disso, no pós segunda guerra cresceu popularidade do New Look de Dior, desfilado em 1947 e transformado em estética padrão nos anos 50 - o look de cintura bem marcada, saia bem rodada até as canelas, blusa justinha que ressaltava os seios, super inspirado na moda do século XIX e que colaborava para a reinserção da mulher em seu lugar devido, o lar. Os anos 60 e suas revoluções sexuais abriram novas possibilidades para o guarda-roupa feminino, libertando as mulheres de amarras metafóricas e literais - as roupas que restringiam a movimentação e ressaltavam os atributos fisiológicos femininos.

A moda da minissaia pegou até no Brasil, que estava vivendo um período político de tensão e conservadorismo, pautado pela censura geral da mídia durante a ditadura. A minissaia distrai o olhar do cansaço político, permite a falação, a fofoca, as notícias sobre celebridades - é a válvula de escape midiática brasileira durante o governo militar, ao mesmo tempo que traz uma falsa liberdade, uma sensação de escolha e de domínio da mulher sobre seu corpo. O item de vestuário tava nas pernas das cantoras da jovem guarda, estava vestindo artistas intelectuais como Elis Regina, era democrática, sensual e, principalmente, uma muito necessária novidade não-prejudicial.

revista intervalo, 1966

Embora Londres do início dos anos 60 seja considerada o berço da minissaia, no Brasil dos anos 50, enquanto o mundo ocidental aceitava e reproduzia o antiquado New Look de Dior, um artista surgiu com uma intervenção artística que previa não apenas o surgimento da minissaia mas propunha um novo olhar para o corpo e a moda masculina.


Em 1956 Flávio de Carvalho, artista, arquiteto e escritor, desfilou pelo centro de São Paulo com o que ele ironicamente nomeou “New Look”: a roupa ideal para o homem dos trópicos. O look consistia em minissaia e uma blusa solta, cropped e com manga sino. Ele dizia que esse era o traje ideal para trabalhar e se mover por uma cidade como São Paulo no clima brasileiro.

Enquanto os grandes veículos de moda exaltavam o New Look de Dior, que restringia a movimentação das mulheres, atuando a favor do poder masculino e da opressão feminina, Flávio de Carvalho desfilava seu New Look, que libertava os homens tropicais da opressão dos trajes europeus. De acordo com ele, não havia sentido em restringir os homens a padrões europeus de terno e gravata no calor de um país tropical - assim como as mulheres haviam se libertado das saias e espartilhos, o homem devia se libertar da calça e da gravata.

Ao mesmo tempo que desafiava padrões ocidentais de moda, Flávio era um dos primeiros homens a mostrar as pernas em público fora da praia - o primeiro homem de minissaia, anos antes da tendência explodir na capital britânica pelas mãos de Mary Quant. A caminhada de minissaia era, além de uma proposta de moda, uma experiência artística, que ele nomeou Experiência nº 3.


A Experiência nº 2 havia acontecido duas décadas antes, e o conceito, a teoria e as motivações de Flávio estão publicadas no livro de mesmo nome, disponível para download gratuitamente no arquivo da Biblioteca Brasiliana. No livro, o artista demonstra seu interesse por moda e regras estilísticas desde cedo, e descreve a experiência nº 2 e sua importância.

Em 1931, Flávio caminhou na direção contrária de uma procissão religiosa de Corpus Christi, sem tirar seu boné. Naquela época as regras de conduta e etiqueta quanto à roupa eram rígidas, e não descobrir a cabeça quando da presença de evento religioso era extremamente ofensivo. Flávio acreditava que a crença em regras imutáveis e tradições teria grande efeito na agressividade de uma comunidade, para determinar se a força da crença era maior do que a força do respeito à vida humana.


Em suas duas experiências, Flávio pôs à prova padrões vigentes de estética e comportamento que explicitavam papéis de gênero, de poder e de opressão. Inadvertidamente, na segunda experiência, acabou prevendo a grande tendência da década seguinte, a minissaia dos anos 60 - muito antes de Mary Quant e bem longe de Londres.

E, ao contrário de Quant, que atribuía sua criação a um inconsciente coletivo de suas clientes. Flávio baseava sua ideia em argumentos lógicos, que incluiam conforto, mobilidade, frescor, uso de tecido, um estilo adequado a tipos diversos de corpos (Flávio dizia “adequado a gordos e magros”), facilidade de limpeza e higienização, psicologia das cores e circulação do ar.


Clodovil o próprio afirma que o inventor da minissaia foi ele, no começo dos anos 60, quando pediu a uma costureira aumentar a barra do vestido que Elis Regina ia usar pra se apresentar na TV. A mulher entendeu errad, encurtou a barra e Clô só descobriu quando ligou a TV e deu de cara com Elis e suas pernocas todas exibidas. Mesmo se isso fosse verdade acho que significa que quem inventou a minissaia foi a costureira (mais uma mulher anônima na história da moda) e não Clodovil - e mesmo se déssemos os devidos créditos à costureira, Flávio de Carvalho já tinha causado fuzuê com seu #freethecoxas pelo menos 5 anos antes.

A obra de Flávio de Carvalho está em exposição na Galeria Almeida e Dale até dia 19 de outubro.


Flávio de Carvalho: o antropófago ideal

Local: Galeria Almeida e Dale - R. Caconde, 152, Jardim Paulista – São Paulo

Quando: de 17 de agosto a 19 de outubro, de segunda a sexta, das 10h às 19h

Entrada gratuita


publicado originalmente na Revista AzMina

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