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suspensão da descrença fashion: elegia a iris apfel




uma das minhas memórias de moda mais marcantes, lá da adolescência - da qual lembro igual personagem de filme lembrando sua juventude nos anos 60, sabe, uma lembrança com textura, de imagens nitidamente tatuadas no meu cérebro - era a edição especial da caras que saía nas semanas de moda, com textos de regina guerreiro sobre cada desfile e fotos enoooormes (a revista era maior do que o padrão, e a sensação de manusear aquele revistão também tá pra sempre fixado na memória muscular das minhas mãos).


os textos da regina tornaram a experiência de moda especialmente relacionável pra mim: ela tinha um bom humor e uma ironia de quem se permite não levar tudo aquilo muito a sério ao mesmo tempo que é uma especialista e estudiosa do assunto. a linguagem exagerada, as expressões em inglês, as onomatopéias e exclamações, a sensação constante de estar lendo alguém que claramente estava se divertindo quando escrevia aqueles textos... não tinha ninguém em mais revista nenhuma escrevendo daquele jeito - inteligente, porém escrachado, rebuscado, porém bem-humorado, hiperbólico, irreverente, mas cheio de referências e repertório.



tinha um quê de descolamento da realidade? com certeza, mas isso era parte do appeal, sabe? ajudava a transformar aquele espetáculo de roupas caríssimas e, muitas vezes, absurdas, em algo mais leve, mais escapista. enquanto eu estava imersa naquelas fotos e naqueles textos, a sensação era a mesma de estar lendo um livro incrível de literatura: permitia que eu vivesse vidas alternativas, em universos diferentes da comum realidade. suspensão da descrença et al.


muito se discute, hoje, sobre as consequências negativas da nossa exposição aos padrões de moda e beleza dos anos 2000. magreza exarcebada, todo mundo branco, fino e comprido, cabelos lisos, as listas de in e out, de must haves e de must NOT haves, as regras todas... e eu entendo a importância da conversa (ainda mais em tempos de revival y2k) e compreendo os efeitos que isso tudo pode ter tido na cabeça de muitas adolescentes.


mas, pra mim, nada disso importava muito, não eram esses aspectos que meu cérebro registrava. e eu sei que estou suficientemente no padrão para não ser tão afetada pelas expectativas estéticas das revistas e mídia mainstream, mas não acho que seja apenas isso.


quando eu lia essas revistas, da capricho à vogue, quando eu olhava, longamente e repetidamente, os editoriais de moda, o que me pegava, o que me encantava, era o trabalho criativo que aqueles looks apresentavam. eu não tinha consciência, na adolescência, do que era que eu gostava tanto nas fotos e roupas de editoriais e passarelas (e, posteriormente, de fotos das gêmeas olsene da nicole richie em fotologs, de blogs de looks do dia de moças do mundo todo ou de fotógrafos de streetstyle...), mas hoje consigo, mais ou menos, descrever.


claro que houve, durante um curto período da adolescência, uma fase em que eu achava que precisava emular, em mim, aqueles corpos, cabelos, peles e maquiagens. mas isso foi só enquanto aquelas revistas eram minha única referência. conforme fui aumentando meu repertório, mergulhando nas histórias, músicas e estéticas dos movimentos de contracultura, consumindo bandas e filmes velhos, consumindo cultura, música, cinema, ficou cada vez mais claro qual era minha relação com aquelas imagens de roupas, de looks, de figurinos, de moda.


do visual de debbie harry e siouxsie sioux ao editorial de moda da capricho, passando por figurinos de séries e filmes, clipes e premiações da mtv, looks que me chamavam atenção na vida real... o que a moda faz comigo é querer ser como essas pessoas. não no sentido de querer ser igual, fisicamente, a quem eu vejo nessas fotos e vídeos - mas no sentido de querer me destacar do mesmo jeito que essas pessoas se destacam. cada uma do seu jeito, cada uma com seu devido público alvo e propósito na mensagem, mas todas captando nossa atenção, se descolando do background, despertando nosso interesse.


quando eu via essas imagens, eu me sentia vivendo as histórias que as roupas queriam contar, e, mais importante, sentia que, de alguma maneira, eu podia e devia tentar criar minha própria narrativa com as minhas. nunca foi, pra mim, sobre reproduzir um padrão. sempre foi sobre expressar algo que só existe dentro de mim.


e isso, me parece, é estilo - estilo verdadeiro, pessoal e único, que existe para além de regras de elegância, tendências estéticas, técnicas de consultoria de estilo e padronização de gostos: a necessidade de contar algum tipo de história pessoal cada vez que a gente se veste. a urgência de tentar viver uma aventura, criar uma revolução, viajar no tempo - só no simples ato de nos vestir. o instinto de nos divertir, nos acolher, e nos recusar a nos sentir mal quando a gente escolhe e veste uma roupa. a vontade de jamais se adequar para o conforto dos outros.



iris apfel entendia tudo isso. iris apfel é uma das pessoas que eu vi em imagens de moda e - diferente, maximalista, gritante - me inspirou a querer expressar algo de mim mesma nas minhas roupas. ajuda que, em alguns aspectos, ela me lembre minha vó - as duas contemporâneas, foram expostas às mesmas tendências em juventude e tinham algumas escolhas em comum (óculos oversized, estampas - embora mais contidas no caso da minha vó -, a escolha por acessórios únicos, duráveis e descolados de modismos)...


iris, que nem com moda trabalhava, trouxe pro mundo da moda aquele respiro aliviado que a gente dá depois de uma gargalhada: olhar pra escolhas estéticas dela é imediatamente sorrir. é constantemente ser lembrado de que originalidade tá na repetição, mas na repetição intencional, na repetição de elementos que ninguém mais escolheu repetir. é definitivamente entender que roupas contam histórias, e é melhor ser o escritor, no comando, do que o narrador, manipulado por uma força invisível e sem nenhum poder sobre a história que conta.


estilo é sobre suspender a descrença e se permitir criar universos. e disso iris apfel entendia.



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