• melody erlea

sobre patti smith, as coisas que a gente tem, e ser professora


aconteceu o seguinte:

quando eu entrei no metrô voltando da pós, percebi que o broche que devia estar pregado na minha jaqueta tinha sumido. me bateu uma melancolia imediata, que o broche tinha sido da minha bisavó, minha vó tinha dado pra mim numa caixinha acolchoada de veludo, e como eu podia ser tão descuidada, o broche dura 60 anos e na primeira vez que eu uso eu perco; ao mesmo tempo me deu uma tristeza contrária, de me importar tanto com um objeto que não significa nada, que tava esquecido numa gaveta no meu quarto fazia anos.

e enquanto eu lia just kids no metrô, a patti smith descrevendo o cuidado com que ela empacotou um vestido e uns acessórios pra que o robert mapplethorpe a fotografasse, e mais tarde como ela escolheu a camisa para a foto da capa do disco horses, e a jaqueta com o broche de cavalinho que ela tinha ganhado anos antes, e toda a significância de pequenos objetos que ela descreve durante o livro todo e, porra, patti smith jamais teria perdido um broche da bisavó dela.

ao mesmo tempo, ela não dava valor aos objetos em si, mas a momentos que eles representavam, a memória que vinha com eles; e que memória de valor esse broche perdido tinha pra mim? o broche mesmo não me lembrava nada, mas a simples ideia de "coisa da minha vó" é bem importante pra mim. as coisas da minha vó que eu uso em mim, que eu visto no meu corpo, são os elementos que eu escolhi para representar minha identidade pessoal visual. são esses broches e anéis e colares que retratam, esteticamente, minha individualidade, e esse foi um signo que eu escolhi, ao contrário de coisas como minha voz ou meus trejeitos quando eu falo ou o tamanho dos meus pés.

quando eu era criança eu pirava loucamente numa coleção de cartões postais, papéis de carta e envelopes antigos que minha vó tinha. ela deixava eu admirar todos por horas, e uma das minhas grandes esperanças pro futuro era que um dia eu ia herdá-los. já os herdei todos, obviamente depois de já ter perdido o interesse, então também já os perdi todos, e se esses papéis de carta saíram do meu espectro de coisas valiosas por que eu tava me importando tanto com um broche? qual é a grande diferença?

sei lá.

sei que esses dias já me peguei pensando sobre o poder das coisas que a gente tem.

fiz uma atividade com minhas turmas de kids 1 (eles tão aprendendo sobre partes da casa e o que tem nelas: the sofa is in the living room, the fridge is in the kitchen, essas paradas) que me fez perceber umas coisas.

essa semana, além dos cômodos da casa e o que eles contêm, eu e meus aluninhos passamos prum conceito mais pessoal. então a gente estudou o que tinha dentro do cupboard que fica no bedroom. e aí eles fizeram o cupboard dos sonhos - eu disse: " put your favourite objects in the cupboard!" e foi aí que eu notei o valor que eles, de 6 a 7 anos, dão pra coisas. não faltou cupboard com boneca monster high, lalaloopsie, hot wheels, tablet, cellphone, computer e, é claro, a disney. não a disney metafórica da fantasia e da imaginação, dos mundos mágicos; a disney mesmo, parque de diversões, com brinquedos de pegar fila e brinquedos de comprar.

no meu cupboard, que eu tava fazendo junto com eles, eu fui desenhando, um por um, eles mesmos. desenhei minhas cachorras também. e minha cama, porque né, se me obrigassem a casar aqui e agora, eu casaria com minha cama. point being: no meu cupboard dos sonhos não tinha nenhum broche de bisavó, nem anel de vó, nem sapato, nem nada disso.

nos cupboards dos meus aluninhos também tinha mommy, family, bichos de estimação diversos, mas sempre junto com coisas. (mas nenhuma cama! quanto tempo demora pra gente perceber a importância da cama nas nossas vidas?) e somos nós, os adultos, que tão cedo, plantamos nas cabecinhas deles que coisas são importantes. que o que vale são as coisas que a gente tem.

uma parte dessas crianças vai crescer e aprender por conta própria outros valores. mas muitos deles vão continuar acreditando no valor das coisas pra sempre. e até eu, que consigo - e quero - articular toda essa reflexão, fico boladíssima quando noto que perdi um broche.

eu não quero concluir esse pensamento com a ideia de que objetos materiais são do mal. eles não são. o que é do mal é a relação que temos com eles, a dependência que criamos, e como nós, inadvertidamente, ensinamos isso tão cedo pras crianças.

então separei os cupboards que achei mais bonitos pra fechar esse texto.

esse é do vinícius:


eu não achei bonito só porque tem eu nele. várias crianças me desenharam, mas sempre no meio de brinquedos e outras coisas. o vinícius desenhos só a mim, e no espaço em que eu co-habito com ele: nossa sala de aula. (dá pra ver o computador, a lousa, minha cadeira e a porta). ele desenhou o nosso pequeno universo, meu e dele. não quero me estender em análises, mas: significativo, né?

e esse aqui é do henrique:


também um universo muito significativo. outras crianças desenharam os amigos também, mas só o henrique os colocou numa situação que só pode existir quando ele e os amigos suspendem a realidade pontual e criam algo juntos. (ele me explicou: aqui sou eu na lua, aqui é o thiago morto esmagado pelo foguete mas ele sobreviveu na verdade, aqui é o tomás explodindo e aqui é o joão rindo porque ele ainda tá vivo mesmo com a explosão).

(pra quem tiver se comovido com o broche: ele não tinha caído da jaqueta, eu que tinha olhado na lapela errada.)


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esse texto foi escrito originalmente em abril de 2014, muito antes de eu sequer começar a pensar em minimalismo, em consumo minimalista e, claro, ter a ideia desse blog. mas é muito louco, né, como as ideias surgem pequenas e crescem - eu obviamente já estava incomodada com como eu consumia e me relacionava com "coisas", só precisei de mais uns aninhos pra entender por completo e começar a tentar resolver esse meu incômodo.