• melody erlea

teachers - o lado b da seção da tarde


eu tava navegando a interwebs a procura da 1ª temporada da série teachers, uma comédia de 2016. não achei, mas esbarrei messe filme de 1984 chamado teachers que baixei sem saber o que era, só pelo orgulho de ter um filme sobre a minha profissão.


numa das últimas newsletters do jorge wakabara ele fala que mergulhar nas coisas do passado não é um prazer porque nos faz voltar a "tempos melhores". nem existe isso aí de tempos melhores e a gente nem vive tempo o suficiente pra ter base de comparação. eu concordo com wakabara: olhar pro passado (mesmo o recente) é incrível porque existe TANTA coisa que foi produzida que a gente não conhece, tem tanta coisa boa pra ser descoberta... não faz sentido ficar só nos trending topics das redes sociais.


teachers foi uma descoberta dessas pra mim: um filme de 84, um estilo narrativo completamente diferente da tendência netflix do audiovisual atual, um grupo de personagens interessantes porque completamente fora do padrão atual ao qual estamos acostumados, e uma proposta diferente do que costumamos ver - o filme se passa inteirinho numa escola de ensino médio mas não é o típico de filme high school americano.

o filme estrela nick nolte no papel de alex, o professor de estudos sociais que, em sua juventude, foi engajado e interessado por mudanças reais mas atualmente apenas sobrevive aos dias escolares - e em encontros do tipo onde-night-stand finge trabalhar como piloto de avião. lecionar faz isso com a gente, faz a gente sentir vergonha, às vezes, do que faz (e vamo combinar que piloto de avião soa mais interessante e sexy mesmo). ao redor de alex, todo um grupo de professores e funcionários que parecem desencontrados demais em suas próprias vidas adultas pra estar liderando um corpo discente inteiro e gerenciando um prédio escolar.


e o legal de teachers é precisamente isso: não é sobre os adolescente, nem sobre a dinâmica social dos alunos, nem sobre o que eles pensam e fazem quando tão em detenção ou cabulando aula (embora a narrativa siga a história de 2 adolescentes os quais o professor alex tenta ajudar - uma evidência de que sua antiga paixão juvenil por realmente tentar mudar a vida dos alunos não está totalmente enterrada e esquecida). o filme é sobre os adultos - professores, principalmente, mas também secretárias, coordenadores, orientadores, todas as pessoas que trabalham naquele ambiente e precisam lidar com as consequências das escolhas de todos aqueles adolescentes. desnecessário dizer que outros funcionários, os que não estão diretamente relacionados ao trabalho acadêmico, como pessoal da limpeza, da cozinha, segurança não fazem parte da narrativa; ainda estão invisíveis como se também não estivessem ativamente naquele espaço com o resto do corpo doscente e discente.


ainda assim, foi curioso ver esse lado b do filme de colegial. imagina saber o que os professores tavam pensando, dizendo e sentindo enquanto o ferris bueller curtia seu dia adoidado.


quando a gente assiste teachers entende, finalmente, porque os diretores das escolas dos filmes do john hughes eram tão amargurados e escrotos: a escola pública padrão americana nos anos 80 e 90 era um caos completo, ou pelo menos é o que parece pelo registros fictícios cinematográficos. bem difícil amar educação naquelas condições.

por outro lado, a sala dos professores no filme tem mesa de ping pong, sofás e cadeiras onde cabem todos sem ninguém ter que ficar estranhamente de pé, e professores fumando altos cigarros dentro da sala fechada dentro da escola. ah, o inesquecível século XX, néam? mas essa sala dos professores dos sonhos eu nunca vi nem comi, só ouço falar (todas as salas de professor que eu frequentei continham um sofá - ocupado por professor dormindo - e 2 computadores tão lentos quanto o windows 95 que minha família tinha em casa quando eu tinha 10 anos. e olha que eu trabalhei em escola particular durante toda minha carreira).


ainda assim, o retrato das pessoas na sala é incrível: tem o clássico professor dormindo no sofá (costuma ser eu nas escolas onde trabalho), o professor esquerdista falando sobre greves e sindicatos, o professor no canto lendo jornal tentando ignorar tudo que tá acontecendo ao redor (também eu, nos momentos em que tô acordada), enfim, uma atmosfera muito fiel à realidade.

mais incrível foi encontrar: um jovem morgan freeman de mullets, fazendo papel de advogado de defesa da escola - que tá sendo processada por um ex-aluno que se formou mas não sabe ler nem escrever -, ralph macchio, o eterno karatê kid, no papel do aluno-problema, e uma laura dern teen fofa e com luquinhos arrasadores, no papel da adolescente que tem um caso com o professor de educação física (hómi lixo).


a cena do professor de estudos sociais chegando cedinho na escola de ressaca - camisa havaiana estilo big lebowski (anos antes do big lebowski ser eternizado por jeff bridges - óculos escuros e apenas querendo ser deixado em paz é muito familiar. o freddie mercury tocando ao fundo é bem verossímel também.

a cereja no bolo, claro, são os luquinhos anos 80 da vida real, pensados pra vestir pessoas comuns em seu dia-a-dia escolar e profissional. não é o estereótipo deslumbrado fashion que pensamos quando pensamos em anos 80, mas é ainda mais inspirador porque representa a moda rotineira, de gente como a gente.


pega esses visus da laura dern, toda trabalhada no all jeans:

e o karatê kid com suas camadas de jeans e camurça, sempre com a lapela levantada porque ele é ReBeLdE:

e lisa, a advogada de acusação que representa o ex-aluno analfabeto, usa bastante de vermelho nas cenas em que ela aparece em caráter profissional, inclusive nesse primeiro visu com gravata que eu a-mei. e a atriz jobeth williamns me lembra, de leve, uma jovem susan sarandon. deve ser o cabelo.

a advogada usa cores mais delicadas e claras em seus momentos pessoais, inclusive um xadrez em tons pastel que ela usa num date. a mesma paleta e estampa reaparecem na saia de uma professora figurante na cena seguinte (essa paleta de cores em xadrez é provavelmente alguma tendência daquele ano):

aliás, xadrez, tweed, blazers, tricôs, coletes... toda essa estética meio twin peaks (só que menos exagerada e caricata) tá em peso nos figurinos dos professores:

inclusive nessa saia midi INCRÍVEL que abre na lateral pra mostrar um plissado colorido (presta atenção na professora andando atrás dos personagens em foco na cena):

esses looks contrastam muito com os visus dos alunos, que retratam a moda jovem da década, com camiseta de banda, cores e brincadeiras com proporções. pega essa camiseta do daryll hall and john oates:

e essa blusa de pompons da aluna no fundo da sala!

sem contar a duplinha punk no canto dessa sala de aula:

os luquinhos (tem muito mais da onde esses saíram!) fazem valer aguentar até o final mamão-com-açucar do filme, meio clichê mas esperado pelo tom todo da história - e de qualquer jeito, o resto do filme foge muito às expectativas então tudo bem se no fim optaram por uma coisa meio assim inspiradora, afinal as pessoas tem que ter algum incentivo pra seguir na carreira de professor e se tem algo que a gente aprende, mesmo sem saber se é totalmente verdade, é que são os alunos que fazem valer a pena. e que o professor se fode mas se fode por amor, que é a coisa mais importante do universo.


né?


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