• Gisele Tronquini

Pandemia e moda - o impacto da AIDS na moda masculina

Muita gente tem se perguntado qual será o impacto da pandemia de COVID-19 na cultura. O pânico de uma doença vai impactar na forma como a gente se veste? Esse é o primeiro momento traumático que a minha geração (y, os famosos millenials) e a geração z passa, mas não faz tanto tempo assim uma epidemia impactou profundamente o mundo e a moda: a AIDS nos anos 80.


Você que me lê e tem pais (ou familiares homens no geral) por volta dos 50/60 anos já deve ter visto fotos deles com shorts que seriam considerados curtos demais hoje em dia. O que é bizarro se a gente pensar que essa geração é mais homofóbica e conservadora que a nossa?? (quer dizer, salvo bolsominions exceções). Bom, pra falar sobre isso a gente vai ter que voltar pra esse período muito louco da história que são os anos 60/70. Todo o zeitgeist de amor livre, liberdade e liberação sexual teve um impacto profundo na forma como os jovens encaravam o mundo. Foi inclusive o momento em que o jovem passou a ser o principal alvo da produção cultural, da moda e do consumo: esqueçam os anúncios dos anos 40 feitos para “senhoras” e “cavalheiros”, agora quem consumia era o jovem que clamava por liberdade, pelo fim da guerra e pelos direitos civis.


Mesmo aqui no Brasil, esse sentimento, essa vontade de se expressar chegou. Em uma entrevista pra BBC o Ney Matogrosso conta que nos anos 60 nas praias do Rio de Janeiro era comum ver mulheres fazendo topless, por exemplo. Com a ditadura militar muita coisa ficou mais difícil e as coisas regrediram bastante, mas mesmo assim a gente tem um momento muito marcante da televisão brasileira que é a banda Secos e Molhados se apresentando na TV Tupi em 74.

Os secos e molhados nos anos 70: a verdadeira definição de ousadia

Essa rebeldia da contracultura se expressa muito através da forma de se vestir também. Com o jovem em evidência, as roupas passam para uma tendência de marcar mais o corpo muito influenciada inclusive pela estética de über masculinização do movimento gay dos EUA.

E como o que acontece nos EUA influencia as pessoas no mundo todo, não era incomum a gente ver homens (até héteros) utilizando top cropped, por exemplo. Isso significa que a homofobia era menor? Evidentemente não, mas os gays, as lésbicas, os bissexuais, as travestis e transsexuais estavam dizendo estamos aqui e vocês não podem mais fingir que não. Existia um ar de novidade e não era através das roupas que as pessoas queriam se diferenciar dos homossexuais. Tem uma cena maravilhosa no filme do musical Hair em que um dos hippies (Woof) vai preso e está sendo entrevistado pelo psiquiatra da prisão, e ocorre o seguinte diálogo:


Psiquiatra da prisão: Você sente alguma atração sexual por homens?

Woof : Você está perguntando se eu sou homossexual ou algo do tipo?

Psiquiatra da prisão: Sim.

Woof : Bem, eu não chutaria o Mick Jagger pra fora da minha cama, mas eu não sou homossexual, não.

Esse trecho pra mim representa muito do espírito heterossexual dos jovens dos anos 70. Era o momento de experimentar coisas diferentes, e quanto mais diferente, melhor. Não era incomum ver insuspeitos machões como Burt Reynolds e Sean Connery em poses e looks sexy ou que hoje seriam impensáveis para o homem heterossexual.

Os elementos da masculinidade heteronormativa seguem presentes: o chapéu de cowboy, o cigarro, o bigode, a camiseta de futebol americano. Já composição e as poses hoje em dia seriam automaticamente taxadas de homoeróticas

Mesma lógica das bandas de rock como Manowar, Motley Crue ou Twisted Sister que nas músicas celebram uma masculinidade heteronormativa ao mesmo tempo em que usavam maquiagem, cabelos longos e muito, muito couro.

O Mötley Crüe no começo dos anos 80: compromisso com o couro

Até que com os anos 80, cai uma bomba sobre o mundo: um vírus desconhecido e fatal fazendo vítimas principalmente entre homens jovens.

Quem é mais velho já deve ter escutado ou se lembra de a AIDS ser conhecida como “câncer gay”. Isso não era apenas um sensacionalismo midiático, mas era a forma como oficialmente os médicos se referiam a AIDS no começo: Gay Related Immune Deficiency, ou imunodeficiência relacionada aos gays. O câncer fica por conta do sarcoma de Kaposi, um tipo de câncer de pele associado com a AIDS, que era uma das evidências visuais mais marcantes da doença.

Vocês podem imaginar o impacto que isso teve na vida das pessoas homo e bissexuais que sentiam o começo de uma era em que podiam ser elas mesmas. Não vou me estender aqui numa análise sobre se as pessoas foram empurradas de volta para o armário ou não, mas pense o que significa para a liberdade sexual de alguém ter sua sexualidade associada com uma doença. Você pode me dizer “nada a ver, eu cresci sabendo que sexo de qualquer tipo sem camisinha era inseguro”, mas aí é que tá: essas pessoas não cresceram, e nesse primeiro momento se acreditava que o grupo de risco era justamente as pessoas que estavam à margem, e LGBTs passaram a receber mais uma camada de preconceito. Elas lutaram para pode viver a própria sexualidade de forma mais livre, e agora ouviam que essa doença era o castigo que mereceram. Nessa compilação de trechos de uma entrevista com o Cazuza, ele fala um pouco sobre isso.



Sendo Nova York um dos primeiros epicentros da doença, o mundo da moda sofreu um baque muito grande: cabeleireiros, modelos, estilistas, maquiadores começaram a adoecer. Marcas menores desapareceram, jovens talentos faleceram e as marcas maiores passaram a recusar ou “preferir” mulheres durante um tempo. Nessa reportagem do NY Times de 1990 podemos ver que eles previam que a década de 90 seria a “década das mulheres na moda” (o que não se concretizou exatamente, mas isso é assunto para outro texto). Os homens da indústria da moda tinham que se submeter a testes de HIV para serem contratados e ainda assim ouvir que as empresas não estavam interessadas em contratar homens por conta do “fator AIDS”. A designer Virginia Estrada, irmã do falecido estilista Angel Estrada chegou a dizer “saúde passou a ser a coisa mais importante na moda, mais do que o corte das roupas”.

O impacto da AIDS na sociedade passou a se refletir também na moda e no comportamento. De repente passou a ser visualmente necessário diferenciar os homens heterossexuais dos perigosos homossexuais. Os desfiles primavera/verão de 1990 foram descritos como “suavemente tradicionais”, dando a tônica de que mesmo os designers jovens dos EUA passavam a preferir uma abordagem mais heteronormativa das roupas masculinas. Essa foi uma tendência que se concretizou nos anos seguintes e prosseguiu forte até pelo menos os anos 2010.

Seinfeld é uma das séries mais icônicas do estilo nova iorquino dos anos 90: sobriedade e conservadorismo

Hoje temos uma série de marcas pequenas e mesmo grandes lojas de departamento apostando nas roupas sem gênero, embora sigam uma tendência mais conservadora e menos extravagante do que o que vinha se desenhando nos anos 70. Mesmo nas roupas de bebê sem gênero predomina o cinza ao invés do colorido. Ainda hoje em dia, em que é possível uma pessoa soropositiva ter carga viral indetectável e viver bem, o estigma e o silêncio sobre a AIDS permanecem, assim como seu impacto na moda. É um trabalho para as futuras gerações que aos poucos isso seja revertido.

Será que isso vai ser possível no mundo pós covid-19? Como a ausência e o distanciamento vão se expressar no nosso modo de vestir? Isso só o tempo vai dizer. O que podemos esperar é que ao menos não seja o preconceito que prevaleça.


Para saber mais:

AIDS and the Fashion World: Industry Fears for Its Health

What's so Fashionable About HIV?

Essay: Homophobia, Aids and Fashion

How did the 1980s Aids crisis affect fashion?

'Dizem que não carrego a bandeira, mas a bandeira sou eu', diz Ney Matogrosso sobre movimento gay

In Men's Wear, The 1990's Have Arrived

1970s Men’s Fashion Ads You Won’t Be Able To Unsee

How Men Wore Shorts In The 1970s


Todas as imagens pertencem aos seus devidos donos.


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