• melody erlea

worn stories: histórias para vestir


existe um abismo gigantesco entre a "moda" - aquela das tendências, desfiles e consumo constante - e a "roupa" - aquela que tá grudada na nossa pele, todo dia, a que nos ajuda de maneira prática, a que nos deixa confortável, aquecidos, seguros, a que nos permite viver nossas experiências no corpo que possuímos.


e emily spivack, em seu livro "worn stories" - que deu origem à série de mesmo nome que estreou essa semana na netflix - deixa que a roupa conte sua história.


eu assisti só ao primeiro episódio da série - um delicioso mergulho na vida de um casal de nudistas que relata a liberdade de não ter que mais esconder, moldar e cobrir seus corpos. como se roupas - e a maneira que elas manipulam nosso corpo - fossem uma espécie de prisão e a verdadeira natureza humana fosse estar nu. como se a nudez fosse mais sincera que o vestir.


é bonito e muitos hão de concordar - roupa pode parecer sufocante, às vezes - mas eu aprendi com @fausto.viana que nudez é, também, figurino. e a gente performa nossos corpos, dando signficado a eles e os manipulando, da mesma maneira que performamos nossas roupas. que pessoas se encontrem mais em si mesmas quando nuas é tão compreensível quanto o oposto - que pessoas se encontrem em si mesmas através da maneira que escolhem usar roupas.


e me parece que esse é o ponto ao qual emily spivack quer chegar: que, independente de tendências efêmeras, apesar do mercado de constante demanda e produção da moda, as roupas (ou a nudez) que valem mesmo são aquelas que contam histórias pessoais.


roupas que se moldam ao corpo de quem as veste por anos a fio, roupas que evocam memórias e possuem as marcas das experiências vividas, roupas que adquirem a alma e a vida de seus donos.


e é assim - numa coleção de imagens de itens de vetimenta completamente comuns, cujo único valor é terem ajudado a moldar uma vida, acompanhadas dos relatos em primeira pessoa de quem as vestiu - que a autora tece uma belíssima visão das roupas que acabam, inadvertidamente, nos formando.



o livro tem bem mais histórias que a série (embora haja algumas inéditas para o netflix), e oferece uma narrativa mais simples, sem firulas, foto e texto, deixando as anedotas falarem por si só e nos encantarem. a versão para tv brinca com formatos diversos, misturando animação, documentário e entrevistas.


ao mesmo tempo, as pessoas entrevistadas para o livro parecem ter todas vidas grandiosas e cosmopolitas - são artistas, bailarinas, escritores publicados... enquanto a série oferece um ponto de vista mais pé-no-chão, com gente comum contando histórias deliciosas sobre peças de roupas que são valiosas por motivos diversos - mas, principalmente, porque ajudaram a moldar uma vida.


tanto no livro quanto na série a gente percebe que não tem grife, tendência, efemeridade e descarte - são itens que são guardados, pra sempre, como preciosidades, porque representam uma parte da pessoa que os vestiu, uma memória paupável de uma época vivida.



ps:

pros descolados de plantão, uma das entrevistadas de emily spivack para o livro foi marina abramovic, que contou sobre seu item mais valioso: o par de tênis que usou pra percorrer a muralha da china e encontrar ulay, seu companheiro de trabalho e ex parceiro romântico, para um adeus.






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