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O Masculino Pós-gótico em Clube da Luta

[texto publicado originalmente na fresh people]


Clube da Luta, livro de Chuck Palahniuk publicado em 1996, e sua adaptação para os cinemas de 1999, marcam a chamada fase “pós-gótica” da estética no mainstream, especialmente no que se refere à representação da masculinidade.


Na década de 1980, o visual e a cultura gótica permitiram uma maleabilidade estética masculina, abraçando signos e ferramentas do vestir normalmente associados ao feminino (maquiagem, acessórios, cabelos longos) inclusive, e principalmente, para homens heterossexuais. A cena gótica é um raro espaço seguro para a expressão feminizada do homem hétero.


A partir dos anos 90, com a segunda onda do gótico, o visual andrógino dá espaço a um outro tipo de masculinidade, em que prevalece o apego a elementos visuais e comportamentais masculinos, e o feminino é expresso nas relações de afetividade entre homens.


É o que acontece em Clube da Luta, onde a dicotomia do masculino e feminino se resolve na expressão mais pura da masculinidade – a violência corporal – para balancear a profunda conexão emocional que os personagens estabelecem entre si. O homem do livro desdenha a vida burguesa e obediente da virada-de-milênio e a masculinidade castrada e domesticada do sonho americano. Ele já se sente suficientemente efeminado pela sociedade para querer expressar esse seu lado, e por isso rejeita a estética andrógina de seus precursores.


Ainda assim, a expressão do masculino em Clube da Luta é uma em que a necessidade de vínculos acaba trazendo a androginia do patamar estético para o emocional: esse é um universo em que o feminino se expressa na homoafetividade estabelecida entre os membros do Clube da Luta, todos heterossexuais. É nos limites sociais do clube que esses homens se permitem ser vulneráveis.


É apenas nesse clube do bolinha niilista que eles se sentem confortáveis para serem algo que a sociedade não espera dos homens: afetuosos, pessoais, íntimos. E é a chegada de uma mulher, Marla Singer, que desencadeia o fim do delicado equilíbrio masculino de afetividade e violência que mantém o Clube da Luta funcionando.

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