• melody erlea

quem é essa garota?



quem é essa garota foi lançado em 1987, o ano em que eu nasci, mas eu assisti pela primeira vez em alguma sessão da tarde da vida, acho que quando tinha uns 8 anos.⠀

eu só entendi muito tempo depois que aquela moça do filme era a madonna - tipo A Madonna - mas o filme e a personagem ficaram para sempre marcados na mente de pequena melzinha.⠀


esse visu da madonna é TUDO: a sobrancelha castanha contrastando com os olhos azuis e o cabelo platinado, o batom vermelho, o luquinho punk-inspired que a madonna incorporou tão bem ao pop, não tem nada aí que não tenha me inspirado profundamente.⠀

nikki finn, interpretada por madonna, acabou de sair da cadeia depois de ser falsamente acusada de assassinato - ela é tipo uma versão oitentista do arquétipo marylin monroe: uma loira fogosa, com voz aguda, que se faz de sonsa e fala bobagens sem parar para confundir e manipular basicamente todo mundo.⠀


eu lembrava, das minhas distantes memórias infantis, de um filme com uma personagem diferente de todas as mulheres que eu conhecia, e radicalmente oposta a tudo que eu havia aprendido (lá nos meus vividos 8 anos de idade) sobre ser mulher - ela era opinionada e sincera, nem um pouco delicada, falava alto e sem medir palavras, não tentava agradar ninguém e era insistente em conseguir o que queria.⠀

ela não é tão poderosa e interessante quanto eu lembrava - meio infantil, caricata, como se falar fino e andar saltitando fosse o que diferencia uma mulher livre de uma "esposa de yuppie", mas não sei se isso é só porque a madonna, com todo respeito a essa deusa do universo, atua mal pacarai, ou se a personagem foi mal escrita mesmo (como é de se esperar dos roteiristas de filme enlatado dos anos 80).⠀

no geral, o filme passa em todos meus requisitos: roteiro sem pé nem cabeça, resoluções clichês, figurino maravilhoso, e trilha sonora perfeita (todinha da própria madonna, que pra nossa sorte é muito melhor como cantora pop do que como atriz).



uma análise muito boa do filme foi feita em 1987, assim que o filme foi lançado, pelo crítico de cinema jonathan rosenbaum. rosenbaum escreveu sobre cinema desde o fim da década de 60 e em 1987 estava começando sua carreira no chicago reader, onde ele escreveu sobre cinema até 2008. o texto dele é extremamente atencioso aos detalhes e - tendo ele trabalhado com isso desde os anos 60 e estando, portanto, muito mais próximo de diversas referências que eu nem imaginaria pesquisar - esclarece minuciosamente a construção da personagem nikki finn e sua importância pra estabelecer a marca pessoal da própria madonna.


foi lendo esse texto que eu aprendi que "who's that girl" é na verdade um remake do filme "essa pequena é uma parada",de 1972, com barbra streisend no papel da protagonista, que por sua vez já era um remake do filme "levada da breca", de 1938, que estrelava katherine hepburn.


para muito além dessas referências primárias, rosenbaum destrincha diversas outras referências pop no filme todo - do signficado dos posters do marlon brando e elvis que nikki tem em sua cela na prisão, passando pela escolha de fazê-la se interessar romanticamente por um yuppie, sem esquecer de detalhes como a pequena floresta amazônica numa cobertura em manhatan (risível perspectiva norte-americana da selva exótica, com direito a mulher das cavernas ninfomaníaca e tudo), jonathan rosenbaum sabe que cada uma das cenas de quem é essa garota foi copiada e colada de algum outro filme clássico de hollywood - e nomeia um por um. sabe os músicos e produtores musicais que criam músicas novas sampleando dezenas de outras? foi lendo uma crítica sobre who's that girl que eu entendi que o cinema faz igualzinho.



jonathan também analisa detalhadamente todas as referências femininas usadas pra construir a personalidade da protagonista - a moça rebelde mas engraçada, sem noção mas esperta, de voz fina e sotaque terrivelmente carregado: além da marilyn monroe a gente adiciona um pouco de mae west, uma pitada de betty boop, a rebeldia do brando - tudo pra, de acordo com jonathan, não conseguir formar uma personagem que fosse completa.


achei delicado da parte dele não comentar em momento algum sobre a atuação de madonna - que é sofrível - embora ele indique muitas vezes que o filme é um amontoado de doideiras e personagens absurdos que garantem que a cantora seja, sempre, o grande Ás do filme. e ele conclui, por fim, que isso funciona mais ou menos como os dançarinos em seus shows: estão lá apenas pra emoldurar a figura de madonna que, no fim das contas, se segura completamente sozinha, independente e radiante.


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