• melody erlea

Moda e sustentabilidade: é possível juntar os dois?

(publicado originalmente na revista az mina)


É possível fazer moda consistentemente e bacana em uma indústria que e se utiliza de nossos desejos para nos fazer comprar sempre mais?

pixabay

O movimento Fashion Revolution visa conscientizar sobre os impactos sociais e ambientais da moda e existe desde 2013, ano da queda do edifício Rana Plaza em Bangladesh - onde funcionavam as confecções de marcas como H&M, Disney, Wal Mart e Benetton. Uma vez por ano, por uma semana, diversas instituições em diversas cidades e países organizam eventos, palestras, rodas de conversa, exibições de filmes e desfiles que focam em encontrar novas maneiras de fazer e consumir moda que não devastem tanto nosso planeta e vidas de pessoas ao redor dele.

Como todo ano, a semana Fashion Revolution de 2019 aconteceu na semana do dia 24, data que marca o aniversário do desastre no Rana Plaza, e esteve presente em cidades por todo o país. O alcance do movimento cresce cada vez mais numa época em que sustentabilidade e cuidado com o meio ambiente são assuntos discutidos com frequência - mas o mercado e a produção de moda conseguiriam fazer as mudanças necessárias para que pensemos em moda limpa, transparente, honesta e humana mais do que apenas uma semana por ano?


Com um produto altamente fetichizado e rotativo, a moda parece sobreviver de nos manipular a consumir supérfluos os quais sabemos que iremos descartar em breve. É uma indústria que produz em excesso e descarta em excesso, e que se utiliza de nossos desejos para nos fazer comprar sempre mais. É possível fazer moda consistentemente bacana?


Numa indústria como a moda, que sobrevive de aparências e artimanhas, é fácil se encantar por discursos de diversidade, inclusão e sustentabilidade que, algumas vezes, são estratégias de marketing para atrelar valor à imagem da marca - procurar por soluções e mudanças reais e internas pode ser um desafio, e existem marcas que acabam perdendo sua reputação por se aproveitar de um discurso mas não promover ações reais, transparentes e profundas - vide o recente caso da Loja 3, que foi acusada de racismo, homofobia, gordofobia e classismo apesar de seu discurso de sustentabilidade e responsabilidade social. A marca anexava às etiquetas de suas peças fotos das costureiras, como se para responder à pergunta “Quem fez minhas roupas?”, proposta pela Fashion Revolution.


Embora a pergunta pareça fácil de responder, foto dos costureiros não realmente traz clareza quanto a condições de trabalho e remuneração - que é o ponto que a pergunta realmente questiona. Embora seja fácil ser enganado pelo canto da sereia do marketing sustentável, é inegável que há pessoas tentando reinterpretar nossa relação com moda, pensando em modelos de negócios que permitam que apreciemos o nos vestir e nos enfeitar estabelecendo uma troca menos letal. Essas empresas estão, cada uma de sua maneira, tentando mudar a maneira que o sistema de produção e comércio de moda funcionam - o caminho é longo e competir com grandes marcas, lojas de fast fashion e cadeias produtivas gigantes que produzem e vendem com rapidez inimaginável não é fácil.


O movimento Fashion Revolution cresce e ganha mais visibilidade a cada ano, alcançando e conscientizando mais gente e os resultados começam a ser observados: o crescimento do consumo de roupa de segunda mão cresce mais do que o de fast fashion e muitas marcas como C&A e H&M estão investindo em coleções feitas de material sustentável, como algodão orgânico - atitudes que servem para remediar o problema e manter a clientela sustentável comprando nas lojas, mas que não realmente reflete mudanças internas da empresa como diminuição de produção, salários justos para todos na cadeia de produção e diversidade nas áreas administrativas.


Empresas e marcas pequenas, locais e com escala muito menor de produção e venda são as que realmente investem em formatos diferentes de negócio e relacionamento com o cliente, de reutilizar matéria prima a desvincular o usar do ter. Escolhemos três empresas com três ideias diferentes estão criando maneiras de fazer moda menos nociva e mais pessoal para ilustrar que a mudança pode vir não apenas do consumidor mas das marcas de moda.


Repassa

A Repassa é um e-commerce de roupas usadas com foco em sustentabilidade e impacto social positivo. Eles recebem as roupas do usuário no esquema chamado “sacola do bem” - você recebe a sacola em casa e agenda sua retirada com o courier carbono zero (a entrega e retirada são feitas de bicicleta). A empresa se encarrega da curadoria, estoque, de fotografar e publicar na loja da vendedora. As roupas que não são aprovadas podem ser devolvidas ou enviadas para doação em uma das ONGs parceiras - e parte do lucro das vendas também é encaminhado para essas instituições.


Roupateca

A Roupateca é um guarda-roupa compartilhado com assinatura mensal - a assinante escolhe um pacote mensal e pode retirar um certo número de peças de roupa quinzenalmente. A proposta da empresa é valorizar o ter acesso ao invés do ter posse das roupas. A curadoria de peças inclui marcas sustentáveis e itens de segunda mão que foram das donas da marca, de amigas e até de assinantes do serviço - que podem trocar peças em bom estado que vão para o acervo da Roupateca por descontos em suas assinaturas. A empresa também monta malas de viagem pensadas para cada cliente e seus destinos e oferece assinaturas express para que as assinantes de outras cidades e estados possam vir a São Paulo sem precisar carregar mala.


Re-Roupa

Re-Roupa é uma laboratório de moda sustentável que visa criar roupas a partir de roupas: eles reutilizam estoque parado de coleções antigas de outras marcas ou roupas de segunda mão, desconstroem as peças e criam novas coleções reutilizando o material. Em 2017 houve uma parceria com a Farm e em 2018 com a Levis, além das muitas coleções com pequenas marcas que também procuram diminuir seus resíduos e seu impacto ambiental. A proposta da marca é dar uso e destino a toda a matéria-prima que sobra das confecções de outras marcas, além de reinserir no mercado peças de coleções antigas que seriam incineradas ou estocadas indefinidamente.


(publicado originalmente na revista az mina)