• melody erlea

o meio-terno de pippa garner: liberando os corpos masculinos

tudo começou quando esbarrei, numa noite de insônia, no instagram da @hodanyousuf e fiquei OBCECADA por como ela usava blazers: cortados ao meio, sem acabamento, desfiando na barra e com a camada interna (que deixa o paletó "durinho") aparecendo. poha, véi, lindimais.



foi só uma postada nos stories pra descobrir que isso é uma tendência do upcycling - chegou uma enxurrada de indicações de brechós e marcas independentes que fazem isso, tá tudo lá nos stories.


mas toda tendência que se valha tem uma história, e coincidentemente eu recebi, naquela manhã pós-insônia, uma foto de philip garner (artista que atualmente atende como pippa, após passar por uma transição de gênero) e seu HALF-SUIT, ou meio-terno, criação de 1982.



essa foto me levou a uma viagem louca, em que descobri o livro "bodies: exploring fluid boundaries", da pesquisadora robyn longhurst. esse livro tem um capítulo inteiro dedicado ao corpo (tanto do gênero masculino quanto feminino) coberto por um terno. robyn propõe que o terno, com sua modelagem dura, quadrada, reta, cria essa impressão de corpo selado, preso dentro de uma forma que o contém adequadamente, que não vai deixar escapar fluidos, pêlos, peles e gases que o outro não deseja saber que existem.


tem tudo a ver com contenção e controle dos nossos fluidos - o terno cria uma aparência de controle que assegura a imagem profissional e contida; causa a impressão de deixar o corpo protegido de invasões externas, mas principalmente impede o corpóreo ali contido de escapar pra fora.


que "coisas" escapem do corpo é natural, mas inadequado na vida corporativa. o terno solidifica a partes voláteis do nosso corpo, o impedindo de "vazar". esse controle corporal contribui para uma imagem mais racional e masculina.


o meio-terno de pippa garner provoca essa ideia, deixando o abdômem masculino à vista em pleno ambiente corporativo. segundo ele, a adaptação era ideal pra climas quentes, pois mantia a formalidade necessária no pescoço e colarinho, ao mesmo tempo que permitia conforto, frescor e charme no tronco.


olha, pra tempos de reuniões no zoom até que faz bastante sentido.


garner também sugeria uma camisa social de um ombro só, e recomenda que o meio-terno seja usado com calças encurtadas pra potencializar o efeito refrescante. a artista afirmava que a possibilidade de encurtar roupas existente no huarda-roupa feminino devia ser assimilado no vestir masculino.


lá nos anos 80, pippa era uma artista com pegada humorística, auto-proclamada inventora de itens essenciais pra sobrevivência no mundo moderno - que eram na verdade uma coleção de itens absurdos e cômicos. mas eu arrisco dizer que ela acertou - e muito - no half-suit.


a ideia tem potencial de mudança, tem uma certa ironia ao rituais de vestuário que a gente não questiona, propõe um mostrar do corpo que é tão diferente do usual que é, sem sombra de dúvida, político.


o curioso é que décadas antes, aqui em terras brazucas, a gente tinha outro artista também propondo uma reforma no dresscode do homem profissional. flávio de carvalho desfilou pelo centro de são paulo sua proposta pro new look para o homem dos trópicos: ao invés de camisa e terno, uma minissaia e uma blusa cropped, soltinha com manga sino. a roupa permitia que o vento circulasse e refrescasse o corpo, e, segundo flávio, era o traje ideal pra trabalhar numa cidade como são paulo.



eu acho mesmo que ia ficar massa demais misturar a minissaia de flávio com o meio-terno do pippa; imagina esse luquinho???????? imagina os hómi tudo?



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