• Marina Minassian

o verdadeiro luxo em Bonequinha de Luxo

¡holaquetal!


se você sentir que esse texto tem um tom diferente, é por que ele não está sendo escrito por Melody, rainha fundadora&mantenedora desse indispensável blog, mas sim por alguém que manja pouco de moda.


antes que você receba essas palavras com um eye-roll ou até coloque em cheque o profissionalismo de Melody ao convidar uma colaboradora que aparentemente não tem fit cultural necessário pra tal cargo, já justifico a situação. eis aqui o chato, porém necessário, momento bio-CV.


¿quem sou eu?


Marina Minassian, comunicóloga, organizadora profissional (lê-se ~Personal Organááizer~) e criadora de conteúdo digital desde criancinha (mentira, 2013). Sob a alcunha de Caótica Suave me atribui a missão de incentivar a organización e o autoconhecimento rumo ao consumo responsável e a redução de impactos ambientais. em meus ~canais digitais~ compartilho tudo que julgo coerente para a suavização da nossa caótica experiência nesse sistema capitalista.


Melzinha and I temos em comum o fato de não nos acomodarmos na superfície. amantes-das-palavras que somos, vivemos analisando, correlacionando e depois (extinguindo qualquer possibilidade de rebeldia que gostaríamos de transmitir) trazemos tudo organizadinho, na forma de belos textos que vocês podem apreciar nessa internê. é um jeitinho de enriquecermos sua vida com conhecimento AND driblarmos o nosso caos mental…...


enfim, estamos apresentades?

acho que podemos empezar.


nessa minha estreia, escolhi trazer uma reflexión correlacionada a uma vivência recente.no Carnaval, materializei uma “personagem” que eu já tinha idealizado: a ~Bonequinha de Lixo~.


como a Melody comentou um “EU AMEI” na minha fotuxa do Instagram, julguei interessante refletir sobre esse tema aqui também (no meu bloguito, expus uma abordagem mais pessoal-blogger das motivaciones por trás do lukinho e uma análise sobre a situação dos catadores no Carnaval).


bueno. você, Repeterouper, deve saber do ícone que “Bonequinha de Luxo” (aka “Breakfast at Tiffany’s) é pra moda and produção cinematográfica Hollywodiana. maaaas, pode ser que você tenha assistido ao filme há anos atrás ou até, de tão clássico que é, às vezes a gente só pressupõe que já sabe tudo, mas na real nunca foi do começo ao fim.


então, bamos de trailer:




nem sei dizer se Holly Golightly foi eternizada por Audrey Hepburn ou vice-versa, de tanto que uma fundiu na figura da outra. fazer menção à uma delas é visualizar mentalmente a emblemática figura coquezão-tiara-piteira-cocktail-dress que estampa exaustivamente almofadas, quadrinhos decorativos, canecas e o que mais der pra reproduzir em escala massificada e vender, vender, vender.


importante dizer que amo esse filme, bem como “Sabrina” e “A Princesa e o Plebeu”, mas amo igualmente uma profunda reflexión, então… bamos de problematización.



A problemática da personagem de "Bonequinha de Luxo"

o carisma que Audrey conquistou no filme é tanto, que muita gente se esquece dos valores questionáveis que compõe a personagem. ao literalmente fugir de um casamento que a aprisionava e almejando sua fatia do American Dream, Holly (nome em que adota em sua nova vida), se instala em Nova York e passa a ser sustentada como acompanhante de luxo.

cega pelo sonho da rhyqueza, ela começa o enredo prestes a se casar com um milionário e alimenta sua fantasia de uma vida luxuosa com um cafezinho e um croissant, num ritual matinal em que assiste à vitrine da grife, já na época muy-bien-estabelecida, Tiffany & Co.


ah.... quem não tem um cafezinho-cortina-de-fumaça para os problemas mundanos? (eu e Melody preferimos nos refugiar em um bolo e um litrão, respectivamente).






por um lado, ponto para a luta feminina. o filme (lembrando o ano: milnovecentosesessentaeum) aborda sutilmente assuntos necessários, entre eles, a liberdade sexual e um comportamento feminino mais livre. ao retratar uma mulher, considerada a personificação da elegância (o que também tem sua problemática…..), que frequenta festas sem culpa, dá o seu rolê sozinha pela cidade, mora num apê com um gato, estuda língua estrangeira e ainda flerta com o vizinho, é dada representatividade de MUITAS mulheres que vivem muy bien, gracias, quase 60 anos depois. tem nem como dizer que não foi um grande passo na desconstrução de rótulos e pensamentos conservadores, né? pero, por outro lado...


A frente do seu tempo, inclusive nas desilusões



Holly é uma personagem com comportamento à frente do seu tempo. mas calmalá. num olhar mais atento, é possível sentir uma pitadinha de personalidade meio irritante, superficial, que está sempre com um beicinho iminente.


ao atribuir sua insatisfação pessoal à condição de vida que tinha anteriormente, Holly se fecha para o mundo, como se qualquer tipo de envolvimento fosse (com o perdão do trocadilho) mero luxo.


ela se priva de qualquer envolvimento profundo, e acaba por viver na superfície. não demonstra carinho, nem empatia pelos demais moradores do prédio, nem sequer no trato com o Gato (sim, ele não tem nome esse nome, carregado de simbologia). a felicidade e o contentamento se apresentam como lugares projetados no futuro, nunca no presente, e as inseguranças são mascaradas pelo consumo: de festas, cigarros, jóias e roupas.


cega pelo sonho de luxo, o consumo a entorpece dos valores significativos e seus dias se esvaziam de sentido, se limitando a arquitetar planos para conquistar pretendes que possam garantir o status almejado. parece um white people problem, mas é de cortar o corazón, porque não é necessariamente um problema pessoal, mas sim social.


Soa familiar?


uma mulher interiorana, que se casa muito jovem. então desperta a consciência de que é infeliz e cria autonomia suficiente para fugir e/ou buscar seus próprios caminhos. vai para a terra das oportunidades, deslumbrada pelas fáceis promessas de glamourização, consumo e cenários instagramáveis. perambula, explora, consome, se monta, extravasa, entorpece, despiroca. pra então se dar conta de que aquilo não a completa.


encontra a felicidade quando resgata sua simplicidade: desmontada, de brusinha básica, toalha na cabeça, contemplando pela janela, ao som de músicas que trazem conforto e boas memórias. e, talvez, desejando um amorzinho com quem compartilhar das coisas boas e simples da vida.



Somos todas possíveis Bonequinhas de Luxo


somos todas marionetezinhas em potencial. a mídia nos seduz com uma infinidade de produtos, do vestuário&cosmético ao alimentício, que nos prometem um novo patamar de vida, um encontro com a nossa melhor versão.


transpondo “Breakfast at Tiffany’s” pro cenário brasileiro, sou testemunha do quanto São Paulo é gatilho pra insatisfações: vitrines Tiffany estão distribuídas pelos shoppings mais elitistas (alô, alô JK Iguatemi) e os cafés, instagramáveis e de experiências gourmetizadas, estão na espreita para seduzir “bonequinhas” de todo o país.


e assim nos sujeitamos a uma grande confusão: adotamos uma métrica de sucesso estabelecida pela sociedade capitalista, como se fosse a nossa. mas lembre-se, pequena Miss Golightly:

a régua do nosso sucesso é pessoal&intransferível.

Aprendendo a Simplificar e a Repetir Roupa com Holly Golightly

um dos ensinamentos mais pragmáticos que podemos levar do filme é no âmbito da moda, de fato. mas, não no sentido de olhar com desejo e deslumbramento para as grifes ou rechear uma wishlist de compras. podemos converter o desejo do consumo por um desejo de nos aprimorarmos criativamente, extraindo elegância da simplicidade. the famous fazer menos com mais.


Holly é uma mulher que foge de uma vida simples no interior e se refaz gradualmente na cidade. portanto, coerentemente, algumas peças reaparecem em determinadas cenas (o tubinho preto Givenchy aparece em QUATRO diferentes composições e o casaco Burberry em duas, juro). é impressionante como são usadas de forma tããoo sábia, com truques de styling, incrementando acessórios e penteados, que os resultados são bem distintos. é toda a filosofia Repete Roupa condensada na elegância.


O erro da mensagem final de Bonequinha de Luxo


o filme não só eternizou elementos do vestuário, mas a própria marca Tiffany & Co, que inclusive inaugurou uma cafeteria toda gourmetizada em sua icônica loja Nova Iorquina há uns anos atrás. a Tiffany precisa disso? não, né. mas o capitalismo não deixa perder uma chance sequer de dominar tudo e fazer dinheiro.


pois bem, a mensagem do filme é contrária a que se firmou popularmente. a moral da história é a de que o luxo está em uma vida de valores humanos profundos, como o afeto e o envolvimento emocional, e não no raso consumo e na estética. vejamos:


o ponto da virada para essa moral acontece quando seu ex-marido, de quem fugiu, a encontra em Nova York. então nos deparamos com um homem mais maduro, fora dos padrões estéticos, mas que se mostra simples e compreensivo em relação a escolha que ela teve. desse acontecimento em diante, Holly vai abrindo mão de seus planos frustrados de casamento por acordos financeiros e se dá ao luxo (ai, ai, amo esse trocadilho) de se contentar com o simples.


essa simplicidade é estimulada pela figura de seu vizinho. também refém da busca pelo luxo, ele rompe seu relacionamento de interesse com uma milionária de idade avançada e passa a deixar mais claro seu afeto por Holly. ela, que por mais que compartilhasse desse elo de identificação mantinha com ele uma relação de indiferença, passa a mudar nesse despertar.


um simples passeio na companhia de seu vizinho resgata seu espírito mais descontraído e leve. o momento em que ela se vê mais feliz não é quando mascara suas inseguranças com seu delineador e óculos escuros, mas quando compartilha de máscaras infantis junto de seu vizinho-crush praticando pequenos atos de desobediência. furtando uma loja. movimento também cheio de simbologia, do jogo virando.


A Verdadeira lição que podemos levar de Bonequinha de Luxo (com spoilers)



além do pequeno furto da loja, Holly é presenteada por um anel de brinde em um pacote de salgadinhos e vai até a Tiffany para gravá-lo. a mensagem que a gente quer não é: “own, como essa loja é turooow”, mas sim: NINGUÉM PRECISA DE UM ANEL PRA SER FELIZ.


pra aguçar o drama, vendo que o relacionamento caminhava para a seriedade de um compromisso, Holy dá uma surtada (muy típica de macho, vamocombiná), se desfaz de seu Gato em um beco e eis o clássico diálogo no táxi:



por fim, ela compreende a necessidade de se abrir e se aprofundar em seus relacionamentos, pula do táxi em meio a chuva e vai de encontro ao Gato. ao abraçá-lo, recompõe o seu eixo de humanidade e nesse momento, vizinho-crush a alcança para o beijo emblemático sob a chuva (e com o Gato no meio).


a sensação é de que Holly tem um final feliz só porque cede ao desejo do bonitão de “amá-la”, mas eu interpreto que essa é só a pontinha do iceberg. ele talvez seja o propulsor do resgate de sua essência leve, que mesmo quando montada em um suposto luxo, ainda assim se mostrava simples (pretinho básico, sapatilhas, cortes retos, sem extravagâncias).


na minha interpretação, Holly se descobre feliz porque rompe, mesmo que simbolicamente, com os sistemas que a impõe de consumir luxo, de se casar com alguém que irá proporcionar riqueza material fácil e permite se abrir para o que de fato é o “luxo” da vida: prefere o envolvimento emocional à indiferença e a simplicidade ao materialismo.


sendo assim, devemos concordar que o final seria igualmente feliz, ainda que a cena final fosse essa:


Certo? Certo!







Referências:

https://cinemaclassico.com/figurinos/os-figurinos-bonequinha-de-luxo-1961/

https://superela.com/bonequinha-de-luxo-problemas

https://www.etiquetaunica.com.br/blog/bonequinha-de-luxo-moda-tendencia/

http://www.theskinnystiletto.com/tag/breakfast-at-tiffanys/