• melody erlea

villanelle, eve polastri e carolyn: 3 fashion heroes que você não vai ver na passarela

"você tem que ver!" "PRECISA postar sobre essa série!" "você vai morrerrrr com os looks". recebi algumas vezes mensagens de gente me recomendando killing eve, série de tv baseada na série de livros codenome vilanelle, de luke jennings. despertou minha curiosidade o suficiente pra eu colocar a série numa longa lista de coisas pra assistir, mas não o suficiente pra eu ir efetivamente procurar qualéqueé dessa killing eve.


foi uns meses atrás, zapeando por manchetes aleatórias na interwebs, que uma me chamou atenção: era um artigo que dizia que a gente devia manter segredo dessa série, uma coisa pra ficar entre mulheres. que killing eve era um negócio tão precioso mas tão precioso, que não merecia ser compartilhado nem com os boys que compartilham nossas camas.


pohannnn, aí o negócio esquentou! uma série que a gente não quer nem dividir com os meninos? um grupinho privado e particular que compartilha um mesmo segredo? aaaaaa se tem uma coisa que eu AMO é um clubinho secreto, e eu simplesmente tinha que entrar nesse.

quando as pessoas me disseram que os looks dessa série eram incríveis, elas não fizeram jus à realidade. killing eve me fez, depois de um bom tempo sem ser influenciada por personagens fictícias a ponto de querer um guarda-roupa completamente novo, reavaliar cada uma das roupa que eu possuo. mas mais que isso: killing eve é uma série com o figurino perfeito.


honestamente, a história não é lá essas coisas: a típica corrida de gato-e-rato entre criminoso notório e detetive, bem prenda-me se for capaz mas melhor porque é 100% ficção e 100% protagonizado por mulheres que nos fazem esquecer que quase não há homens na tela.


a verdade é que 90% do tempo eu tava ansiosa na ponta da cadeira - pra saber o que a villanelle ia vestir na próxima cena. mais aflitivo do que cada um dos inventivos e tenebrosos assassinatos pensados e colocados em prática por villanelle foi ver a vilã terminar a primeira temporada e começar a segunda usando a mesma roupa, que pra piorar tudo era apenas a combinação monótona de uma calça skinny e um suéter bege. se existe uma roupa que representa o conceito de anti-clímax, é essa.


mas villanelle é mais do que um rosto lindo e um guarda-roupa perfeito. se há um personagem-tendência bem atual que personifica a palavra transformação é ela.


vilanelle - ou oksana astankova, como foi batizada ao nascer - tem uma clara evolução ao longo das três primeiras temporadas. suas próprias ações e o peso de fazer o que faz por tanto tempo recaem sobre ela. se a princípio ela nos é apresentada como uma assassina fria com um humor mórbido (lembra quando ela se joga no sofá e finge que se matou pra que o chefe a encontre, e então dá um susto nele?), estrategista de assassinatos que são ao mesmo tempo medonhos e ironicamente planejados, aos poucos conhecemos suas motivações e os traumas que a fizeram ser como é. seu chefe, konstantin vasiliev, inicialmente um contato de trabalho sem aparente ligação emocional com sua funcionária no fim se mostra genuinamente preocupado com ela a ponto de tentar salvar sua vida.

seus figurinos já foram comentados à exaustão e são das poucas coisas que valem a pena na tv ultimamente - a ponto de eu reassistir a série uma segunda e uma terceira vez avançando apenas para as cenas em que villanelle aparece com seus looks absurdos e perfeitos.


essa é uma mulher que não tá usando as roupas que a gente esperaria pra fazer o job que ela faz. essa também é uma mulher que se veste do jeito que ela quer, não para mostrar mas para viver. lembra quando uma moça pergunta se pode tirar uma foto dela pro instagram porque o look dela tá tão lindo?

taí um look rosa da villanelle que foi completamente obscurecido e fadado a andar nas sombras de seu irmão mais velho, mais popular e mais rico: o vestido de tule da molly goddard que ela usa pra ir, forçadamente, à terapia quando konstantin tem a impressão de que ela não tá bem.

tudo nesse visu é icônico: a escolha do vestido pra ir à terapia, a cor do vestido, o fato dele ter bolsos, como ele fica no corpo dela e se espalha quando senta no sofá do terapeuta (digo isso porque a molly goddard lançou várias versões desse vestido - mais longos, mais curtos, mas cheios, mais magros... phoebe de gaye, figurinista da 1ª temporada, escolheu o modelo perfeito), o underwear preto cuja alcinha aparece e as botas pretas com recortes e fivelas douradas da balenciaga, que existem em versão copycat em muitos preços (eu mesma tenho uma da zara que comprei no enjoei, mas a minha é de plataforma. ainda aguardo pela versão de segunda mão acessível da de solado baixo que me encontrará quando o destino assim escolher. ou isso ou uma doc martens no precinho, vamos ver o que aparece primeiro. mas divago). inclusive, já que estamos nesse assunto: repare que villanelle está quase sempre usando botas pesadas, chiques e confortáveis, mesmo nos visus mais dramáticos e elaborados. do terninho ao vestido de luto-luxo: sempre botas nos pés.


villanelle dress, da marca the vampire's wife

a real é que o guarda-roupa de villanelle é apenas mais uma faceta incrível de uma personagem que muda, se aprofunda e nos mostra suas curiosas vulnerabilidades aos poucos, pra gente ir se interessando cada vez mais por ela. seu gosto musical muda e nos apresenta outros lados de sua construção (de erik satie e os hinos nacionais da 1ª temporada, que remetem a frieza, calma e ordem sarcástica de villanelle no início, a roxette, blondie e elton john - que ela houve por causa de seu breve encontro com sua mãe sua família). fora que ela tem um poster do soundgarden no apartamento dela, o que me faz ter ainda mais vontade de saber o que rola no spotify dessa moça. (inclusive o fato de ela usar um vestido da marca da esposa do nick cave e ter esse vestido batizado de villanelle dress me faz pensar se não rolaria um nick cave nessa playlist-villanelle, hein)

se você leu tudo isso deve estar pensando que eu sou mesmo louca pelo figurino da oksana, mas a verdade é que - embora ele seja colorido, chamativo - não é esse figurino que realmente me encanta na série.


a detetive eve polastri é uma mulher loucamente pensada e escrita. ao contrário de viallenelle, de quem conhecemos os pormenores íntimos como gosto musical e traumas de infância, eve permanece um mistério. li recentemente que falta gente não-branca na equipe de roteiristas e, ainda que a personagem interpretada por sandra oh seja de origem coreana (apesar do sobrenome polonês, que ela recebeu de seu marido niko polastri), não há escritores com descendência coreana pra ajudar a escrever a personagem.


diz-se que a falta de diversidade na equipe é o que resultou numa vilã tão detalhadamente pensada e que evolui sutil mas relevantemente - enquanto a heroína eve polastri começa a série uma mulher fria, fechada, metódica e obcecada por uma serial killer, e termina a série do mesmo jeito, só que sem marido, sem amigos e sem emprego. enquanto temos um visliumbre real da vida de vilanelle, sabemos pouquíssimo sobre eve - sua família, sua criação, sua infância, acontecimentos marcantes de sua infância e juventude - pra entendermos porque ela age como age.


é por isso que o figurino de eve é tão maravilhoso: ele é nosso melhor vislumbre sobre essa mulher, quem ela é, como ela pensa. phoebe de gaye explica o guarda-roupa de eve: é um figurino criado pra uma mulher que está pouco se fodendo pra sua aparência, e que nem sequer sabe se ela tá bem ou mal vestida. ela não se importa, e é bem complicado pensar num guarda-roupa pra essa mulher. não ajudava o fato de sandra oh ser, na vida real, uma mulher bem vestida que sempre parecia elegante, nã importa quão mal a figurinista a vestia.

de gaye solucionou esses problemas com algimas fórmulas: camisas de linho, elegantes e clássicas mas que amassam fácil e deixavam a personagem com a aparência desgrenhada, afinal essa mulher não tem tempo pra passar roupa. calças sem botões, com elástico na cintura, porque eve tá sempre correndo, sempre trampando, sem tempo irmão pra abotoar suas calças - precisa de conforto e praticidade. e, meus itens favoritos da série inteira, os casacos.


os casacos de eve são toda uma maravilha. a princípio eles não são maus casacos - eve demonstra preferência por modelos atemporais e clássicos, como o trench coat, mas parece sempre estar usando um ou dois tamanhos a mais do que seria sua numeração. eles parecem estar sempre pendurados nela, desmilinguidos, mal ajustados. o que faz sentido porque eve jamais iria a uma costureira ter suas roupas ajustadas e parece alguém que escolheria casacos maiores pra poder colocar muitas camadas de roupa por dentro e seguir confortável. se tem algo que eve polastri sabe fazer, é o famoso look cebola. regatas por baixo de camisas por baixo de suéteres por baixo de capas de chuva, essa mulher gosta de camadas.


tem duas cenas em que ela se arruma - quando veste um vestido de seda - a perfeição das perfeições - que villanelle enviou pra ela e quando põe um vestido azul que comprou online pra ir a um evento no trabalho do marido. por cima do vestido: um trench coat grande demais e sem forma. isso é quão ousada eve consegue ser. sem contar que - nas cenas em que está arrumada ou nas cenas em que está vestida para o dia-a-dia - nunca há um acabamento no look: um acessório da hora, um sapato legal, uma make poderosa.... o único poder de eve está em seus cabelos, ondas perfeitas que jorram de sua cabeça harmoniosamente e completamente hidratadas.


o figurino de eve é propositalmente desinteressante, pra que a atuação e o rosto de sandra oh se destacassem como prioridade. nada distrai eve de seu trabalho, e nada podia nos distrair disso também.

outra personagem cujo figurino é harmônico e impecável é carolyn martens, interpretada por fiona shaw. carolyn é discreta nas cores e modelagens - passeia por tons neutros, com a eventual estampa gráfica - mas demonstra ousadia e sensualidade em detalhes. suas roupas são ajustadas à perfeição, moldando seu corpo e exalando segurança, que se confirma com os decotes insinuantes de suas camisas de seda, os acessórios temáticos que completam seus looks (tipo o chapéu russo quando ela vai pra rússia) e os casacos chiques e modernos que escolhe como terceira-peça e que nunca tira - a ideia é que ela sempre pareça pronta para ir a algum lugar, sempre com pressa, sempre por aqui temporariamente por há afazeres muitos em tantos outros lugares.

pega esse styling

carolyn complementa seus looks com sapatos baixos italianos - confortáveis e eternamente elegantes. principamente, silenciosos, discretos: assim como suas roupas, impressionam pela escolha de material e modelagem de altíssima qualidade, elegância e conforto, e não pela comoção que causam.


carolyn é o opost polar das recorrentes escolhas de villanelle - embora em comum as duas tenham a preferência por sapatos baixos, práticos, cofortáveis e duráveis. o que me faz perguntar: o que eve tá usando nos pés? provavelmente algum sapato confortável e que não precise ser amarrado, mas nada tão infantil como crocs. e já que entramos nesse assunto: quer momento mais #somostodosvillanelle quanto aquela cena em que ela tem que enfiar os pés em crocs alheios usados?

uma série tão absurda, mas tão real. sabe?

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