• melody erlea

roald dahl, o autor inesperado


quem me segue faz tempo sabe que minha cachorra chama matilda não é à toa: o nome vem da personagem matilda, interpretada por mara wilson no filme de 1996 dirigido por danny devito, que também faz o papel do pai trambiqueiro e desonesto da protagonista. mais do que isso, a escolha do nome vem do livro original, escrito por roald dahl e publicado em 1988.


a história da garotinha que amava ler e tinha poderes mágicos me encantou imediatamente, e muitos anos depois, já adulta, eu li a autobiografia da mara wilson - um livro cheio de dor e traumas, mas também sensibilidade, humor, e uma visão mordaz de hollywood através do olhar de uma ex-atriz mirim. foi justamente quando eu estava lendo o capítulo em que mara contava sobre sua experiência filmando matilda que, inadvertidamente, uma cã apareceu na minha porta.


mas muito além de nomear minha cachorra e arrebatar minha infância com um hit literário

atrás do outro - a fábrica de chocolates, o pêssego gigante, as bruxas, o sr raposo, e tantos outros livros maravihosos que não viraram blockbusters hollywoodianos - roald dahl me conquistou sem volta quando, na juventude, eu li a maravilhosa coletânea de contos fantásticos para adultos, recheada de elementos tão ingleses: ironia e sarcasmo, paisagens bucólicas e nubladas, casas com sótão, casacos de pele, casamentos falidos, fazendeiros brutos, e um humor tão incrivelmente sutil, misturado com os enredos absurdos e imprevisíveis daquelas histórias. o volume, chamado "the completely unexpected tales", era exatamente o que o título prometia: uma coleção de histórias completamente inesperadas.


eu fiquei tão maravilhada com a literatura adulta de dahl que, na época, tentei descobrir outros escritos para adultos do autor, mas achei algo completamente diferente - o primeiro livro dele, de 1943, escrito e publicado enquanto ele servia na força aérea real do reino unido: GREMLINS!.


gremlins, gente. mas não se enganem, não eram os mesmos gremlins da sessão da tarde, aqueles que não podem ser alimentados após a meia noite. lá na década de 40, os gremlins eram uma lenda urbana da força aérea, um serzinho folclórico que sabotava os aviões e equipamentos da força aérea quando não havia pessoas por perto.



a primeira versão da história foi escrita por dahl a pedido de washington dc, com o objetivo de criar propaganda de guerra que fizesse o público americano se interessar e empatizar com os forças britânicas. um oficial leu a história e a encaminhou para seu amigo walt disney, que convidou rald dahl para uma visita aos estúdios e aproveitou o momento para garantir os direitos de publicação do livro e, futuramente, um longa metragem de animação. a animação ficou no papel: a disney não conseguia garantir direitos exclusivos à figura mitológica e de tradição oral do gremlin, e muitas outras editoras se aproveitaram da popularidade para publicar suas próprias histórias sobre os bichinhos.



mas a gente sabe que a história não acabou aí: lá nos anos 80 algum produtor decidiu que as criaturinhas mereciam um filme e redesenhou o enredo para que fosse atraente às crianças oitentistas: adicionou um personagem asiático levemente racista, meio assustador meio profético, como oráculo misterioso e distribuidor de gremlins para crianças desavisadas, e finalizou a criação adicionando violência, sangue e gore a um filme infantil - e BUM! sucesso instantâneo e lugar garantido nas listas dos filmes infantis que viraram clássicos-cult-trash.


em 2020, uma rara 1a edição do livro gremlins foi leiloada - era uma de apenas 50 cópias que o autor fez na época para uso pessoal.


roald dahl, um dos meu escritores favoritos, criador da matilda, dos gremlins e de tantos outros personagens deliciosos, autor dos contos mais inesperados do mundo, teria feito 106 anos ontem.


ler é bom d+!

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