• melody erlea

O surrealismo de Schiaparelli e a idealização por trás das máscaras



Se tem uma característica da casa original que Daniel Rosebery, diretor criativo da Schiaparelli, tem conseguido manter com louvor, é sua relação com o surrealismo que brinca com elementos do rosto e corpo humano. Na coleção Primavera-Verão 2021 há belíssimos exemplos desse trabalho nos bustos e máscaras - para rosto, dedos e mãos - folhadas à ouro, esculpidas à perfeição.


Uma prévia desse trabalho jpa havia sido apresentada ano passado, na coleção pret-a-porter, e alguns meses atrás Kim Kardashian publicou em suas redes fotos de um busto verde, recebidinho da Schiaparelli, que também faz parte da nova coleção.



Quando vi, no desfile da Valentino, esse look com o rosto todo coberto de brilho dourado, mascarado como que para o carnaval, e também Cardi B com suas botas-armadura da Balenciaga, não pude deixar de lembrar de janeiro de 2020, quando o maior fuzuê das redes sociais das muódas era o busto usado por Zendaya no Critics Choice Awards.


Também tenho falado sobre máscaras desde o ano passado, incluindo uma comparação das máscaras douradas de Schiaparelli com as máscaras-prótese que a artista Anna Coleman-Watts fazia para soldados feridos na 1ª Guerra Mundial. E reparem mais essa: os bustos dourados de Schiaparelli, combinando com as máscaras, tem corrente com cadeados embutidas nela - lembram quando falei também dessa tendência?



É curioso: que a moda tenha nos apresentado continuamente com máscaras num ano em que vivemos mascarados, proteção corporal num ano em que nos encontramos vulneráveis, correntes e cadeados num ano em que estamos trancafiados.


As máscaras de Daniel Rosebery, feitas sobre um molde do rosto da modelo Maggie Maurer, são representativas do momento em que vivemos - embora não sejam estritamente máscaras de proteção, emulam, de maneira luxuosa, o recente status quo de rostos cobertos. Ao mesmo tempo, deixam o rosto de certa forma visível ao o reproduzir de maneira, literal e escultural. É uma brincadeira entre o esconder e revelar a face, que aflora nosso encanto por mistérios, bailes mascarados, carnavais e outras aventuras que podemos ter quando somos anônimos.



As máscaras de Schiaparelli são muito mais uma fantasia do que um aceno ao momento atual, muito mais um escape - como o surrealismo normalmente é - do que preocupação com uma necessidade real dos consumidores.


Ainda assim, há beleza no escape e na fantasia - que são, muitas vezes, o que esperamos da moda. E mesmo no sonho surreal de uma máscara dourada acompanhada por óculos também folhados à ouro e dedos e busto combinando, há um pouco da história da humanidade sendo transformada em espetáculo.


No caso de Schiaparelli, as máscaras lembram o trabalho de outra artista, contemporânea de Elsa Schiaparelli a própria - Anna Coleman Watts Ladd, uma escultora norte-americana que se mudou para Paris em 1917 e acabou tornando seu trabalho artística uma maneira de auxiliar soldados feridos na 1ª Guerra Mundial.



Anna entrou em contato com o trabalho do escultor Francis Derwent Wood, que em seu ateliê - The Tin Nose Shop, ou a Oficina do Nariz de Lata - produzia máscaras para soldados que haviam retornado dos campos de batalha da guerra com o rosto mutilado. Abriu, com o apoio da Cruz Vermelha, seu próprio ateliê, o Studio for Portrait Masks (Estúdio para Máscaras-Retrato, numa tradução livre), onde esculpia máscaras de cobre, modeladas perfeitamente, que depois eram pintadas no tom exato da pele dos soldados que iriam usá-las.


Completas com óculos e bigode, as máscaras de Coleman permitiam uma nova vida a ex-soldados. Esses homens, que voltavam irreconhecíveis da guerra, eram chamados, na França, de "mutilées", e viviam isolados devido a suas deformações faciais. Era comum que eles tivessem acabado de ter retornado da guerra, após passar por hospitais onde suas feridas faciais foram tratadas e curadas, mas nenhum tipo de cirurgia cosmética oferecida - devido aos recursos e esforços necessários em tempos de guerra, não havia tempo ou pessoal disponível para muito mais além do que fosse extremamente necessário, e eles voltavam para casa sem perspectiva de uma vida normal.



Essa não foi a primeira vez que Anna havia se debruçado artisticamente sobre o impacto da aparência em nossas dinâmicas sociais. Em 1913 ela publicou um romance, The Candid Adventurer, em que um dos protagonistas, um pintor de retratos, é incapaz de enxergar para além da beleza exterior de alguém.


As máscaras - de Anna, em 1917, e de Schiaparelli em 2020 - são uma lembrança sutil de que aparência traz um peso enorme às nossas relações. E ter a capacidade de acobertar nossas falhas e nos apresentar mascarados, novos, nos encanta desde o início dos tempos.



O filme Nos Vemos no Paraíso, de 2017, baseado no romance homônimo do autor francês Pierre Lemaître, retrata a jornada de dois colegas de trincheira da 1ª Guerra Mundial que tem seus destinos unidos quando, ao tentar salvar seu companheiro, um deles tem o rosto completamente deformado por uma bomba. No filme a máscara desse soldado funciona como transportadora para um mundo em que sonho e realidade se misturam, e os dois amigos brincam de trocar de identidade, se mascarar, se esconder e se revelar ao longo do filme, enquanto planejam a vingança contra o tenente que os tratava com sadismo durante a guerra.



Em 2006 o diretor coreano Kim-Ki Duk já havia trazido sensíveis e surrealistas questões sobre o poder da beleza e da manipulação facial no filme Time - O Amor Contra a Passagem do Tempo. A protagonista Seh-Hee está convencida que seu namorado não se sente mais atraído por ela, então decide se submeter a uma cirurgia plástica e mudar completamente sua face. Enquanto se recupera, ela esconde seu rosto do namorado com uma máscara, não permitindo que ele olhe para suas novas feições, até que um dia desaparece. Quando, anos depois, seu namorado a esqueceu e está num relacionamento com outra mulher, Seh-Hee nos revela quão profundamente podemos manipular a vida e os sentimentos de alguém apenas com nossas faces.



No mais popular Vanilla Sky, filme baseado no original espanhol Preso na Escuridão, vemos Tom Cruise no papel de David, um playboy milionário que perde toda sua razão de viver após sofrer um acidente que deforma seu rosto. Ele possui uma máscara - nem de longe tão refinada quanto as feitas por Anna Coleman na 1ª Guerra - que é ao mesmo tempo sua prisão e sua libertação. É com essa máscara que ele consegue se mostrar vulnerável e falar honestamente quando está se consultando com seu terapeuta, e é ela que se mostra sempre um obstáculo quando ele tenta ter uma vida normal. No fim das contas, a máscara serve, novamente, como um portal para um mundo interior tão complexo que se mistura com sonhos, pesadelos, desejos e memórias, em que a gente não distingue mais o que é real e o que estamos apenas projetando.


O que as máscaras de Schiaparelli mostram, assim como tantas outras máscaras que nos fazem viajar para mundos fetichizados, exóticos e perigosos, é que nosso interesse pelos rostos cobertos é justamente a possibilidade desse portal para um mundo onde podemos ser quem quisermos - porque a identidade por trás da máscara é irrelevante. A máscara acaba sendo um portal para um mundo em que sonhos e pesadelos são retratos distorcidos e manipuláveis da realidade - enquanto ao mesmo nos deslocam completamente dela.

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