• melody erlea

o vestido de union jack de dua lipa é uma aula de história



a única coisa que eu assisti do brit awards foram os incríveis stories das irmãs haim (tão maravilhosas que talvez eu tenha que trazê-las pro feed do instagram em breve), mas na minha timeline cheia de instas de história da moda, a roupa de bandeira union jack da dua lipa não para de aparecer desde ontem.


e eu sei que eu disse que eu nunca mais queria falar de roupa, mas pohannnnn! eu tava com esse assunto das roupas de bandeira da grã-bretanha encaminhado desde que vi um vídeo da geri ano passado contando que o seu vestido de bandeira britânica, usado também no brit awards em 1997, foi feito de pano de prato.



não tô nem brincando: a geri pegou o vestido gucci que a figurinista separou pra ela, levou pra casa e pediu pra irmã dela costurar o pano de prato estampado com a union jack que acharam na cozinha. a figurinista quase teve um treco - desde os anos 70, com o crescimento de uma juventude de extrema direita na grã-bretanha, era comum que essa bandeira e suas cores fossem associadas ao nacionalismo, à xenofobia e ao fascismo. de jeito nenhum que ela ia deixar a geri subir no palco do brit awards vestida daquele jeito.



geri deu de ombros, falou "as spice girls aceitam toda e qualquer pessoa", e mandou colocar um símbolo da paz na parte de trás do vestido - o que foi perfeito porque elas abriam o show de costas no palco. então a primeira coisa que o público viu foi um vestido preto com o símbolo da paz, e aí PÁ elas viraram de frente e a ginger spice fez história. no dia seguinte fotos dela estampavam as capas de todos os jornais,



incrivelmente, também em 1997, bowie lançou seu álbum earthling, em cuja capa ele aparecia vestindo um sobretudo estampado, justamente, com uma versão desconstruída da union jack, feito pelo estilista alexander mqueen. bowie gostou tanto da roupa que usou nos shows da turnê do disco e em sua apresentação no VH1 awards. estava oficializado: o símbolo havia sido reapropriado e afastado de seus significados nacionalistas.


não é à toa que foi justamente nos anos 90, lado-a-lado com a volta da tendência da bandeira britânica, que houve uma explosão musical no reino unido. era a época de bandas como oasis e blur, o ápice do britpop e, obviamente, o reinado das spice girls.


a última vez em que os símbolos nacionais britânicos haviam sido tendência estética entre os jovens foi, também, quando a música inglesa estava dominando o mundo: nos anos 60, com a popularização de bandas pop como os beatles, o alcance da british invasion (o movimento de tomada do rock por bandas inglesas na década de 60) e o crescimento da estética da subcultura mod, que misturava símbolos pop e símbolos cult.



essa apreciação do jovem alternativo dos anos 60 pelas formas e cores da bandeira britância não era à toa: alguns dos precursores da pop art estavam no reino unido, tipo o jasper jones (com quem andy warhol aprendeu a fazer arte) e o peter blake, dois pintores que gostavam de brincar com símbolos nacionais em suas pinturas - não apenas a bandeira do reino unido, mas também outros símbolos nacionais como o medalhão em forma de alvo que era usado para identificar os aviões militares ingleses.


a esvaziação de signficados de símbolos militares interessava à essa juventude proletária sessentista, e o medalhão-alvo descontextualizado, assim como as formas e cores da union jack, se tornaram símbolos mod. bandas como the who usaram e abusaram da estética.


foi durante os anos 60 e 70, também, que os imigrantes jamaicanos passaram a influenciar a cultura jovem na inglaterra. o encontro dos mods com os rude boys jamaicanos cria uma nova estética: os skinheads. ao mesmo tempo, a grave instabilidade econômica e desemprego em alta fazem com que boa parte dos jovens da classe trabalhadora se alinhem com ideologias xenófobas de extrema direita - é nessa época, nas décadas de 70 e 80, que a bandeira da grã-bretanha passa a ser associada nacionalismo e fascismo.


foi nas mãos de geri e bowie que a estampa retornou ao lado correto da força, e me parece ideal que dua lipa homageie, bem nesse momento tenebroso da humanidade, a história de moda e de música que essas formas e cores carregam: uma bandeira que se desvencilhou da seus significado político e virou um símbolo cultural de uma juventude tentando reestabelecer como eles iriam se relacionar com música, moda, e o espaço urbano que ocupavam.



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