• melody erlea

o ativismo silencioso na gravata de philonise, irmão de george floyd


vi ontem a notícia de philonise floyd - irmão de george floyd, homem negro assassinado por um policial algumas semanas atrás nos estados unidos - depondo no congresso em washington e, por algum motivo, aquele homem de camisa desabotoada me fez pensar em bolsonaro, e uma foto tirada logo no começo de seu mandato. cês lembram?

Coluna Guilherme Amado/Agência O Globo

lembrei dessa foto também porque conheci recentemente as histórias do congressista americano jim jordan, famoso por nunca usar um paletó. ele tem a fama de ser esquentado e se deixar levar pelas emoções em reuniões do congresso - levanta de seu lugar, levanta a voz, aponta os braços efusivamente. todo um espetáculo. pensa comigo: num ambiente como um congresso nacional, esse entusiasmo agressivo é o equivalente a uma briga, um duelo, uma demonstração de força. o próprio político já disse em entrevista, quando perguntado sobre a falta de seu paletó, que não pode ter uma peça de roupa restringindo seus movimentos no calor dos depoimentos de testemunhas que ele acredita estarem sendo desosnestas.


pensa o momento simbólico em que dois homens vão duelar e tiram os paletós, as gravatas, e ficam à vontade para a briga. jim jordon diz, com a falta da jaqueta, que está pronto para qualquer briga, que já chegou preparado para o conflito.


jim jordan também afirmou que usa um paletó quando a situação requere ou quando quer demonstrar respeito - ao encontrar com trump, por exemplo, ou ao visitar a casa branca. parece que, para jordan, o ambiente do presidente é o único que pede respeito - seus colegas do congresso não merecem tamanha generosidade, e claramente não merecem um paletó.


rodrigo levino conta uma história do presidente ernesto geiser, que em 1975 foi fotografado por orlando brito caminhando na praia usando calções de banho. com medo de retaliação, o fotógrafo escondeu o rolo do filme, para descobrir depois que tudo havia sido planejado e o presidente queria ser fotografado sem farda na areia - passava uma imagem de proximidade com o povo e de homem comum que estava alinhada com a lenta abertura política proposta por geiser. o chefe de estado despiu a farda e descumpriu protocolos de vestuáro com planejamento, intenção - ele queria se mostrar mais acessível.

orlando brito

a aparência não é coisa pouca nos círculos militares. a gente já viu aqueles filmes em que soldados são obrigados a engraxar seus coturnos até enxergarem seus próprios reflexos no sapato. ou arrumar suas camas minuciosamente para não sofrerem punições. ou manter seus uniformes passados e dobrados e suas armas limpas.


o mesmo primor em relação a aparência aparece em outros círculos masculinos: padres, bispos e outras autoridades católicas tem um dresscode detalhado a seguir, de batinas a casulas, cada qual com seu momento apropriado de uso e cuidados necessários envolvidos. algumas casulas são obras de arte e são tratadas como tais.


tem uma cena no 3º episódio da 1ª temporada de narcos em que pablo escobar, recém eleito deputado, vai ao congresso sem gravata e é impedido de entrar pelo porteiro, que então recebe um calhamaço de dinheiro nas mãos e é avisado por escobar "tô comprando sua gravata". o maior narco-traficante da história, elevado ao nível de ícone pop e conhecido na colômbia como um homem do povo vestiu uma gravata para se adequar às regras do congresso.


peter stallibrass em seu livro o casaco de marx descreve a importância do casaco de inverno na vida de karl marx, posto que sem ele não tinha acesso à biblioteca para estudar e continuar sua pesquisa para a obra o capital. durante os verões, com o casaco penhorado, marx não escrevia.


esses cuidados masculinos com os itens de vestuário diferem da relação que o gênero feminino é ensinado a ter com suas roupas e aparência pois não está rotulado como vaidade - o aprumo de militares não é para embelezar, mas para cumprir rituais de organização, de hierarquia e de apresentação e criar uma imagem de eficiência e limpeza. a gravata de escobar denota respeito - por aquele ambiente e os outros que ali estão - e também é sinal de autoridade - é o passaporte dele para o mundo político, onde poucos jogam. da mesma maneira, o casaco de marx é um sinal de respeito por ritos e normas sociais que demonstram educação, bons modos, e te distinguem. e as casulas católicas significam fé, merecimento, reconhecimento hierárquico e também denotam o nível de importância e formalidade do evento onde o padre se encontra.


descartar essas normas de vestimenta sempre carrega uma mensagem. será que o descaso estético de bolsonaro tá mais pro jim jordan, com sua camisa sem paletó pronto pra briga, ou mais pra ernesto geiser, querendo construir uma imagem de homem simples, acessível, com a qual seus eleitores se identificam? vejo essa foto do fim de 2018 e concluo que, no caso do bolsonoro, a mensagem é outra por completo:

esse é um encontro de bolsonaro e alguns ministros brasileiros com john bolton, o assessor de segurança nacional dos estados unidos. não sabe dizer quem é quem? pois olhe pros pés desses senhores e perceba que só um deles se deu ao luxo de usar uma calça com a barra do tamanho certo. obviamente, esse é o americano.


a mensagem que os looks de bolsonaro me passam é a do mais puro descaso. não no sentido de jim jordan - calculado, pensado pra causar uma impressão - mas simplesmente por não entender o significado de rituais simples como tirar a camisa de futebol para uma foto oficial. por não entender que uma calça social precisa ter sua barra ajustada.


essa é uma equipe de políticos que não teve a capacidade de mandar ajustar as barras das calças, o que é que a gente espera que eles consigam fazer para além disso? essa é a única pergunta que eu consigo me fazer sobre esses homens. essa é a única mensagem que as roupas de bolsonaro me passam. de pura e completa incopetência. era essa a intenção?


isso tudo em pensava ontem, enquanto lia a notícia de que philonise floyd foi ao congresso depor sobre a morte de seu irmão, george floyd. o congresso americano, capitol hill, washington: a versão americana do congresso onde pablo escobar foi obrigado a usar uma gravata. o lugar onde por norma, por rito, por simbologia, todo homem usa gravata.


philonise floyd entrou na sala sem gravata, com uma camisa impecavelmente desabotoada no pescoço, um terno impecavelmente cinza, uma elegância impecavelmente casual de um homem sofrendo demais pra pensar no que vestir, porém não está em posição privilegiada o suficiente para usar chinelos e camisa de futebol. camisa branca, sem gravata, botões abertos. em sua máscara, uma foto de seu irmão e os dizeres "não consigo respirar".

Graeme Jennings/Pool/Reuters

philonise não tem usado gravata em nenhum dos eventos oficiais e vigílias pelo seu irmão. "quando ele gritou 'por favor, por favor, não consigo respirar', eu parei de usar gravatas. não queria mais usar gravatas porque EU quero conseguir respirar", foram as palavras de floyd.


a gravata é um dos maiores símbolos de sucesso masculino da burguesia ocidental, e foi imposta ao redor do mundo com outras regras de vestir que variam de acordo com o gênero e posição social da pessoa que as veste. a recusa em usá-la funciona como simbologia múltipla: dizer não a um elemento estético imposto pela cultura opressora, que representa os moldes aos quais precisamos nos adequar, e se desenroscar de um item que, fisicamente e literalmente, enforca o pescoço. o querer respirar aqui é real, em memória ao irmão, e também figurativo, representando um sistema que enforca e oprime muitos para o benefício de alguns.


philonise floyd descumpre o dresscode como gesto consciente de quem se desamarra de normas sociais plenamente aceitas que são fruto de uma violência sistêmica, resumidas num item de vestuário restritivo que sufoca e inibe o respirar natural.


pra completar os simbolismos, a máscara que floyd veste cobre o nariz e a boca e expressa, por escrito, a dificuldade de respirar, trazendo para um item que, na prática, deixa o ato da respiração mais seguro durante a pandemia, a ideia de restrição dos orifícios pelos quais respiramos e enfatizando, visualmente, a agonia de george no momento de sua morte.


Brendan Smialowski/Pool/AFP/Getty Images

philonise conseguiu carregar esse tanto de mensagens numa única mudança das normas de vestuário - a gravata - sem, em momento algum, parecer desleixado ou vestido aquém do respeito necessário à ocasião.


enquanto personalidades políticas como bolsonaro e jim jordan desrespeitam normas de dresscode para mostrar uma masculinidade ativa de alguém pronto pra briga - embora o resultado, na verdade, possa ser de desleixo e incompetência - philonise floyd mostra, ao não vestir uma gravata, que está cansado de brigar. cansado, exausto, sem ar de tanto ver sua vida - e a de tantos - restringidas a um sufocante sistema colonial racista, que premia uns - com todo seu desleixo e incompetência - e pune outros a partir de critérios construídos por séculos como verdadeiros para garantir a manuntenção dos privilégios de uma classe.




[uma pausa esclarecedora: existem muitos motivos pelos quais eu rejeito o jornalismo, e uma delas é o imediatismo e a corrente frequente de notícias que não nos permite tempo de análise pra nos entendermos com o que lemos. me parece que um ano e quatro meses depois de bolsonaro usar uma camiseta falsificada do palmeiras numa foto oficial do governo esse não é o assunto mais urgente em pauta, mas a verdade é que mesmo os assuntos mais urgentes são melhor compreendidos quando se põe luz em acontecimentos passados. às vezes a única maneira de realmente compreender algo atual é contrastando com informações idas, que precisam ser resgatadas e colocadas lado-a-lado para começar a fazer sentido. então, embora desde fevereiro de 2019 eu soubesse que tinha algo a dizer sobre os chinelos de bolsonaro, foi só agora, um ano e 4 meses depois, ao ver uma foto de philonise floyd, que eu entendi o que precisava ser dito. e talez essa seja mesmo a hora certa de me posicionar, agora que realmente sei o que dizer, ou talvez eu realmente não devesse me apegar a um look presidencial de mais de um ano atrás, mas eu não acredito que nenhum acontecimento tenha significado isoladamente. e de qualquer jeito esse texto não é sobre bolsonaro e sua camisa de time, e sim sobre philonise floyd e sua camisa desabotoada. uma pausa para apreciarmos a diferença do colarinho de floyd e da calça de tactel de jair.]

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