• melody erlea

uma ode ao primeiro disco de britney e uma pequena história do pop

já parou pra pensar que um dos discos pop mais icônicos dos anos 90 tem uma canção-título que é basicamente um hino ao relacionamento tóxico?

desde que saiu todo aquele bafafá sobre a britney ser uma prisioneira fiquei pensando no que dizer. britney spears foi minha companheira de início de adolescência e, junto com os smiths, me ensinou inglês (minhas referências nunca foram muito coerentes), mas toda a história me parecia pessoal demais pra eu simplesmente sair escrevendo sobre. o rolê todo é ela ter sido obrigada a viver essa vida pública sem ter poder sobre suas próprias decisões, e ter tido cada segundo de seus conflitos intímos destrinchados em público pra todo mundo ver. se eu adicionasse ao volume de gente publicando essa história, relembrando momentos tristes da vida dela, repostando imagens de todos os seus pontos mais baixos, pra tentar provar que era isso que tinha sido feito com ela todo esse tempo, eu não estaria, tão apenas, reproduzindo esse comportamente e, também, transformando a vida dela em conteúdo, em coisa a ser consumida, em hashtag a ser procurada, em produto, em coisa? o que eu menos quero é objetificar a britney mais do que eu já objetifiquei a vida toda.


e considerando todas as outras coisas acontecendo nesse mundão de meudeuz, tão ou mais horríveis quanto o que acontece com britney spears, sobre as quais não escrevi pois não me sinto informada o suficiente pra me posicionar, por que é que eu me sentiria informada sobre a situação da britney? porque o instagram me contou? que loucura.


mas a verdade é que tenho pensado na britney - muito. tenho pensado no começo da carreira dela, em como aquele primeiro disco me tomou por completo; eu, do alto dos meus 12 anos, só queria me apaixonar do jeito que aquelas músicas faziam a paixão parecer. hoje, 20 anos depois, ainda considero o disco uma obra prima pop, mas não consigo deixar de me perguntar sobre o hit ...baby one more time.


cês sabiam que as reticências no começo do nome da canção foram pra substituir o restante da frase (HIT ME baby one more time) porque os produtores tavam preocupados com a conotação de violência doméstica que o título carregava?


não que isso os tenha impedido de vestir uma jovem de 17 anos com um uniforme de estudante colegial super sexualizado e fazê-la cantar sobre como faria qualquer coisa para que seu amor a aceitasse de volta, qualquer coisa mesmo, e pedir pra que ele decida como ele quer que o relacionamento funcione. "hit me baby one more time" pode ser traduzido de diversas maneiras, tipo "me liga, gatinho, mais uma vez" ou "me dê um toque de novo" ou, claro, "me bate mais uma vez". diz a lenda que essa música foi escrita, originalmente, pra tlc gravar, mas elas recusaram precisamente por causa dessa letra.


cê imagina se uma letra dessa ia passar batida em 2020? a questão é que é a própria ambiguidade dessa letra que a deixa tão envolvente - aliada à incrível musicalidade do pop dramático do fim dos anos 90, criação do produtor max martin - um sueco que tinha uma banda de glam metal e foi "descoberto" por dennis pop, um produtor musical, lá na suécia, que o colocou dentro de um estúdio pra compor e produzir música pop.


dennis pop já tava produzindo alguns dos melhores hits de ~música dançante~ na europa, apostando em letras em inglês, refrão repetitivo e uma ~batida energizante~. max martin elevou a arte de dennis pop a um nível ainda mais incrível. seus primeiros hits, em parceria com dennis pop, foram os singles da banda sueca ace of base. me diz se você consegue noemar alguma outra banda sueca (abba não vale). isso é quão bons produtores esses caras eram. daí então max martin decolou e virou o maior ídolo pop do mundo, basicamente inventando a música pop mainstream do jeito que a conhecemos. a receita é uma linha de baixo poderosa, bateria e percussão que batem como nosso coração e samples de rifs de rock, funk, soul repetidos e distorcidos até virarem uma música pop. obviamente, na música como na culinária, saber a receita não é garantia de sucesso: tem o ingrediente especial que acho que é o que a gente chama de talento.


se você gosta de música pop, de brit, backstreet boys e n'sync a taylor swift, katy perry, kesha... e mais um monte de gente aí no meio... se você teve sua infância e adolescência moldada pelo disk mtv... então você é fã do max martin. pega só uma palhinha de todos os hits que ele escreveu e que se tornaram eternos:

curiosamente, a banda de glam metal dele tem pouquíssimos ouvintes até hoje, o que mostra, mais ou menos, que ele só consegue escrever música boa quando elas envolvem muita produção e um rosto lindo cantando? não sei, só sei que o cara é bom e a banda de metal, até onde metal me interessa, não é das piores de escutar nem de olhar. e, fato curioso: max martin disse pra lorde que seu hit royals tinha sido composto errado (de acordo com aquele receita dele que ele inventou) e que a canção green light da cantora precisava ser encurtada (aí eu lembro que sometimes da britney spears tem mais de 4 minutos e penso Q?). tudo bem que um cara que escreve hits pro n'sync não é exatamente a pessoa que escolheríamos pra escrever uma canção da lorde, né, o que prova também que nem sempre a gente precisa se manter na receita pra alcançar sucesso comercial.


a verdade é que max martin ainda é um dos produtores de maior sucesso do mundo pop e engatilhou a carreira da britney spears como ela aconteceu - ele foi produtor de todos os grandes hits dela e escreveu metade das músicas do primeiro disco. e eu, como qualquer outra pessoa, nunca superei i'm a slave 4u (escrita e produzida pelo pharell) e quero tirar a roupa quando toxic (escrita e produzida por um outro time de produtores suecos) toca. mas nada nada nada supera o primeiro disco da britney spears.


...baby one more time é o supra-sumo do pop chiclete e o ápice dos vocais da britney spears em toda sua carreira. é um disco de amor, não de sexo, ou fama, ou affairs. é um disco de amor pra dançar, pra abraçar o travesseiro, pra acariciar o poster do leonardo dicaprio na época de titanic enquanto escuta. é um disco de amor que nos leva por todas as camadas da paixão adolescente, interpretadas por uma cantora que, ainda, podia cantar usando sua voz real e não estava presa a uma dinâmica de negócio, família e finanças que a destruiu.


ao mesmo que esse disco moldou a imagem e a marca da britney pro mundo - encabeçada, principalmente, pela voz nasal infantilizada que virou sua marca registrada - ele foi o começo do fim. britney, uma cantora treinada na broadway desde a infância, com uma voz que alcançava notas baixas e profundas e tinha essa característica nasal única, que se tornava mais explícita quando ela cantava de um jeito mais forçado, exagerando na nasalização e nos tons mais altos. esse esforço garantiu que ela se destacasse no mundo pop, mas também prejudicou sua voz natural - com a qual ela é proibida contratualmente de cantar atualmente. é por isso que ela costuma dublar suas canções em shows - além de sua voz ter nitidamente se deteriorado, era impossível para ela segurar durante todo um show a voz nasal, que a deixa sem ar e a impede de cantar e dançar ao mesmo tempo.


esse não é um post sobre como max martin destruiu a voz da britney, mas fica aqui pros curiosos uma timeline da britney ao vivo: aqui ela com 10 anos, uma voz com um alcance gigante, que ela projeta poderosamente. aqui, quando ela fazia parte do clube do mickey (a apresentação é playback, mas olha a diferença dessa gravação para a voz que costumamos ouvir nos discos dela). esse vídeo traz uma série de apresentações ao vivo da cantora até 1997 - o ano em que ela assinou o contrato com a jive. seu disco de estréia só seria lançado em 99, mas existe no youtube essa apresentação dela em 98 em singapura, em que ela canta por cima das faixas do disco, e dá pra ter uma noção de como ela soava naturalmente. em 2000, na época de oops, i did it again, ela ainda titubeava entre sua voz natural e a voz infatil que havia virado sua marca, claramente sem conseguir mandar bem nem em uma nem em outra e se rendendo ao playback quando a dança frenética começa. de lá pra cá aconteceu tudo que aconteceu até a internet se comover com o movimento #freebritney, mas em 1999 o mundo inteiro tava se encantando por essa garota e a gente não tinha ideia do que tava por vir.


...baby one more time virou sensação instantânea - as adolescentes amavam, a crítica odiava, muita gente tentou ignorar, mas ele garantiu seu lugar na história do pop, do vídeo clipe, da mtv, da música, etc.


o disco tem canções produzidas por max martin e canções de outros produtores e compositores. é um bem bolado das várias vertentes de pop cliclete da época, mas foram as canções de martin que se tornaram inesquecíveis. elas traziam aquele je ne sais quoi que fez da britney um ícone, e isso era o dedinho de martin, moldando a música e a voz de britney à perfeição. a própria britney - assim como kelly clarkson, que também trabalhou com martin - dizia que o produtor era exigente nas gravações e a fazia repetir os versos até que estivessem exatamente da maneira que ele queria, o que nem sempre era um processo fácil. mas o fato de martin ter ganhado o bolão dos hits não significa que não haja outras pérolas nesse baú de tesouros.

se o disco começa com um estranho amor submisso cantado por uma adolescente de umbigo de fora na escola, a segunda música do disco, (you drive me) crazy se redime totalmente: produzida por max martin e um time de produtores suecos, é a melhor música dançante do disco, muito superior a canção de abertura. sem contar o clipe, que é um dos melhores da carreira da brit - ela tá linda, feliz, saudável, os figurinos são lindos, o cabelo e a make tão perfeitos, a paleta de cor é um resumo representativo do que foi a mtv nos anos 90, tem a participação da melissa joan heart e conta a história de uma jovem proletária indo se divertir numa sexta à noite. a versão do clipe é um remix muito melhor do que a versão do disco e traz a atmosfera perfeita do que era ser fã de britney em 1999.


sometimes, a terceira canção do disco e outro hit de max martin, foi a que me apresentou ao universo da britney. foi a primeira música dela que eu ouvi, assistindo ao clipe na mtv, foi a primeira música que eu aprendi a cantar do começo ao fim em inglês entendendo o que dizia, e foi a primeira vez que eu entendi que havia poucas coisas mais importantes no mundo do que umbigo de fora. hoje em dia eu acho ela um pouco longa demais mas a letra ainda fala 100% diretamente com meu coração. o clipe segue lindo, cheio de brancos e azuis super saturados e amigos gostosos que sabem dançar super bem se divertindo numa praia limpa e vazia - qualquer clipe que tenha entrado em all the small things é um clipe a ser respeitado e, coincidentemente, vários dos clipes parodiados são de hits do max martin, risos.


depois de sometimes vem soda pop, uma canção com participação do cantor de reggae mikey bassie, que devia ter sido lançada como single, é boa demais. ela é uma versão pop teen inocente do que gwen stefani faria com o no doubt em hey baby, de 2001, e considerando o hype do ska nos estados unidos nos anos 90, era bem capaz da canção ter sido um estouro. mas ela não era de max martin e tem uma pegada bem diferente dos outros hits da britney. pega essa apresentação ao vivo (pula pra 14min20s pra ir direto pra soda pop):

repara que no começo ela faz uma brinks de não saber onde estão os dançarinos aí eles aparecem e ela fala "opa apareceram"... ela continuou com esse charminho nos seus shows por muito tempo, mas em algum momento tiraram soda pop do set list e colocaram a brinks em outra música.


depois vem born to make you happy, uma das piores músicas da carreira da brit acompanhada de um dos piores clipes. o clipe nunca foi oficialmente lançado no brasil, então a mtv não podia passar por mais que as pessoas votassem nele pro disk. lembro de uma vez que a sarah passou o clipe porque ele tinha ficado em terceiro lugar mas foi uma coisa assim CLANDESTINA e eu lembro de pensar por que raios as pessoas querem assistir essa merda.


from the bottom of my broken heart eu também acho meio ruim, mas lembro que fez um certo sucesso. gosto da que vem depois dela, i will be there, com um violãozinho contagiante no começo e uma batidinha genérica pop (não do max martin). das baladas do disco, a canção seguinte i will still love you é uma das que eu mais gosto - um dueto com um cantor desconhecido, don phillip, que abriu alguns dos primeiros shows da britney e anos depois apareceu nas audições do x factor pra ser julgado por ela, to.do.es.tra.ga.do. em seguida vem deep in my heart, produzida por um grupo de suecos que fez a canção ficar i.gual.zi.nha aos hits suecos do começo da década de 90, inclusive o ace of base do dennis pop.

é quando o disco se encaminha pro fim que a coisa fica boa novamente: thinking about you, a balada meio reggaezêra funkzinha, escrita por mikey bassie (o mesmo cantor da dançante com pegada jamaicana soda pop), é uma delicinha e é um dos melhores usos da voz da britney. tem umas harmonias lindas, a britney cantou livremente sem ter que fazer a vozinha anasalada e o resultado é lindo de escutar. imagina como teria sido diferente se, ao invés de deixarem o max martin cada vez mais responsável pelas músicas dela, tivessem deixado o mikey bassie e o eric foster white (o outro produtor do disco, compôs e produziu quase metade do disco, e a outra metade ficou nas mãos do max). seria outra britney hoje, seria outra história, seriam outras músicas, outros discos. mas, pohan, seria lindo.


depois dela vem email my heart, a última baladona romântica do disco, que eu particularmente amo: ela começa com uma introdução no piano, de repente entra a bateria bem dramática e a britney cantando com sua mais profunda e natural voz. sem contar que toda a temática do email tinha um super apelo pras adolscentes da época (eu inclusa).

e aí, nos finalmentes, uma das mellhores canções de encerramento de disco pop (tá no meu top 5 com certeza) e um dos melhores covers do pop, a versão da britney pra música the beat goes on, escrita por eric foster white e sonny bono e imortalizada na voz de cher. foi essa música que substituiu soda pop em seus shows - e era antes de cantar the beat goes on que brit passou a fazer a brincadeirinha de não saber onde os dançarinos estão que eu comentei antes. uma menina iniciante que me grava um cover de cher não é uma menina que não sabe cantar, né? e ela cantava a música ao vivo, de verdade verdadeira, tipo nesse vídeo aí em cima de 1999.


eu não tenho uma grande conclusão pra tudo isso além de afirmar que ...baby one more time é uma obra-prima. pra garantir que você vai sair daqui totalmente obcecado com a carreira musical da britney, deixo uma pequena seleção de alguns de seus melhores momentos ao vivo no começo da carreira:


  1. i got that boom boom ao vivo na onyx tour - uma britney feliz, se apresentando com amor, dançando como se não houvesse amanhã e se divertindo no palco.

  2. uma das melhores apresentações da história da mtv, britney e n'sync em 99

  3. esse show totalmente sem orçamento mas com tanto AMOR, sabe? amo os dançarinos, amo a cortina que alguém fica segurando, amo o microfone que fica escorregando da cara dela, amo tudo

  4. esse pout pourri de baby one more time e crazy no billboard music awars de 99

tem britney spears pra quarentena toda aí, se divirtam agora, me agradeçam depois.









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