• Filipe Chamy

Personagens negros nos quadrinhos: brevíssimas considerações panorâmicas

Os quadrinhos, sendo essa arte que teve suas bases constituídas em solo americano e europeu, naturalmente acostumou-se a usar tipos humanos inspirados nos homens da real life. E a população negra, que se não era majoritária na maior parte dessas localidades era e é ao menos bastante reconhecível e presente, nunca esteve ausente das páginas de jornais e revistas onde quadrinhos eram publicados.

Importa agora voltar nossa atenção aos retratos que foram feitos. Esquematizo, bem grosseiramente, a participação de personagens negros em três grandes ciclos: o primeiro, dos primórdios dos quadrinhos (últimas décadas do século XIX) até mais ou menos metade do século passado; o segundo, a outra metade; o terceiro, os primeiros anos deste novo século. Fases pautadas respectivamente pelo menosprezo, pela reconsideração e pela representatividade.


Neste texto vamos focar mais a etapa intermediária, mas enfoquemo-la diferenciando-a brevemente das duas outras, começando pela primeira: a do menosprezo. Os personagens negros nesta fase são bastante demarcados pelos traços da caricatura e do humor, sob um olhar condescendente dos autores de quadrinhos, virtualmente todos brancos. Não se trata de maldade inata ou especificamente preconceito: mais apropriado pensar que eram padrões narrativos e arquetípicos que não eram questionados, servindo bem ao gosto dominante, em sociedades muito estratificadas, cujo público, tanto consumidor quanto alvo, era branco em sua maior parte.

Algumas razões levam a acreditar que o preconceito não era a tônica nesses retratos que hoje temos como racistas, entre as quais aponto duas: os personagens não eram vilanizados ou viciosos, quase sempre sendo amigáveis e decentes; os demais personagens não eram menos caricaturizados e exagerados, fisicamente e nos seus comportamentos (salta à mente Reco-Reco, Bolão e Azeitona, de Luiz sá). Alguns autores que desenvolveram então obras e personagens que hoje temos como estereotipados retrataram-se em obras posteriores, demonstrando assim ter seguido anteriormente a “onda do momento” – cito os exemplos dos grandes humanistas Hergé e Will Eisner, que fizeram em seu passado retratos pouquíssimo justos dos personagens negros que acompanhavam seus heróis.

Não era estritamente uma questão de espaço: Eisner deu de escudeiro a seu icônico Spirit o simpático Ebony White, um grande estereótipo já do nome, e Lothar, o gigantesco sócio do mágico Mandrake de Lee Falk, possuía bastante destaque nas tramas e era notável por sua eficiência prestativa. Não esqueçamos também de Guran, o rei dos pigmeus grande aliado do Fantasma do mesmo Lee Falk. Registros que hoje temos como exóticos, com um considerável pé na estereotípica imagética “blackfaciana”, ainda que não propriamente maliciosos: nunca se verá o austero Fantasma tratando com desrespeito o sábio Guran...

Anos depois, com a diversificação do público consumidor, novos gostos culturais e, sobretudo, a eclosão de movimentos sociais e questionamentos políticos envolvendo em todo o mundo todo o mundo negro, em meio a noticiários que falavam de Mandela, Martin Luther King, Malcolm X, Rosa Parks e outros símbolos das várias lutas por igualdade racial, os quadrinhos foram mudando também. Os personagens negros nesse ínterim sofreram reformulações, ainda que nem sempre: o fanho vigia pirata Babá, da série do gaulês Asterix, criada por René Goscinny e Albert Uderzo no fim dos anos 1950, parecia saído das décadas anteriores, com seus grandes lábios vermelhos a ocuparem-lhe metade do rosto e seu vulto simiesco; mas, novamente, a ressalva contextual: reparemos que os outros personagens da série não possuem fenótipos mais nobres nem realistas...

Mas as coisas mudavam. Ainda que sem protagonismo, os personagens negros foram ganhando mais segurança, mais presença, seus traços se assemelhando mais aos dos outros personagens, suas histórias e dramas sendo mostradas sem cinismo humorístico ou crueldade anedótica. Os quadrinistas começaram a olhar para o lado e ver que os negros em redor não eram pessoas risíveis e, vejam só, possuíam vidas, sonhos e muitos modos distintos de ver e viver as coisas. Foi um movimento bonito e peculiar também porque sem tanta imposição externa; hoje é quase obrigatório colocar um personagem negro em uma turma de quadrinhos ou seriado de televisão, sob o risco de boicotes vários, porém há algumas décadas ainda deixavam a falta de representatividade passar incólume (não discutiremos aqui as questões referentes a ela, que são inúmeras e muitas vezes tortuosas). Para começar, um caso aqui nosso: a Turma do Pererê.

A Turma do Pererê foi o grande marco a instaurar no imaginário do consumidor de quadrinhos brasileiro a percepção de que era possível construir uma história com a convivência de personagens em tudo diferentes. Ziraldo não é uma pessoa muito confiável para comentários fora de sua área, mas no ofício é um artista brilhante e maior, que teve uma intuição maravilhosa: juntou uma porção considerável de tipos étnicos e figuras do nosso anedotário e compôs uma turma muito simpática que trouxe para o público a bela ilusão de que todas as cores (inclusive FLICTS?) podem ser amigas sem a forçada naturalidade do politicamente correto mercadológico que Mauricio de Sousa, nobre desbravador de terras já habitadas, só teve coragem para desenvolver décadas depois – e com aquele gosto fraudulento do remédio que nos empurram como um gostoso suco de groselha mas que sentimos um descarado composto químico edulcorado.

O líder da turma era um saci, ou o Saci-Pererê. Seu melhor amigo era o nativo de nossas terras e bravo índio da tribo dos Parakatokas Tininim. Compunham ainda a turma: o macaco Alan, a onça Galileu, o jabuti Moacir, o coelho Geraldinho e o tatu Pedro Vieira, além de uma pletora de coadjuvantes, como toda a turma rival e os adultos. O Saci, negríssimo, pintado talvez com nanquim, tinha apenas olhos e bocas brancos, além da inevitável carapuça vermelha; nada caricatural, uma criança simpática, bonitíssima, que convivia com seu amigo vermelho, que era por sua vez namorado de uma bela menina “cabocla”, Tuiuiú (o nome alternativo do pássaro Jaburu), marrom como ele (Ziraldo depois escreveria um livro sobre os “meninos marrons”, ele próprio se dizendo dessa cor), melhor amiga da paixão do Pererê, a Boneca.


Detenhamo-nos por fim na figura da Boneca. Filha de um fazendeiro da região, a menina chama-se Boneca de Piche – o que hoje é evitado, sendo mais comum vê-la referenciada apenas como Boneca –, nome quiçá tirado da canção famosa entoada por Carmen Miranda, que ela inclusive canta em uma história. A Boneca, assim como o Saci, é pretíssima inteira, e com um anexo muito pertinente: cabelos crespinhos. Também nada caricatural, uma encantadora figura de menina, desenhada com aprumo e sem maldade, e que vive com os outros todos aventuras de confusões, divertimentos e descobertas. A verdadeira democracia racial foi implantada nos anos 1960 na Mata do Fundão! Brasileiríssimas histórias com temas que brincam com política, sociedade e costumes.

Também nos anos sessenta uma das mais influentes e longevas tiras americanas, a Peanuts de Charles Schulz, apresentou Franklin, o primeiro membro negro da patota de Charlie Brown. Foi uma contribuição importante, e Franklin sempre foi muito lembrado em desenhos animados e demais produtos derivados da tira. Apontamos, não obstante, que Franklin, como a maior parte dos personagens negros coadjuvantes do período, não serviu para a discussão de questões raciais. O tratamento respeitoso trouxe duas decorrências, uma boa e outra negativa: não sendo problematizado o racialismo, Franklin foi um modelo avant la lettre de personagem de minoria integrada “organicamente” na história, sendo desenvolvido como uma criança igual a todas as outras com que convivia; porém, como Schulz mesmo verificou, Franklin tinha menos ansiedades e obsessões que as criaturas mais marcantes do quadrinho, o que acabou empalidecendo sua ação e reduzindo drasticamente suas aparições em décadas posteriores. Ainda assim, e para mostrar o atraso que ainda pauta o planeta, houve quem criticasse a simples participação de Franklin na mesma escola que os amigos brancos. Good grief! O horror da idiotia.

No resto do mundo, o mundo negro dava as caras, mas ainda não as cartas. Vejamos um exemplo da Bonelli Comics, a tradicional criadora italiana: o protagonista de seu fumetto dedicado à cena policial nova-iorquina, Nick Raider, tem como melhor amigo e parceiro um certo Marvin Brown (lembram-se de Ebony White? Os nomes...), engraçadíssimo e competentíssimo tira que brinca sempre com a estrutura racista em que está inserido, chamando os arrogantes manda-chuvas de bwana (“chefe”, em suaíli), desarmando com sua verve a empáfia da branquitude pedante.

Ainda nas páginas bonellianas, Emily (inspirada em Whoopi Goldberg) é a governanta de Júlia Kendall, também sem a luz do protagonismo mas com a luz da sabedoria prática, um oráculo caseiro sempre seguido pela dona do gibi, criminóloga sensível e dedicada. Também o granítico Tex Willer, após décadas de saudável vida editorial, não mais xinga os eventuais opositores negros com que depara (verdade seja dita, não parecia fora de lugar um “caubói” do século XIX ter laivos racistas). Ainda se há de conhecer um protagonista negro na Bonelli, uma empresa de posições usualmente bastante progressistas.

Enquanto isso, no Brasil Ziraldo e sua equipe voltam a atacar, e um dos principais amigos do Menino Maluquinho é um menino negro chamado Lúcio. Maluquinho é literalmente branco, possuindo quando muito uma corzinha nas bochechas, e todas as suas demais companhias, com exceção de Lúcio e do japonesinho Sugiro, também são inocentemente desbotados. Lúcio é filósofo, ponderado, fanático por livros e um contraponto sincero e honesto à despretensão anarquista de seu colega paneludo (um clássico aluno displicente como Patty Pimentinha, Calvin e tantas outras crianças desajustadas).

Períodos depois, em tempos de decadência editorial do personagem, quando ele perdeu a maior parte de sua energia espontânea e isso se refletiu na palidez de suas edições nas bancas e livrarias, criou-se uma personagem na linha anódina de Mauricio de Sousa, de nome Simone. Diferentemente de Lúcio, que é marrom, Simone é preta; seu design é positivo e agradável, contudo ainda não se sabe dizer a função da personagem. Queremos crer que não foi apenas a vontade de conquistar o público com o cinismo comercial do pai da Mônica, o que ficaria evidenciado pelas várias capas em que aparece Simone...

Outro caso bastante pertinente é o da série belga XIII, produzida pela dupla Jean Van Hamme e William Vance. Trata-se de uma fascinante e complexa história de espionagem, política e ação, que parte de pontos em comum com A identidade Bourne e todavia alça sozinha seguros voos próprios e cria uma mitologia específica, povoada de figuras inesquecíveis como o Coronel Amos, o Mangusto e o General Carrington. O talvez principal papel feminino da série é de Jones (não se conhece seu prenome), militar especializada, piloto de aviões e jatos, charmosa, doce, durona e confiável parceira de desventuras do protagonista, o desmemoriado Treze. Jones sofre muito preconceito de várias pessoas abomináveis ao longo dos episódios, suporta agressões, xingamentos e um grave drama pessoal. Nada disso impede que se instale, com muita justiça, como uma das mais memoráveis e significativas mulheres da bande dessinée franco-belga. Seria desmedido enxergar Jones como uma brilhante co-protagonista?

O que nos leva afinal ao que falei lá em cima (mas quem se lembra?): a fase da representatividade. Os personagens negros não querem apenas que lhes deem espaço; querem é conquistar eles mesmos novos espaços e sentidos. Quadrinhos com protagonismo preto, vigilância sobre estereótipos que causem ofensa e inescapável ocupação das pautas e narrativas são a ordem do dia. Surgem quadrinhos sobre África e negritude, estabelecem-se autores negros, temas políticos e tabus veem à tona, denúncias.

O que fica de tudo é o que a evolução demonstra: o que veio antes não se pode jogar fora, tampouco repetir. Analisar como tratamos arquétipos não nos deve incitar à destruição do que não coaduna com nossa sensibilidade contemporânea; mudemos as mentalidades espúrias, conservemos o patrimônio artístico que nos permite vislumbrar como as coisas foram vistas antigamente e o que as lutas nos trouxeram de positivo. Que Ebony White, Marvin Brown, Jones e a Boneca de Piche deem-se as mãos, pois são, como de resto todos nós, alegorias de uma humanidade que pode ser fraterna e amiga.

As histórias desses personagens e de muitos outros mais ainda serão contadas e valorizadas. E, como Linus disse a Franklin ao encontrá-lo pela primeira vez, diremos satisfeitos: “muito prazer em conhecê-los”.


P.S.: Os direitos das imagens pertencem a seus detentores.

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