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  • Foto do escritormelody erlea

o visual hiper-feminino de pj harvey


nos idos tempos do orkut tinha uma comunidade que eu amava: chamava “quase bonitas”, e era uma homenagem a mulheres que tinham seu charme, mas que por pouco não eram convencionalmente bonitas. sabe assim, testa grande, nariz avantajado, sorriso torto.


a capa da comunidade era a esplendorosa pj harvey, com sua vibrante sombra azul que lembrava, ao mesmo tempo, a rebeldia alienígena de bowie e a bruxaria glamurosa de ursula, em a pequena sereia.

e, pra mim, pj harvey sempre será assim: sombra azul, cabelo preto, batom vermelho, sobrancelhas marcadíssimas. como tantas personalidades do rock e do pop, harvey teve muitas estéticas e eras - mas foi essa que me pegou de jeito: a polly jean do disco to bring you my love, de 1995. conhecer a pj harvey nessa fase de sua carreira me ajudou a perceber que dá pra ser quase bonita e, ao mesmo tempo, a mulher mais atraente do universo.

essa contradição estética da pj harvey é essencial na compreensão de sua música e sua persona - que desde o início mesclou os temas crus do rock com elementos hiper-femininos. mas foi a partir de meados dos anos 90, com o clipe de down by the water e uma icônica apresentação no festival glastonbury, que pj harvey cravou sua mensagem musical e visual: uma alma sombria travestida de elementos femininos e coloridos.

a dragqueenização da make de pj harvey não era à toa. ela tava realmente brincando com as ferramentas de beleza tipicamente femininas num mundo musical majoritariamente masculinizado - exagerando e amplificando elementos visuais que, naquele universo róquenrôu, seriam normalmente desprezados.


ela mesma, em sua fase anterior, tinha um visual mais “condizente” com o que se espera de uma “roqueira feminista”: cabelo preso, coturnos, jaquetas de couro, cara lavada, axilas não depiladas. quase um uniforme da mulher do rock, o dresscode pra poder entrar nesse clubinho dos meninos.

mas é a pj harvey de macacão colado rosa-choque e sombra azul que subiu no palco do glastonbury em 95 que estava realmente dizendo algo com seu look.


pj estava utilizando e subvertendo elementos estéticos do universo feminino; oferecendo uma versão dessa mulher enlatada que ironizava o olhar masculino, que dizia: não é isso que se espera de uma mulher? então eu vou fazer, mas a versão extrema, a versão caricata, a versão drogada, a versão mais absurda e cartoonesca possível.


e num mundo em que, tantas vezes, somos obrigadas a ser "mais como homens" pra nos posicionarmos, pj harvey ousou ser mais como mulher, muito mais, mais a ponto da gente se questionar as funções dessas tais de masculinidade e feminilidade, se o visceral obscuro e subjetivo que está logo abaixo da superfície é igualmente tenebroso em todos nós.

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