• melody erlea

rita lee, a brasuca-gringa que inventou o rock brasileiro



li esses dias uma entrevista com rita lee. a mulher tava dizendo coisas tão modernas, tão relevantes, sem um único pingo de anacronismo, com tanto humor e tanto poder de observação crítico, que só descobri depois de ler o artigo todo que na verdade aquela entrevista era de 1981, com geraldo mayrink, não algo recente como eu tava pensando.


umas semanas atrás comentaram que eu só tenho referências internacionais - não é verdade; em mais de 1400 posts tem moda, música e arte brasileira à beça por aqui. mas eu sou do tipo rita lee: sai da frente que eu quero é comer a música popular brasileira.



a ideia de que a cultura brasileira existe num lugar isolado e especial, alheio a influências gringas, é uma falácia na qual muita gente ama acreditar. não existe cultura brasileira pura, e rita lee traduziu isso melhor do que ninguém. uma pária desde o início de sua carreira, criticada por ser yankee, por tocar guitarra, esse terrível instrumento não-brasileiro, por ter sido seduzida pelo rock gringo, por trazer bom humor e sátira a suas letras, por ter olho azul e sobrenome em inglês, por não se dobrar ao cânone da música popular brasileira e conseguir sucesso hegemônico sem realmente participar, em sua carreira solo, de nenhum grande movimento musical do país.


rita lee sempre fez o que quis, ovelha negra que era, estrangeira aqui como em qualquer lugar (e assim como fê pessoa, cheia de personalidades individuais que possuem seus devidos nomes e podem brotar no meio de uma conversa com a cantora) e verdadeira praticante dos ensinamentos antropofágicos de oswald de andrade: ela engoliu a música brasileira e a regurgitou com uns riffs de guitarra e umas letras tirando sarro de tudo.


rita lee fez tudo que eu queria ter feito: nos anos 60 entrou na boutique biba, a mais descolada da carnaby street, em londres, e roubou um par de botas, que usava na época de sua banda titti frutti. o vestido de noiva que usava em apresentações dos mutantes foi roubado do figurino da personagem de sua amiga leila diniz na novela o sheik de agadir, de 1966. ela se recusou a ser lançada na gringa porque não queria ser uma caricatura brasuca exótica, à la carmem miranda. seu macacão da capa do disco lança perfume (álbum que fez da cantora o que ela é hoje) foi depois copiado por elis regina, num momento histórico em que as duas cantoras estabeleciam amizade e companheirismo. elis era conhecida por fazer bullying com todas as cantoras que alcançavam algum sucesso, inclusive com rita lee inicialmente, até perceber que a roqueira não ameaçava seu posto de cantora-queridinha-da-mpb.


rita lee nunca foi cantora de mpb e nunca quis ser queridinha de nada. acabou se tornando a maior figura do rock nacional. a gringa mais brasileira, ou a brasileira mais gringa, que já existiu, e que mudou a história da nossa música e cultura, o tempo todo escutando um sonzinho elerizante em inglês.


viva rita lee, viva o antropofagismo, viva a arte brasileira!

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