• melody erlea

violência performativa e boinas: os símbolos dos panteras negras


os anos 60 foram uma loucura muito maior do que qualquer texto foto vídeo ou canção nascida de uma viagem transcedental com as melhores drogas já fabricadas pelo ser humano conseguirá expressar. só estando lá mesmo pra realmente compreender a multitude de ideias revoluções contradições e experiências acontecendo simultaneamente.


a discussão sobre violência, armas e guerra tava fervendo nessa época nos estados unidos: por um lado, tínhamos a guerra do vietnam acontecendo e, como resposta, o movimento flower power que pregava a paz e o fim das armas. mas aí, ao mesmo tempo, manifestações de toda a natureza da comunidade negra lutando por seus direitos causavam conflitos físicos, violência, e mais pressão a uma briga que ainda não acabou: a luta pelo fim da hegemonia branca e por direitos civis.


durante o movimento pelos direitos civis norte-americanos rolou todo tipo de estratégia. martin luther king ficou conhecido por seu approach não-violento e de diálogo. pessoas como rosa parks e crazy dion diamond entraram pra história com suas demonstrações pacíficas que encaminharam grandes mudanças. mas quem ficou marcado na nossa memória estética pop pra todo o sempre foram, sem dúvida, os membros do partido dos panteras negras.


os panteras negras ganharam notoriedade por sua atitude direta e violenta. enquanto martin luther king discursava sua retórica de pastor para comover e ampliar o alcance do movimento, os panteras negros, liderados por huye newton e bobby seale, criavam situações de confronto propositais pra que suas ações fossem lembradas como símbolos ao serem revisitadas.

para acompanhar os confrontos violentos com forças policiais ou grupos militantes de direita, o partido assumiu um uniforme: óculos de sol, calças, botas e jaquetas de couro pretas, camisa azul-bebê (ou um suéter preto de gola alta) e uma boina preta. o visual era impressionante - imagina um grupo de gente vestida de preto e acessórizada por cintos e bandoliers que eram cartuchos para balas, cujas armas estavam também penduradas em cintos e ombros.

o caráter performático das ações do partido servia para atrair jovens negros para a causa - ao contrário dos mais velhos, acostumados a outras maneiras de declarar seu lugar. hábitos como arrumar a família prestigiosamente aos domingos para ir a igreja, conseguir empregos de confiança que denotavam honestidade, organização e prestatividade, falar usando os dialetos e sotaques considerados a norma - atitudes que desmistificavam a imagem da pessoa negra como arruaceira, não-confiável e incivilizada.


esse tipo de performatividade que parece se submeter às dinâmicas do opressor teve resultados, mas nos anos 60 os jovens queriam mais mudanças mais rápido - a mensagem precisava ser forte e transmitir a ideia de um mundo que mudaria, mesmo que à força. é aí que entra a violência performática dos panteras negras e o grande apelo que isso tem sobre os jovens, que queriam se sentir agindo de maneira ativa e fazendo parte da mudança.


mas não foi só a juventude negra que foi influenciada pela estética performática dos panteras negras - eles basicamente criaram a estética-assinatura de uma década. pensa anos 70, o cara cool do bairro, com sua calça jeans levemente boca de sino, camisa com lapelas, cabelo natural e óculos aviador. esse cara pode ser branco ou negro, ele é um clássico e a gente já viu ele em filmes, fotos, séries. isso é influência direta dos panteras negras que, lutando pela liberdade dos cidadãos negros, causaram mudanças nos padrões estéticos do maisntream.

that 70's show

o cabelo natural defendido pelos panteras negras - e representado na forma do black power usado por quase todos os membros - rapidamente virou tendência, o que significava que tinha gente (homem inclusive) fazendo permanente pra conseguir o look. gente branca com cabelo encaracolado também passou a adotar o penteado, coisa que poucos anos antes seria um escândalo.


é claro que a utilização dos elementos estéticos dos panteras negras por pessoas de fora do movimento era criticada e discutida - o caráter político do black power, por exemplo, parecia estar sendo esquecido pelas dinâmicas de moda e tendência. e, para além das tendências da moda jovem nos anos 70, o visual all black dos panteras negras e o caráter performático acabou virando sinônimo de outros grupos conhecidos por serem performáticos, como jovens estudantes de teatro.

doug funny

é comum, nos estados unidos, que alunos de teatro se vistam de preto - é uma cor neutra, que permite que o ator passeie por personagens sem conflito de figurino - mas o pacote completo que acabou virando um clichê-de-filme-de-high-school, com boina e atitude blasé, é herança dos panteras.

daria

e é essa boina, que me parece hoje em dia um símbolo tão caricato de intelectualidade, que é um dos elementos mais importantes e significativos do uniforme dos panteras negras. huey e bobby decidiram pela boina pois a consideravam um símbolo da luta de classes.


há registros de coberturas de cabeça tipo boinas desde a idade de bronze, mas elas aparecem mais ou menos do jeito que a gente as conhece hoje por volta de 400 a.C. suas mais importantes características são seu material e seu design: feltro, um tecido acessível que justifica a popularidade do chapéu, e um molde simples de fazer. rápida e barata, a peça rapidamente se espalhou pelo mundo.


no século XIV a boina já era must have nas classes mais pobres - pintores e fazendeiros principalmente. pega esse auto retrato de rembrant usando boina:

foi no século XIX que a boina passou a ter simbologias militares: os soldados franceses de elite usavam boinas azuis. a boina preta seguia sendo um item do guarda-roupa dos camponeses, até os anos 20 quando coco chanel decidiu que o legal era usar, precisamente, as roupas masculinas dos mais diversos trabalhadores. a gente sabe que ela gostava das listras e das calças dos marinheiros, e a boina também entrou na dança das tendências. é por isso que uma das imagens que a gente associa à boina é a da mulher chique francesa fumando um cigarro com cara de tédio.

bastardos inglórios

na segunda guerra mundial boinas já eram uma acessório comum nos uniformes de militares, e nos anos 60 elas estavam em todos os lugares: no maisntream, a boina se popularizou ao mesmo tempo em que o interesse pelo cinema new wave francês aumentava. na militância, grandes líderes revolucionários como che guevara e fidel castro tornaram a boina um símbolo de resistência, e os panteras negras não ignoravam a importância desse item.


huey e bobby decidiram pela boina depois de assistirem um filme sobre a resistência francesa ao nazismo durante a segunda guerra mundial, em que os resistentes usavam boinas pretas. pareceu a eles um forte símbolo de militância, e em conjunto com o resto do figurino pretendia passar uma imagem de força, unidade, orgulho e seriedade.


além disso, os panteras negras queriam desassociar a estética afro-americana da popularização dos tecidos africanos estampados, principalmente o kente, que lhes parecia estar sendo capitalizado e transformado em produto e portanto não representava mais o movimento negro. os associados do partido eram proibidos de usar roupas fabricadas nesses tecidos, que estavam sendo usados por corpos considerados usurpadores oportunistas de culturas.


ao se afastarem do simbolismo têxtil africano e aceitarem a performatividade como parte de suas estratégias, os panteras negras conseguiram se fixar na memória coletiva mundial, transformando itens de vestuário e gestos em símbolos atemporais da luta por direitos civis e da história da população negra nas américas.

olimpíadas de 1968

o repete roupa está dedicando o mês de junho à visibilidade negra. mandem sugestões de conteúdo!

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