• melody erlea

OH, HAS THE WORLD CHANGED OR HAVE I CHANGED?



é fato que a minha geração está vendo, pouco a pouco, o século XX morrer - mas não sem antes assistirmos a tv, o cinema e a internet comercializarem e "pop-zificarem" tudo, inclusive os grandes políticos a partir da 2a metade do século passado. gorbachev, lula, princesa diana, barack obama... alguns exemplos de figuras políticas que extrapolaram seu significado semiótico e viraram ícones pop. a rainha elizabeth é uma dessas pessoas, e eu não poderia fazer um post sobre sua morte sem mencionar o disco que metaforicamente previu, desejou e descreveu a mortalidade da rainha e da monarquia como um todo: the queen is dead, dos smiths,


uma obra-prima lançada em 1986, apenas 5 anos depois de charles se casar com diana, o disco consegue passar pelos mais absurdos e mundanos temas, de poetas enterrados em cemitérios a amor não correspondido, de monarcas mortos a clérigos transformistas, de desejos suicidas a desejos regicidas.

depois de uma década de 70 de instabilidade econômica e política que fez crescer uma dicotomia política entre a juventude, mergulhados num reino unido sob o comando de margaret thatcher, os smiths conseguiram fazer um disco que, do começo ao fim, carrega a atmosfera melancólica de uma inglaterra vivendo a ressaca pós-punk de um país ainda dependente das dinâmicas retrógradas de um governo monárquico.


a canção-título, um escândalo por si só, é um pequeno hino de rejeição a todas as instituições tradicionais que regem a inglaterra - a monarquia sendo apenas uma delas, com suas mãozinhas em todo o resto. morrissey, em poucos minutos, fantasia sobre uma rainha enforcada, sobre invadir o palácio e ter uma conversa com a monarca, e sobre um príncipe charles ridículo e afeminado ao tomar o lugar de sua mãe.



a canção é comparável apenas com o hit punk god save the queen, lançada pelos sex pistols em 1977, em plena recessão dos anos 70, numa explosão caótica e grandiosa de sarcasmo adolescente contra o status quo - e bem mais direta em chamar o regime monárquico inglês de fascista e emburrecedor do povo, e proclamar a inglaterra uma nação sem futuro.


morrissey se permite mais liberdade poética, e sua the queen is dead é mais metafórica, mais literária - enquanto os sex pistols tavam mandando um dedo no meio pra rainha, os smiths tavam apenas enfatizando sua superioridade intelectual, se utilizando de referências e intertextualidade pra mostrar, por meio de finas ironias, a monarquia como uma grande descendência de gente descolada da realidade, pouco inteligente e usurpadora de seu poder e posição.



hoje, 36 anos depois, a canção premonitória dos smiths ganha ainda mais uma camada de significados.

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