• melody erlea

quase famosa: a história da groupie que inspirou penny lane


atestado de envelhecimento maior do que o fato de o macaulay culkin ter 40 anos é descobrir que hoje é o aniversário de 20 anos do filme quase famosos.


vinte??? quédizê que eu tinha TREZE ANOS QUANDO VI ESSE FILME, cês me dêem um tempo pra absorver essa chocante notícia.


pronto, já tô mais calma. o mais louco de envelhecer com as coisas que a gente ama é sentir quão fundamentalmente a gente é formado pelas obras culturais nas quais tropeça sem querer (eu, pelo menos, vi o filme por acidente, sem saber o que era, e saí da sala de cinema mudada). e também ver como nossas próprias interpretações podem mudar, mesmo que continuemos amando a obra em si.


o filme é baseado nas experiências pessoais do diretor cameron crowe, que na adolescência acompanhou o led zeppelin em turnê pra escrever uma matéria pra rolling stone. todos os personagens são, em maior ou menor nível, baseados nas impressões que aquele jovem teve ao acompanhar o dia-a-dia de uma das maiores bandas de rock do mundo, inclusive a inesquecível, icônica e inimitável penny lane, interpretada por kate hudson.

penny é inspirada na também inesquecível, icônica e inimitável pamela de barres, uma das groupies mais populares dos anos 70 (pegou o jimmy page, mick jagger, keith moon, jim morrison... uma lista da qual se orgulhar). só que penny não é inspirada, exatamente, em quem pamela era - ela é baseada no olhar fantasioso e inocente do jovem cameron crowe.


pra pamela, a cena em que william conhece penny e ela afirma veementemente que ela e suas amigas não são groupies - porque groupies só estão lá pelo sexo, e elas estão lá por amor a música - é meio ofensiva. "a penny lane não assumia quem era com orgulho, ela devia fazer isso", disse de barres em entrevista recente para a vulture.


imagino que a intenção de crowe era a oposta - ao desatrelar as groupies do sexo e adicionar a camada de interesse genuíno pela música, ele queria dar mais camadas a essas moças já tão estereotipadas e sexualizadas, novas cores, mostrá-las como seres humanos com interesses, emoções profundas e mais apego pelos corpos masculinos de artistas do que apenas o desejo sexual.


ainda assim, entendo a perspectiva da pamela: o cara conheceu ela na juventude e décadas depois criou uma personagem baseada nela sem a consultar, sem a convidar para participar, sem dar a oportunidade pra que a história dessa mulher fictícia fosse contada pelo olhar e pela voz da mulher real que a inspirou.


ao longo dos anos, pamela já foi considerada inimiga do feminismo e da libertação feminina, por ter tão claramente usado seu corpo adolescente como ferramenta pra seduzir homens mais velhos, conhecer gente famosa e adentrar círculos exclusivíssimos dos artistas mais adorados do mundo. a ex-groupie não concorda: nada que ela fez foi por obrigação coerção e ela sempre se sentiu bem cuidada e em meio a pessoas que ela podia confiar - "a única coisa é que eles tavam chapados o tempo todo, diz de barres (mas eu, particularmente, não acho que ela devia achar isso necessariamente ruim, né).


apesar de se sentir injustiçada e traída por cameron crowe, pamela agradece a tentativa do diretor de retratar as groupies de uma maneira mais sensível e menos objetificada - mas ainda se sente magoada ao pensar que o sucesso do filme de crowe permitiu que se solidificasse uma nova imagem da groupie na nossa cultura, mais humana, e que a protagonista dessa nova mudança não tenha sido ela. "nunca vou conseguir vender minha ideia de filme, agora" - ela diz sobre um misterioso roteiro que escreveu e nunca mostrou a ninguém.


e, vamo combinar: depois da kate hudson ter criado a inesquecível penny lane, em grande parte baseada nos relatos da própria pamela em seu livro "i'm with the band", fica difícil mesmo imaginar qualquer outra groupie cinematográfica que nos conquistaria desse jeito. pamela de barres pode ter sido quase famosa, mas penny lane é a mais famosa groupie que nunca existiu.

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