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  • Foto do escritormelody erlea

uma jaqueta de couro para múltiplas vidas



a jaqueta de couro perfeita é o evento de uma vida. a jaqueta certa, quando a gente encontra, é nossa segunda pele pelo resto da vida. uma jaqueta de couro só está correta na sua vida se ela se torna integrante essencial das suas aventuras. ela precisa te acompanhar, se moldar ao seu corpo, carregar em si todas as marcas de uma vida vivida. a jaqueta de couro certa é uma extensão da personalidade de quem a estiver vestindo.


a jaqueta de couro permanece numa vida que é constantemente impermanente. não tô nem falando só de estilo, que se desenvolve e muda com a gente, mas tem isso também: a jaqueta de couro certa se mantém imutável representante sartorial da nossa persona. mas para muito além disso - o match certo entre jaqueta e humano é uma conexão que atravessa fases da vida, que veste nosso amor mas também nosso ódio, que nos abriga do mundo lá fora enquanto permite que a gente passeie por ele.


uma jaqueta é ao mesmo tempo uma capa da invisibilidade e uma capa de super herói.


no 1o ensaio do livro “o casaco de marx”, de peter stallybrass, ele conta da jaqueta que herdou de seu melhor amigo, recém falecido. ele descreve como nunca tinha pensado longamente sobre roupas - sobre o que elas são, o que carregam, o que representam pra nós como humanidade. dezenas de milhares de anos de um animal usando roupas, e a gente mal para pra pensar no absurdo que é a gente ter tornado pano e linha em parte fundamental da nossa existência, nossa segunda natureza. stallybrass, que estudava economia, marxismo e colonialismo, considerava o tópico das vestimentas apenas um subproduto dos grandes e importantes assuntos que pesquisava.


até vestir a jaqueta de seu melhor amigo falecido. uma jaqueta que ele assistiu seu amigo comprar. uma jaqueta que ele acompanhou, ao longo dos anos, enquanto marcas de uso iam aparecendo. uma jaqueta que viveu a vida de seu amigo junto com ele, enquanto o vestia. stallybrass herdou o casaco, e o usou numa palestra. e de repente se encontrou paralisado. tomado pela presença física de seu amigo, que ele sentia no cheiro da jaqueta, nos vincos das mangas, no forro rasgado, nas manchas da barra e até na etiqueta da marca italiana que seu amigo tanto amava.


principalmente no cheiro. o cheio das axilas, o cheiro do interior da jaqueta, o cheiro do tecido. naquele momento, descreve stallybrass, ele estava tomado pela presença de seu amigo. ele vestia seu amigo, e seu amigo o vestia. ele trazia seu amigo de volta à vida, ao dar uma nova vida para a jaqueta dele.


desconfie profundamente de quem não cria vínculos com sua jaqueta favorita. desconfie de quem veste jaquetas imaculadas, sem marcas, sem dobras, sem presença. desconfie de quem não viva suas roupas.


desconfie de quem não tem uma jaqueta preferida.

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